Ravnica Allegiance

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

23 de Janeiro de 2019 | Por Nicky Drayden

As Ilusões da Brincadeira de Criança

Eu a espio pelas janelas da frente de sua loja de efígies e não consigo impedir meu maldito coração de palpitar. Ela está debruçada sobre sua bancada, pintando rostos em crânios em miniatura e depois fixando-os em corpos de bonecas fantasiadas com trajes elaborados que ela mesma desenhou. O couro preto é melhor cortado do que o traje da Diva do Flagelo, e o cuidado que ela tem ao adornar os crânios com chifres alimenta o fogo dentro de mim.

Tenho que falar com ela desta vez. Olrich, aquele filho de um diabo que às vezes ouso chamar de amigo, diz que vai me esfolar em pedaços se eu trouxer outra efígie para casa em vez do nome dela.

Respiro fundo, atravesso a rua, desviando cuidadosamente de um casal de cães infernais brincando de cabo de guerra com o fêmur de algum pobre voluntário que se envolveu nas festividades da noite passada. A maior parte das vísceras já foi coletada e você nem saberia que uma dúzia de pessoas morreu aqui no banho de sangue resultante, a não ser pelo tom vermelho profundo que persiste nas fendas entre os paralelepípedos.

Bons tempos.

"Pagão!" grita um velho envolto em túnicas brancas e azuis, parado na calçada em frente à loja. Verifico por cima do ombro para ter certeza de que ele não está falando com outra pessoa.

"Com licença?" eu digo.

"Demônio! Ladrão de almas! Pai da fornicação!" ele entoa, então empurra um panfleto para mim do novo Centro de Recuperação da Integridade no final da rua. "Reabilite-se! Abrace os caminhos da lei e da ordem antes que seja tarde demais!"

Já fui chamado de coisas piores e, embora a maioria seja verdade, isso não significa que eu goste de ser assediado por elocutores Azorius pretensiosos enquanto cuido da minha própria vida. Memórias surgem da minha vida antes de eu encontrar os Rakdos, antes de canalizar minha raiva em minhas apresentações. De quando ossos quebrados e carne perfurada eram o meio preferido para minha arte.

Mas então sinto ela me observando através da vitrine da loja. Imediatamente esqueço de cravar meus chifres neste cara e entro na loja.

Finjo estar olhando, cobiçando as bonecas penduradas pelo pescoço. Mesmo as efígies genéricas dela são melhores do que a maioria. A magia dentro delas me atrai, seus olhos de botão encarando exatamente onde minha alma estaria se eu tivesse uma. Afrouxo o laço ao redor do pescoço de uma boneca e a viro, inspecionando a costura enquanto capto vislumbres dela pelo canto dos olhos. Pego um bastão de carvão também, para manter as aparências, como se estivesse ansioso para desenhar o rosto do meu inimigo nele e depois atear fogo.

Chega de efígies, Kodo! As palavras de Olrich voltam para mim. Não foram exatamente essas as palavras dele, é claro. Houve muito mais insultos e xingamentos, mas o que ele espera? Que eu caminhe até ela e comece a jogar conversa fora?

"Posso ajudá-lo?" ela pergunta, olhos tão escuros quanto a meia-noite e a tinta vermelha das festas da noite passada ainda agarrada a metade do seu rosto.

Arte de: Randy Vargas

"Eu. Hum. Uhhh~" Empurro a boneca e o bastão de carvão para ela. "Gostaria de comprar estes."

Ela arranca a boneca e o bastão de mim. "Nã-nã-não. Você vem aqui toda semana há um mês e meio. Da última vez que esteve aqui, comprou uma resma inteira de pergaminho da praga, e eu tive que conjurar um lote inteirinho novo! Nem Lyzolda tinha tantos inimigos. O que você quer?"

Apenas se apresente. Faça conversa fiada. Você é um demônio, Kodo. Crie um par de chifres e aja como tal!

"Nós", gaguejo. "Você e eu. Nós~" Cruzamos caminhos em várias festas, deleitando-nos com prazeres hedonistas e performances agonizantes. Ela era durona para uma humana e não estremecia com a dor dos artistas — os comedores de vidro, os que caminhavam sobre o fogo, o bobo que fazia malabarismos com crânios flamejantes~mas sua tenacidade finalmente cedeu diante do ogro que tentou arrastar uma carroça cheia de imps usando correntes presas a anzóis em suas pálpebras inferiores. Bem, devia haver um imp a mais na carroça naquela noite e, quando os uivos do ogro ecoaram pelo salão de festas, a mão dela deslizou para a minha e não saiu mais pelo resto da noite. Bebemos, dançamos, nos beijamos e rimos quando descobrimos que ambos usávamos "ilusão" como nossa palavra de segurança. "Nós~" Uso alguns gestos obscenos com as mãos, tentando insinuar atos de depravação que desfrutamos, mas ela cerra os olhos para mim, esperando que eu diga algo.

"Ah! A besta de duas costas!" ela exclama.

Eu assinto, mas então noto que outra pessoa entrou na loja e tomou a atenção dela. O fedor doce e defumado de matéria do vazio me domina e as sombras se retorcem e sofrem mutações como se tivessem esquecido como se comportar. Viro-me para ver uma besta do éter — uma coleção interessante de membros preto-azulados estendendo-se de um torso com uma espinha dorsal nodosa proeminente tanto na frente quanto atrás. Não há cabeça para falar, mas posso dizer que ela está me encarando.

Arte de: Simon Dominic

"Não terminei com você", ela me diz antes de ir atender seu cliente. Ela carrega cada um de seus braços com sacos de juta que estão sobre o balcão.

Reúno toda a minha coragem enquanto ela está ocupada. Não terei outra chance. A última pessoa em Ravnica que você quer irritar é um mago de efígies.

"Diga ao seu mestre que espero que ele tenha um Festival da Fúria depravado!" ela diz, despedindo a besta de duas costas com um sorriso. Então o rosto dela fica rígido e ela volta para a minha frente.

"Oi", eu digo, estendendo a mão. "Sou Kodolaag. Ficamos em algumas festas."

Ela me olha de cima a baixo uma vez, depois cruza os braços. "É. Você parece meio familiar. Máscara de couro vermelho? Os piercings simétricos com as bolas de maça de ferro penduradas em uma corrente?" Um rosnado se instala na garganta dela. "Você percebe que este é o meu local de trabalho?"

"Pagão!" vem a voz do velho novamente, gritando com a besta do éter desta vez. "Flagelo!"

Tento ignorá-lo e manter o foco no porquê de estar aqui. "Sei que isto é terrivelmente inadequado, mas pensei que nós—"

"Você pensou que tínhamos algum tipo de vínculo tácito que se estende às nossas vidas pessoais?"

Bem, quando se diz em voz alta, soa bem tolo. Eu sorrio e tento salvar as aparências. "Diga, o Mockturne é a alguns quarteirões daqui esta noite~"

"É?"

"Pensei que talvez eu te convidasse? Tenho uma apresentação. Meio que um comentário social poético."

"Passo. É a primeira noite do Festival da Fúria e estou atrasada na criação de efígies. Não que vá importar com aquele Azorius lero-lero lá fora assustando meus clientes."

"Por que você não~sabe." Aponto para uma efígie, depois faço sons de pequenas explosões e balanço os dedos como brasas caindo.

"Novas leis nos céus na semana passada. Feitiços de efígie usados em membros do Senado Azorius são puníveis com prisão. Ele é irritante, mas não vou arriscar perder minha loja por causa disso."

Talvez ela não possa arriscar mandá-lo embora, mas eu não tenho nada a perder. Puxo uma folha de pergaminho da praga da lixeira junto com um bastão de carvão e caminho até a janela. O homem Azorius está gritando com um par de ogros agora. O Pico do Escárnio e os bairros ao redor caíram sob o domínio Rakdos desde que me lembro, o que são pelo menos alguns milhares de anos. Mas ultimamente, os Azorius têm agitado as coisas com sua presença, comprando propriedades baratas, montando fendas de vigilância em todos os lugares e depois reclamando quando apresentações de rua transbordam para gramados bem cuidados todas as noites. É enlouquecedor ver minha comunidade ser vítima da ordem e da justiça.

Rapidamente, esboço um desenho do homem. Minhas habilidades de desenho são rudimentares, mas posso sentir a magia sangrando do pergaminho, unindo a ilustração e a pessoa com fios invisíveis. A imagem começa a dançar na página, movimentos espelhando os que o homem está fazendo. Bato no vidro e ele se vira. Pressiono o desenho na janela. Ele não deve saber sobre o pergaminho da praga porque não reage ao desenho. É magia fraca, usada principalmente por crianças para atormentar seus irmãos e, às vezes, seus pais quando não conseguem o que querem. Apenas um minuto ou dois de dor agonizante e queima-cérebro antes que os efeitos se dissipem completamente. Brincadeira de criança.

Arte de: Wesley Burt

O homem observa enquanto eu rasgo o papel ao meio longitudinalmente, um rasgo irregular partindo o desenho em dois. Ele agarra a cabeça com as duas mãos, gritando a plenos pulmões. No momento em que o rasgo atinge seu umbigo, ele está tonto e delirante, e foge cambaleante para longe.

"Pronto", eu digo. "Problema resolvido."

Ela não parece impressionada. "É, e em uns dez minutos, terei meia dúzia de detentores Azorius batendo na minha porta. Não posso vender nada se estiver trancada em Udzec."

Fico esperando que ela me peça para sair para que eu possa passar por aquela porta e deixar esta experiência miserável para trás, mas a postura dela mudou. Sumiram os braços cruzados, a carranca. Não me entenda mal, ela ainda está irritada para caramba, mas de alguma forma parece que estamos nesta enrascada juntos.

"Quantas bonecas você precisa vender?" pergunto a ela.

"Trinta para empatar esta semana."

"Você pode vender isso facilmente no Mockturne hoje à noite. O dono do clube é um grande amigo meu. Tenho certeza de que ele deixará você montar sua tenda. Os detentores perderão o interesse em uma simples violação de efígie assim que a carnificina do Festival da Fúria começar."

"Sério?" Ela levanta uma sobrancelha cética, então estende a mão. "Sou Zita. Você tem certeza de que seu amigo não vai se importar?"

Zita. Eu consegui o nome dela, seu bastardo diabólico.

Meu sorriso se alarga. "Olrich e eu somos como família. Não tem como ele dizer não."

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"Não", diz Olrich, espiando através das cortinas de palco vermelho-sangue para o fosso revestido de pedra onde a multidão se reunirá em algumas horas. Zita está parada perto da grade de uma fornalha apagada, com vinte sacos de juta cheios do melhor de seu artesanato aos seus pés. "Eu absolutamente não vou me envolver com magia de efígie. Os Azorius estarão em força total hoje à noite, apenas esperando para pegar violadores."

"Você nunca teve medo deles antes. Aquele número que você fez sobre o Baan há alguns meses já é lendário."

"As coisas não são mais como costumavam ser, Kodo." Olrich, o pequeno diabo frenético, corre de quatro em direção ao que passa por cozinha neste estabelecimento.

"Vou cobrar um favor. Vou conseguir para você uma audiência em Rix Maadi!" grito atrás dele. Ele para. Vira-se. O maior sonho de Olrich é se apresentar em nosso Salão da Guilda, mas conseguir um número no palco lá é quase impossível se seus fãs não somarem milhares. Ele se lança em meus braços para estarmos olho no olho. Agora tenho a atenção dele. "Faz alguns séculos que não me apresento lá, mas ainda conheço muita gente da trupe. Posso conseguir para você o centro do palco nos Terrenos do Festival! Imagine o calor sufocante. O cheiro de enxofre fresco em seus pulmões. Por favor~"

Arte de: Deruchenko Alexander

"Tudo bem. Mas ela fica no canto mais distante. E é bom que você me consiga uma audiência na frente do próprio Rakdos!"

"Rakdos e eu somos como família~" digo e, dez segundos depois, estou contando a boa notícia para Zita.

A multidão começa a entrar pouco depois de ela estar instalada. Não é o local ideal, mas ela está longe o suficiente da entrada para não chamar a atenção dos detentores que passam. Zita ainda não está impressionada comigo, mas também não está me queimando em efígie~ainda. Logo ela ouvirá minha poesia, o que provavelmente a influenciará para um lado ou para o outro.

Olrich aquece o público com suas travessuras diabólicas e uma personificação perfeita de Niv-Mizzet que inclui cuspir fogo nos pés daqueles pobres bastardos tolos o suficiente para sentar na primeira fila. Ele está bem esta noite. Pensamentos de se apresentar em Rix Maadi provavelmente ainda estão nadando em sua cabeça. Muitos artistas de pequeno porte aspiram a isso. Não os culpo. Em Rix Maadi, as risadas são mais altas, os truques mais espetaculares, o sangue mais vermelho, mais espesso, mais doce. Noite após noite, você colhe suas recompensas, participando de todos os assuntos da carne. Você constrói um séquito, groupies insaciáveis deleitando-se com sua devassidão habilidosa, até que um dia, Rakdos percebe que você tem apenas alguns fãs a mais do que ele.

Então ele mata metade deles.

E depois disso, os truques são mansos, as risadas são abafadas e o sangue diminui para um fio d'água. Você arruma suas malas e deixa a Subcidade para ganhar a vida nas ruas de Ravnica, recitando poesia para bêbados.

Subo ao palco, coloco meus óculos no nariz e olho para as notas amassadas em minha mão. Tambores batem, peles humanas finas emitindo notas percussivas agudas que reverberam por todo o fosso. Eu leio:

Ferro. Correntes. Sangue. Facas.

Filhos. Filhas. Maridos. Esposas.

A vida escorre pelo ralo.

Sem prazer, não há dor.

Momentos roubados, anos roubados.

O tempo passou, mas o coração ainda arde.

Fora do lar onde o amor um dia sentou,

A morte estende seu tapete de boas-vindas.

Uma pessoa aplaude timidamente. Olho para cima, esperando que seja Zita, mas não é. O público se perde em beberragem de cerveja e conversas paralelas. Posso reconquistá-los, mas terei que fazer algo mais arriscado.

Limpo a garganta de forma detestável para fisgar a atenção deles. "Então, aposto que vocês notaram todas as fendas de vigilância por aqui hoje em dia, brilhando no ar, depois sumindo com um puf assim que vocês olham direto para elas. Não se pode dar uma barrigada sem se perguntar se algum infeliz mago de onividência Azorius está observando você fazer força no trono. Embora, justiça seja feita, o estrago que a canja de imps do Olrich faz em seus intestinos deveria ser um crime passível de prisão!"

"Não há nada de errado com a canja. Eu como todo dia!" Olrich grita do fundo do palco, mas é tarde demais. Consegui algumas risadas e o público está se aquecendo para mim.

"Isso é porque você tem um estômago de ferro, meu amigo, e seu controle de esfíncter é lendário!" Aponto para o demônio na primeira fila, colher mergulhada pela metade em sua tigela de sopa. "Para este pobre coitado, no entanto, temo que o código Azorius 3435-T esteja prestes a ser quebrado~uso de material explosivo em espaço confinado. E esse espaço~são as calças dele."

Deleito-me com a gritaria e a algazarra barulhenta. Um ogro pula de seu assento e agarra o candelabro de ferro forjado pendurado acima. Ele balança para frente e para trás, realizando acrobacias, e apesar do tapa-sexo com estampa jacquard que se recusa a cumprir seu dever e dos pedaços de cimento em pó caindo do teto, todos os olhos maravilham-se com suas manobras graciosas. Pelo menos até que um dos cravos de ferro embutidos em seu ombro fica preso no trabalho de detalhe do candelabro.

A carne rasga, o ogro cai de volta em seu assento com um grito de dor. Ele afoga seu constrangimento em uma caneca de cerveja. O sangue no ar permanece, porém, e se a atenção da plateia estava fumegando antes, agora está em chamas.

"E o ato de escrever nos céus está em alta. Há tantas novas runas de lei acesas acima de Nova Prahv que o céu sobre o Salão da Guilda brilha mais do que todas as velas do bolo de aniversário do Rakdos! É tão brilhante que os senadores Azorius estão ficando queimados de sol no caminho para o trabalho!" Ergo a mão e cerro os olhos como se estivesse olhando diretamente para o sol. "Oooh! Queima! Mas não como se pele vermelha flamejante não fosse sexy, estou certo?" Faço uma pose lasciva e as risadas rolam. Recebo um assobio também e não posso dizer que estou decepcionado quando olho para cima e vejo que veio de Zita.

"Como todos sabem, Udzec abriu faz pouco tempo. Prisão. De Segurança. Máxima." As vaias vêm rápidas e fortes. "Eu sei, eu sei. Quantos de vocês conhecem alguém em Udzec?" Quase todo o público levanta a mão. "Ouvi dizer que já está acima da capacidade. Cinquenta mil prisioneiros naquele Monólito. Na verdade, só existe uma coisa em toda Ravnica que é mais cheia do que Udzec e é o ego do Dovin Baan!" Ajusto lapelas imaginárias e ando por aí como se tivesse um atiçador de fogo enfiado no traseiro, apontando para pessoas aleatórias na multidão e, com minha melhor imitação anasalada do Grão-árbitro dos Azorius, digo: "Você ganha uma cela e você ganha uma cela e você ganha uma cela! Prisão para todo mundo!" A multidão explode. "Você está rindo de mim, cidadão? Ninguém ri na presença de Dovin Baan!"

Então o lugar inteiro fica quieto como uma cripta. Olho para o lado e vejo um detentor Azorius surgindo na entrada. Limpo a garganta novamente e inverto o curso, atacando os Gruul desta vez. As risadas são forçadas. A tensão na sala é palpável. Termino meu número de qualquer maneira — vinte e três minutos de pura tortura. O público começa a diminuir na metade e até Zita parece querer ir embora. Assim que a última piada escorre da minha língua bifurcada, recuo para os bastidores para recuperar o fôlego. Os Azorius nunca costumavam me irritar assim. Cem anos atrás, teríamos envergonhado coletivamente aquele soldado para fora do local. Mas estes últimos meses, algo mudou. Agora, estou no limite, preocupado em ser preso por usar algo tão inocente quanto um pergaminho da praga.

"Já vi números piores", diz Olrich, pulando no meu ombro para me consolar. Ele sempre foi um grande mentiroso e eu aprecio isso agora mais do que nunca.

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Ajudo Zita a carregar suas sacolas de volta para sua loja. Deve ser seguro agora com o Festival da Fúria em plena força. Mestres de Cerimônias dançam em seus carros alegóricos, lançando colares de vértebras douradas na multidão. Organistas tocam melodias excruciantemente altas que mal podem ser consideradas música. O vômito é tão abundante que está escorrendo pelas ruas e os sinos do abate tocam ao longe — dobrando por cada alma que Rakdos reivindicou este ano. Ignoro tudo. Não estou com disposição para comemorar.

"É impressão minha ou estamos carregando mais efígies do que quando viemos?" pergunto a Zita.

"Vendi doze, mas quando aquele detentor entrou, todos exigiram reembolso. Também comecei a fazer uma nova durante o seu número. Tinha que passar o tempo de alguma forma."

"Ai." E isso sela o destino. Nunca mais a verei. Pelo menos com nossas máscaras fora. Mais três quarteirões e ela sairá da minha vida para sempre.

"Hã, olha aquilo", diz Zita, apontando para um grafite na lateral de uma loja de couro: Dovin Bann chupa ovos podres de drake. "Escreveram 'Baan' errado. O cara pode ser um traidor, aproveitador e vendido, mas se você vai caluniar alguém, é melhor escrever o nome certo." A magia ainda está fresca e Zita massageia o primeiro n até transformá-lo em um a passável. "Melhor?"

"Acho que sim", digo, chutando cascalho com meus cascos. Continuamos nosso caminho, mas um desfile do vício nos alcança. Carros alegóricos meticulosamente decorados manobram pela rua, carregados por demônios maciços que fazem minha própria largura parecer pequena. Bobos movem-se pelas rodas de dor de ferro forjado e gaiolas de tortura, despreocupados e alheios à promessa de morte de um único passo em falso.

Arte de: Jonas de Ro

Cometo o erro de olhar por tempo demais e uma das bobas me prende em seu olhar astuto e sinto necessidade de me voluntariar. Subo no carro alegórico e subo pelas escadas distorcidas da gaiola de tortura que beiram ilusões de ótica. Espetos me aguardam se eu cair, provavelmente com pontas envenenadas, porque gritos mais altos trazem aplausos mais altos e o Festival da Fúria não é época de contenção. Mas não sou um voluntário comum. Vivi e respirei gaiolas de tortura por séculos. Executo um salto mortal duplo e grupado, agarrando uma barra, depois a próxima, balançando de apoio em apoio enquanto me impulsiono para o alto. A estrutura esquelética de ferro torna-se mais precária quanto mais subo. A soldagem é mais porca, o metal é mais frágil, mas coloco tudo isso fora da mente e me concentro no show. Para o final, uma parada de mão com uma só mão em cima do braseiro flamejante, depois desmonto de volta para o público sob aplausos gerais.

Dez segundos sentindo o cheiro da minha própria carne cozinhando me deixaram com vontade de um petisco festivo. Chamo um vendedor de rua e peço horror defumado com mel para compartilharmos, carne macia caindo do osso.

"Você deveria ter um número como esse", Zita diz enquanto se inclina em mim, lambendo o molho vermelho picante dos dedos. A barreira que ela erguera entre nós sumiu de repente. Melhor que sumiu. Como se nunca tivesse existido. "Você foi incrível."

"Eu tinha um número como esse~uma vez."

Ela olha para mim, pronta para que eu abra meu coração, mas passos batem no pavimento atrás de nós. Viramo-nos e vemos um soldado Azorius marchando em nossa direção.

"Parados!" ele ordena. "Vocês estão presos por violação do código Azorius 3691-J~"

Deixo cair os sacos de bonecas e coloco as mãos atrás das costas, esperando a magia prender meus pulsos. Maldito pergaminho da praga. É mal e mal magia de efígie!

"~pichar um edifício público", ele continua, "mais o código Azorius 6342-P, caluniar um Grão-árbitro", diz o detentor, prendendo Zita com magia suficiente para parar um gigante.

"Ela não pichou edifício nenhum!" eu digo, relaxando minhas mãos. "Bem, tinha aquele grafite, mas não foi ela que colocou lá. Ela só corrigiu um erro de ortografia."

Zita olha feio para mim.

"Seu depoimento como testemunha corroborando a culpa dela foi registrado, cidadão", o detentor entoa.

Eu estremeço, "Mas~!" E assim, Zita sai da minha vida. Desta vez completamente.

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Todo mundo sabe que Udzec não pode ser invadida por fora, mas Olrich afirma conhecer alguém que trabalha lá dentro~ou pelo menos ela costumava trabalhar lá dentro. Pelo aspecto das coisas, a queda dela da dignidade dos Azorius foi íngreme. Tão perto das docas, o casebre dela é indistinguível dos barracos de peixe ao redor. O incenso espesso que sai pelas fendas das paredes mantém o pior do fedor à distância.

Arte de: Adam Paquette

Scry Me a River, diz a placa, uma tábua de madeira gasta pelo tempo que pende mais baixo de um lado.

"Você tem certeza disso?" Olrich me pergunta pela décima segunda vez. "Porque uma vez que cruzarmos este limiar, não tem volta."

"Não posso deixar a Zita apodrecer na prisão! Sei que é ridículo, mas sinto que somos almas gêmeas."

"Você não tem alma, Kodo." Olrich eriça os pelos. "But se ela significa tanto para você, vamos fazer isso."

"Olrich!" uma mulher atende, abrindo a porta um segundo antes de batermos. Ela é toda enrugada, não como uma mulher velha, mas como se tivesse simplesmente vestido a pele mais próxima sem pensar em como ela servia. Ela se abaixa e abraça o diabo, um abraço que perdura o suficiente para eu me perguntar sobre o passado compartilhado entre eles.

"Bom ver você, Lucinka. Este é—"

"Kodolaag", ela diz, estendendo a mão e apertando a minha vigorosamente. "É maravilhoso finalmente conhecê-lo. Em carne e osso."

Ela nos acompanha para dentro, duas cadeiras dispostas para os convidados, uma com um assento de elevação para que Olrich possa ficar no nosso nível. Uma caixa embrulhada em papel alumínio está no meio da mesa. "Você disse a ela que viríamos?" sussurro para Olrich. Ele balança a cabeça.

"Como você tem passado?" Olrich pergunta. "Parece que você deu uma melhorada no lugar."

"Ocupada. A pirataria Simic está em alta. Um em cada três barcos que partem daqui não volta para a costa. Dei uma equilibrada nas chances, avisando os capitães sobre o melhor momento para zarpar. Não paga muito, mas minha consciência está tão clara quanto uma bola de cristal hoje em dia." Ela sorri educadamente. "Eu perguntaria como você tem passado, mas~" Ela toca a testa bem entre as sobrancelhas, depois serve a cada um de nós um copo de Uísque Contraforte Sul e deixa cair um único cubo de gelo no meu antes que eu pudesse pedir um.

"Você é uma maga de precognição", eu digo enquanto ela toma um gole, principalmente para que ela não tenha tempo de se antecipar a mim. Um sorriso irônico cruza os lábios dela.

"Sinto muito. É um hábito horrível. Preciso me lembrar de que as pessoas gostam bastante de ter suas perguntas formadas na cabeça antes de eu respondê-las. Mas estou muito melhor do que costumava ser. O Senado nunca nos encorajou a considerar as ramificações da nossa clarividência. Os corações deles estão no lugar certo, mas suas paixões pela justiça podem ser, bem~um pouco ambiciosas demais, ligadas à letra da lei em vez de ao seu espírito. E para responder às suas próximas perguntas, Sim. Sim. Trinta e sete anos. Eu não suportava prender pessoas que ainda não haviam cometido um crime. E estritamente platônico. Sei que você não ia perguntar essa última em voz alta, mas está escrito na sua cara."

Minha mente está girando.

"Sinto muito. Fiz de novo, não fiz? Ah, bem."

Olrich confia nela e ela parece legítima, então deslizo a maior parte das minhas economias pela mesa. Não é muito. Mesmo bons poetas mal ganham uma ninharia e eu estou longe de ser bom.

Lucinka levanta a tampa da caixa que está na mesa. "Lá dentro, tenho tudo o que você precisará para realizar o que deseja fazer. Não diga em voz alta. Tente nem pensar nisso. Quanto mais espontâneo você for, menos provável será que levante a suspeita dos magos de precognição. Visite Udzec amanhã de manhã. Fique na fila atrás da minotauro com uma juba vermelha cacheada. O resto deve se tornar aparente à medida que for necessário. Vocês dois precisam estar lá para que isso seja bem-sucedido."

Olrich abre a boca para objetar, mas Lucinka o encara com firmeza.

"Sim, ambos. Cada um de vocês possui habilidades necessárias para libertar os inocentes." Ela toma um último gole longo de uísque, coloca a garrafa dentro da caixa, fecha bem a tampa e depois desliza a caixa para mim. "De nada. E não abram isso até estarem na fila."

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Runas giram do lado de fora de Udzec, um enorme pilar projetando-se para o céu. Chegamos cedo, observando os visitantes entrarem em fila. Estou com a caixa bem apertada, resistindo ao impulso de espiar lá dentro. Finalmente, a vemos, a minotauro com uma carga de cachos vermelhos descendo pelas costas. Olrich e eu cortamos rapidamente para logo atrás dela.

A fila desacelera até parar. Olrich e eu nos olhamos, depois abrimos a caixa e encaramos o conteúdo: meia garrafa de uísque, um macaquinho de criança com folhas de outono no peito e uma manta de cueiro combinando, e um amuleto de ferro forjado com uma grande pedra de âmbar incrustada com redemoinhos pretos que se movem como sombras do éter. Magia fria-sangue~já vi isso vezes suficientes durante a última noite do Festival da Fúria. O Mestre de Cerimônias escala uma gaiola de tortura de cinco andares e quebra a pedra, liberando uma explosão ardente de magia fria-sangue sobre a multidão abaixo, causando motins e caos instantâneos. Sempre um sucesso de público. Pelo menos para quem sobrevive.

Arte de: Johann Bodin

"Não podemos ser pegos com isto aqui", digo ao Olrich. "Nós também vamos parar em uma cela."

"A Lucinka não nos levaria ao erro. Eu confio nela. Deve haver algo que devamos fazer com isso."

Olho para trás, pronto para sair e nos reorganizarmos, mas pelo menos cem pessoas bloqueiam nossa saída. Fico na ponta dos cascos e vejo anuladores de magia Azorius na frente da fila, inspecionando todos em busca de magia e contrabando. Uma das magas, uma vedalken pálida e azul esbelta, parece que está entrando no terceiro turno, cansada e desleixada, mais preocupada em abafar seus bocejos do que em realizar buscas minuciosas. Um jovem elfo carregando um bebê passa e a anuladora de magia mal presta atenção no bebê. Uns tapinhas. Ela é repreendida pelo parceiro, que dá tapinhas na criança novamente, mais minuciosamente desta vez. Olho para o macaquinho, depois para o Olrich. "Acho que é para você vestir isso."

Os olhos dele se arregalam. "De jeito nenhum, de forma alguma. Sou trezentos anos mais velho que você, pelo amor de Rakdos!"

"Eu sei disso. Mas você mesmo disse. Você confia na Lucinka."

"Ela é uma médium conspiradora com cara de ameixa seca, é o que ela é", ele bufa, mas depois se enfia no macaquinho, com uma pequena aba na parte de trás deixando sua cauda de piche balançar livremente.

"Você está tão fofo quanto no dia em que foi manifestado", eu digo.

"Ninguém vai cair nessa."

"Acho que você subestima o quanto suas bochechas são apertáveis." Ele realmente parece adorável e, embora isso possa nos render um pouco menos de escrutínio, não será suficiente para contrabandear algo tão potente quanto a magia fria-sangue por anuladores de magia.

"Aqui, engula isto", digo ao Olrich, passando o amuleto para a mão dele. É pesado, mas o estômago do Olrich é como um cofre. Já o vi esconder um saco de moedas do tamanho do meu punho quando suspeitou que seus trabalhadores estavam roubando do caixa. "Dê um bom uso a esse estômago de ferro. Não há tempo para refletir."

O olhar que Olrich me lança poderia congelar Rix Maadi, mas ele obedece. A última coisa de que precisamos é de uma boa e velha distração. A minotauro na nossa frente usa uma capa de lã, com o capuz caído nas costas. Lugar perfeito para esconder uma garrafa de uísque. Cuidadosamente, cuidadosamente, coloco a garrafa lá dentro, esperando que seja leve o suficiente para não repuxar o tecido.

A minotauro vira-se, me dá um olhar feio, mas então vê Olrich envolto em meus braços e seus olhos brilham. "Oh, que bichinho mais fofo. Ele tem os seus olhos, com certeza. Pena que o pequeno tenha que visitar um lugar como este. Nunca em mil anos eu teria pensado que estaria aqui também, mas o marido se envolveu com o tipo errado. Eu te digo, se você fizer negócios com corretores Orzhov, exija seus recibos por escrito!"

"Próximo da fila!" chama a anuladora de magia.

A minotauro vira-se, dá um passo à frente e dá uma sacudida irritada em sua juba. "Jitka Wothis aqui para ver Grimbly Wothis."

Os magos acenam para ela avançar e realizam seus trabalhos de detectar e anular magia. Ela passa por essa parte, mas quando é revistada, eles encontram a garrafa.

"Como isso foi parar aí?" ela grita. "Isso não é meu!" Todos os magos perto da nossa fila convergem para ela, exceto a vedalken, que apenas boceja e nos acena para avançar enquanto a minotauro tenta furar qualquer um que chegue perto dela com seus chifres.

"Sinto muito que seu pequeno tenha tido que ver isso", diz a anuladora de magia, lançando distraidamente um feitiço sobre mim. "Você não acreditaria nos tipos de coisas que as pessoas tentam contrabandear para cá." Ela faz cócegas no queixo de Olrich. Lanço-lhe um olhar severo até que ele solta um risinho adorável. "Bebida, armas encantadas, poções. O que você imaginar. Mas qualquer coisa que deixarmos passar será pega pelos magos de precognição. Alguém ouse sequer pensar em invadir este lugar com magia e podemos fechar tudo em vinte segundos cravados!"

As mãos dela dão tapinhas no Olrich e tento ao máximo não pensar no você-sabe-o-quê escondido no você-sabe-onde. Se o estômago do Olrich é forte o suficiente para segurar sua canja de imps, então talvez a magia tenha dificuldade em escapar dele também.

Finalmente, somos autorizados a passar. Um suspiro escapa de meus lábios, mas antes que possamos dar dois passos à frente, outro mago faz sinal para nós. "Vocês dois. Esperem um minuto."

Ele marcha até nós, depois coloca um livro nas mãos de Olrich. Um livro de colorir: Quebrando o Ciclo do Paganismo Geracional. Uma caricatura gigante de Rakdos está na capa sendo pisoteada por um vedalken impecavelmente vestido que guarda uma semelhança mais do que ligeira com o Baan. "Os Azorius estão totalmente comprometidos em ensinar à próxima geração os caminhos da justiça, não importa em que buraco de pântano tenham nascido." Ele passa a distribuir livros de colorir para todas as crianças que vieram visitar seu pai ou mãe encarcerados e fico absolutamente impressionado com a quantidade delas que há aqui.

Olrich começa a rasgar o livro ao meio, mas eu o arranco dele. "Não faça isso. Tudo está acontecendo por um motivo. Olhos abertos. Mente clara."

"Tudo bem. Mas juro que se alguém apertar minhas bochechas, vou arrancar o rosto da pessoa com uma mordida."

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Passei tanto tempo da minha vida vivendo o momento que leva um tempo para reconhecer a sensação de azedume no meu estômago. Culpa. Remorso. Uma sensação avassaladora de inadequação. Zita senta-se à mesa à minha frente, uma fina camada de magia azul-pálida desencorajando o contato físico.

"Como você está?" pergunto a ela. "Estão tratando você bem?"

Ela assente. "Não é tão ruim aqui. A comida é decente e os guardas são bem agradáveis. Além disso, fiz alguns amigos."

Solto um profundo suspiro de alívio. "Fico feliz em ouvir isso. A gente ouve as histórias de terror~condições de vida desumanas, trabalho forçado, brutalidade."

Zita sorri, mas seus olhos permanecem distantes. "Não em Udzec, com certeza. Vou cumprir minha pena em paz, levando um dia de cada vez para que o futuro não comece a parecer uma ilusão."

Arte de: Randy Vargas

Fico rígido. Ilusão. Nossa palavra de segurança compartilhada. Tudo aqui não está bem. Os guardas devem estar forçando os prisioneiros a falar com carinho sobre seu internamento — ou então. Preciso tirar a Zita daqui agora, mas se soltarmos o poder da magia fria-sangue, este lugar inteiro fechará em segundos, conosco ainda lá dentro.

"Juro que vou te tirar daqui, Zita", sussurro. "Vou encontrar um jeito."

Ela assente lentamente, depois olha para Olrich. "O que há com o bebezinho aqui?"

Olrich abre a boca para xingá-la, mas eu empurro o livro de colorir na frente dele. "Aqui", eu digo. "Mantenha-se ocupado, filho." Ele abre o livro, olha para a ilustração seguinte, depois a rasga em pedacinhos e os enfia na boca.

Zita dá uma olhada rápida ao redor, depois estende a mão através da barreira mágica. Ela cerra os dentes enquanto cargas elétricas percorrem seu corpo. Ela toca o livro de colorir e o soldado Azorius desenhado na página ganha vida.

"Nada de tocar!" diz o guarda parado sobre Zita.

Zita levanta as mãos. "Desculpe, desculpe. Só queria segurar meu filho. Sinto tanto a falta dele."

O guarda levanta uma sobrancelha para o que deve parecer uma família improvável, mas tenho certeza de que ele já viu de tudo um pouco em um lugar como este. Ele se aquieta e Zita olha fixamente para mim. Olho para a página com a ilustração imitando o guarda parado atrás dela. Pergaminho da praga improvisado. Cutuco um buraquinho na panturrilha da efígie e o guarda se abaixa para massagear uma cãibra na perna. Fico esperando que os anuladores de magia detectem a magia e converjam para nós, mas a magia deve ser fraca demais para ser registrada. Zita acabou de nos dar uma saída daqui.

Cutuco Olrich e faço-o conversar com Zita enquanto desenho cuidadosamente cada um dos guardas e magos de vigia na sala de visitas, vários por página, enquanto dezenas de visitantes conversam com seus entes queridos. Conto as ilustrações duas vezes, só para ter certeza absoluta de que peguei todos. Então arranco as páginas e as empurro através da barreira.

Magia elétrica incendeia o papel e os guardas gritam em uníssono como se estivessem sendo queimados vivos. Zita atravessa a barreira mágica, estremecendo com o choque. Suas roupas fumegam e estão prestes a pegar fogo. Ela tira seu traje de prisioneira e Olrich lhe dá sua manta de cueiro. É pequena demais para envolvê-la, mas ela a estuda por um momento, depois a rasga em ângulos precisos e, com algumas dobras e pregas, faz para si uma túnica curta, mas passável.

Uso as duas últimas páginas de pergaminho nos sentinelas de vigia pelos corredores sinuosos. Temos a espontaneidade a nosso favor e, se formos rápidos, estaremos longe daqui antes que os magos de precognição percebam nossa fuga.

Passos dobrando a esquina e fico desejando que Olrich não tivesse comido aquela folha de papel. Mas então Olrich limpa a garganta e diz: "Cidadãos! Contemplem! Sou eu, seu altamente estimado Grão-árbitro, Protetor da Justiça, Provedor de Protocolos!" em uma imitação perfeita de Dovin Baan que deixa minhas tentativas no chinelo. "Fechem vossos olhos e contem as maneiras como minha percepção e engenhosidade transformaram tão expedientemente esta guilda no farol brilhante de retidão que ela é hoje."

Os passos param. "Oh, Mestre Baan? Não sabia que o senhor estava—"

"Disse olhos fechados e comecem a contar!" ordena Olrich.

"Um", vem a voz mais débil. "O senhor abalou profundamente as fileiras, livrando o Senado daqueles que faziam mau uso do poder em seu nome."

Passamos silenciosamente pela esquina, depois pelo soldado, e logo nos encontramos em uma fila ordenada com o restante das pessoas que saíam da instalação. Estamos nos movendo rápido. Vamos conseguir.

"São eles!" diz uma voz familiar. "O demônio e seu diabo de filho! Desenhem um círculo da verdade ao meu redor para que não haja dúvidas de que estou dizendo a verdade!" Viramo-nos e vemos a minotauro novamente, com as narinas dilatando.

"Eu também!" diz uma mulher vampira, evitando vigilantemente os feixes de luz da manhã que entram pelas janelas. "Eu o vi fazer isso."

Antes que possamos negar, Olrich e eu somos amarrados em magia. Zita olha para trás para nós.

"Vá", sussurro apenas com os lábios. Ela hesita, depois se perde no meio das pessoas.

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Assim que recebemos nossos uniformes, somos colocados para trabalhar com o restante dos infratores não violentos e pré-infratores. Outro carregamento de quartzo branco move-se lentamente acima de nossas cabeças, um círculo de três dúzias de magos assentando o bloco flutuante no canteiro de obras de Exner, a nova prisão que deve ofuscar Udzec.

Agora, é apenas uma estrutura de andaimes de ferro que se projeta até as nuvens. É um projeto ambicioso, mas com 20.000 prisioneiros como mão de obra gratuita, está subindo rápido e deve estar pronto para abrir na próxima primavera.

O bloco de quartzo atinge o chão com um baque. Ataco-o com minha picareta, quebrando pedaços. Estou rápido e preciso agora. Nos primeiros dias, os soldados me chicotearam por quebrar a pedra em formatos irregulares e por demorar demais. Aqui, longe do escrutínio constante dos anuladores de magia, é mais fácil usar magia sem ser pego e há muitos xamãs em nosso grupo que podem curar pele ferida. Ouvi suas histórias. Crimes triviais, erros de identidade e, na maioria dos casos, pré-crimes baseados nos caprichos de magos de precognição trancados em suas torres de pedra branca.

Arte de: Even Amundsen

Olrich aproxima-se de mim no intervalo do almoço, com a mão atrás das costas. Ele me presenteia com um colar fino feito de vértebras de roedor e barbante. "Sei que não há muito o que comemorar~"

Eu quase esquecera que era o último dia do Festival da Fúria. Parece que faz uma vida inteira que entrei na loja de Zita, determinado a parar de ser um esquisitão e começar a ser um amigo, mas não faz nem uma semana inteira. Espero que ela esteja lá fora festejando nas ruas em algum lugar, sangue no ar, motins nas ruas. É a estação da decadência e da depravação.

Olho para a torre esquelética de Exner. Pontas de ferro irregulares para todos os lados, mas tenho certeza de que conseguiria escalá-la em segundos. Minha mente já está trabalhando e o tempo que tenho para orquestrar este plano está diminuindo. Magos de precognição sintonizarão meus pensamentos em pouco tempo. "Olrich", digo, sacudindo-o pelos ombros. "Lembra-se daquela coisa que você engoliu? Ainda está aí dentro?"

"É, está me dando cãibras terríveis, mas não tive chance de me livrar dela."

"Tussa isso para fora."

"Mas—"

"Agora! Rápido!"

Olrich produz o amuleto. Não pelo orifício que eu esperava, mas mendigos não podem escolher. Agarro o amuleto e saio correndo em direção à torre inacabada. Soldados pulam em pé, perseguindo-me com chicotes, magia correndo das pontas e pelo ar. Ela me atinge, mas ignoro a dor e subo, imaginando-me ser um artista mais uma vez, saltando, mergulhando, dando mergulhos perigosos e ficando um passo à frente da mira deles.

Chego ao topo, tirando um momento para apreciar a vista~milhares e milhares de prisioneiros abaixo de mim e centenas de guardas. Quando Lucinka previu que eu libertaria os inocentes, pensei que ela se referisse à Zita, não a inúmeras vítimas de injustiça.

Bato a pedra do amuleto contra o andaime de ferro, mas nada acontece. Olho para cima e vejo uma dúzia de arcontes dominando o horizonte, irradiando um brilho de luz branca. Suas feras voadoras avançam através das nuvens baixas, ganhando velocidade, aproximando-se. Os magos de precognição estão no meu encalço e no espetáculo que pretendo criar, se eu conseguir liberar esta magia. Nunca pareceu tão difícil para os Mestres de Cerimônias, mas, por outro lado, aqueles amuletos não haviam ficado no estômago de um diabo por vários dias, fermentando nas profundezas da pura escuridão. Mas se a pedra é mais forte, então talvez isso signifique que a magia também é. Reúno todas as minhas forças, flexionando músculos que se esforçaram contra rochas de pedreira, e bato a pedra novamente.

O amuleto racha e libera um enxame de gavinhas pretas, empurrando a luz para trás e transformando o dia em noite. O amuleto pulsa com o vermelho profundo e rico de sangue recém-derramado, então a pedra estilhaça completamente, enviando uma única pluma de magia derretida disparando alto no céu obscurecido. Tudo fica em silêncio mortal por apenas um momento e então uma explosão me deixa atordoado. Agarro-me ao andaime enquanto brasas fria-sangue chovem abaixo, cobrindo todo o canteiro de obras.

Quando a fumaça se dissipa, os arcontes ainda estão vindo, mas é tarde demais para alguém se organizar contra um motim desta magnitude. A loucura se espalha. Ferramentas tornam-se armas. O sangue é espesso no ar e o espírito da estação me preenche com a fúria mais perfeita. E, com um sorriso infantil no rosto, corro para baixo, para o meio da briga, ansioso para participar da maior celebração do Festival da Fúria de todos os tempos.

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Três cadeiras, uma com assento de elevação, estão posicionadas ao redor da mesa de Lucinka e uma caixa embrulhada em papel alumínio está em cima. Zita, Olrich e eu tomamos nossos lugares enquanto Lucinka mexe nas dobras de sua pele, como se houvesse uma fresta pela qual ela teme que possamos espiar.

"Quando eu poderei—" Zita começa a perguntar, sem experiência em conversas com uma maga de precognição.

"—voltar para sua loja? Nunca, receio. Suas vidas como as conheciam acabaram. Os Azorius não pararão de caçar até que cada uma das pessoas que escapou durante o motim seja levada à justiça. Eles admitem 3.300, mas o número real é muito maior."

Zita franze a testa. Sei o quanto a loja dela significava para ela. "Ok, então para onde nós—"

"—vamos a partir daqui? Vocês terão que estabelecer novas vidas na Subcidade", diz Lucinka. "Vocês três trabalham bem juntos. Estabeleçam uma nova trupe. Cercquem-se de pessoas em quem possam confiar."

Olrich anima-se. "A Subcidade. Uma trupe? Já consigo nos ver~as piadas mais vulgares, as acrobacias mais desafiadoras à morte, os figurinos mais extravagantes!"

"Figurinos", diz Zita, com um pouco de alegria surgindo em sua voz. "Eu posso fazer figurinos."

Lucinka sorri com ar de saber. "Vocês precisarão deles, porque o tipo de trabalho que farão como trupe se estenderá além do entretenimento frívolo. Embora a maioria das pessoas que você libertou sejam boas pessoas, há algumas com quem precisamos nos preocupar. Uma em particular."

Olho para a caixa sobre a mesa. "E o que tem aqui dentro nos ajudará a capturá-las?"

"Há, não. Isto é um presente de casamento para você e~" ela olha nos olhos arregalados de Zita. "Ah, deixa para lá. Apenas outra pergunta que vocês não farão por algum tempo ainda. Eu realmente sou a pior."

Zita aperta meu joelho por baixo da mesa. Olho para ela e sorrio. O amanhã pode ser uma ilusão, mas é uma pela qual estou disposto a esperar.

30 de Janeiro de 2019 | Por Nicky Drayden

A Fúria dos Não Cantados

Eu me agacho na grama marrom, com os olhos fixos em minha presa. A menos de seis metros de distância, um maaka fareja o ar, a cauda felina agitando-se irritada enquanto patrulha a área em busca de ameaças. Estou em segurança contra o vento em relação à besta, mas meu coração está batendo tão descontroladamente no peito que temo que o maaka me ouça e me rasgue em pedaços com aquelas garras pretas maciças.

Sua caixa torácica é visível através da pelagem quebradiça e todos os seus seis olhos em tom de esmeralda perderam o brilho. Não há tempo para ir em busca de uma besta mais saudável, porém. A guerra já está rugindo e o chão treme com a luta ao longe. No horizonte, consigo distinguir as bobinas incandescentes da magia de cerco — vinhas de cinza chicoteando as fundações dos edifícios e transformando-os em escombros. Trabalho de Dryzek, com certeza. Seu retorno da prisão alimentou o fogo nos corações do Clã Ghor — bem, na maioria de nós — e hoje à noite, o Cinturão de Escombros expandirá seu domínio enquanto as terras são trazidas de volta da beira da civilização.

As celebrações desta noite serão muitas e há uma boa chance de eu tatuar esses triunfos de guerra no próprio guerreiro lendário. Gigantes como Dryzek têm pele grossa, notoriamente difícil de ser perfurada por uma agulha, mas desenvolvi uma técnica que é duas vezes mais rápida e três vezes mais dolorosa que o método tradicional, o que permite que a pele absorva mais da tinta imbuída de magia~isto é, se eu conseguir tinta suficiente para cobrir o braço maciço de Dryzek.

A receita da tinta é simples, passada através de gerações, mas tomo o cuidado de colher os ingredientes eu mesmo:

Cinco pedaços de casca de pinheiro carbonizada,

Uma gema de ovo de hidra,

E as fezes de maaka mais frescas e verdes disponíveis.

Volto minha atenção para o maaka, que finalmente se sente confortável o suficiente para fazer suas necessidades e, assim que ele chuta terra para trás, sai em disparada e eu corro para lá. Franzo o cenho para o espécime, um marrom-esverdeado sem graça, mas terá que servir. Coloco minha tigela de barro no chão e rapidamente amasso a casca carbonizada até virar um pó fino. Então quebro o ovo, girando cuidadosamente a casca para que apenas a gema caia na tigela, e misturo até virar uma pasta homogênea. Finalmente, adiciono as fezes, mexendo e mexendo, mas esta mistura se recusa a ficar verde. Está ainda mais opaca do que o meu último lote.

Dobro a quantidade de fezes e a mistura finalmente ganha alguma cor. Conjuro magia do próprio solo e chamas vermelhas surgem da terra e tremeluzem ao redor da tigela. A tinta começa a borbulhar e prendo a respiração, esperando pelo brilho familiar que sinaliza que a mistura é viável e brilhará intensamente na pele quando a Fúria assumir o controle.

O sol se põe, sombras se estendem por esta extensão de natureza recuperada e, de repente, estou me sentindo menos como o caçador e mais como a caça. Na natureza selvagem, com frio e sozinho, é o último lugar onde um viashino como eu quer ser pego, então adiciono desesperadamente mais fezes à mistura até que finalmente a tinta brilha. Minhas reservas em adulterar a receita desaparecem enquanto redemoinhos verde-amarelados marmorizam a superfície. Perfeito. Coloco a tampa na tigela, envolvo-a em tiras de couro e ignoro os uivos do ermo enquanto corro de volta para a frente de guerra.

Arte de: Wesley Burt

Lá, no rastro da destruição desenfreada, respiro a poeira da pedra pulverizada e deleito-me com as espinhas dorsais rachadas da arquitetura pesada. A maioria dos artistas não se incomoda em caminhar pelas ruínas que tatuam nas peles de nossos guerreiros, mas acho que isso traz uma qualidade ao meu trabalho que não pode ser duplicada por relatos de segunda mão. Ao meu redor, goblins espumam pela boca enquanto perseguem os civis restantes. Crianças Gruul peneiram os escombros em busca de saque — criaturas selvagens tão belas com terra sob as unhas, insetos no cabelo, areia em seus sorrisos. E então eu o vejo, Dryzek, o berserker lendário, aproveitando sua Fúria para empilhar pedaços maciços de escombros em forma de presas como um tributo ao Javali de Devastação.

Para não ficarem atrás, Ruric e Thar empilham um tributo próprio, fazendo questão de uivar e grunhir enquanto sua pilha ultrapassa a de Dryzek em altura. Outros se juntam à briga, expressando seu apoio aos nossos líderes de clã. Mas os ogros, grandes como são, não são páreo para a largura de Dryzek e, conforme ele empilha outro bloco de escombros, seus apoiadores batem no peito e bufam como javalis, em menor número, mas igualmente ruidosos. E assim, a Fúria se acende. Ela viaja como uma infecção de um Gruul para o outro, arrepiando os pelos, inflamando tatuagens, fazendo os olhos brilharem intensamente. O berserker mais próximo de mim a pega e então eu finjo pegá-la também, jogando minha cabeça para trás e gritando a plenos pulmões. Esmago pedras, quebro vidro, ranjo os dentes, rezando secretamente ao Javali de Devastação para que um lampejo de Fúria entre em meu coração, mas, como sempre, ele permanece tão frio quanto cinzas de uma semana atrás.

Finalmente, as coisas se acalmam e recuamos para a fogueira para desfrutar dos despojos de guerra.

"Boa batalha hoje", grunhe Jiri, meu companheiro de ninhada, agachando-se ao meu lado e apresentando seu bíceps. "Dezoito blocos destruídos."

"Sim. Pena que perdi tanto dela", digo, encostando minha agulha em sua pele, continuando o mapa de civilizações arruinadas que desce por seu braço. Seis blocos Boros e doze Izzet. Os Izzet não conseguiriam construir uma estrada reta nem que suas vidas dependessem disso, o que torna meu trabalho interessante. Seus laboratórios surgiam em qualquer lugar estranho, invadindo vias públicas e às vezes outros edifícios, mas ver aqueles faróis espetaculares de caos caírem, fumegando e disparando faíscas para o céu, é uma emoção sem igual e tento ao máximo capturar esse sentimento na tinta.

Bato na extremidade da minha agulha entintada com um pequeno martelo, perfurando a pele escamosa de Jiri. Caio em transe, trabalhando rápido, diligentemente, como um incêndio movendo-se por uma floresta, mas continuo sendo distraído pelo som de Jiri batendo sua cauda com espigões no chão repetidas vezes. Quando me afasto, percebo que o verde-oliva de sua pele brilhou para um tom mais irritado.

"O que está acontecendo com você?" pergunto.

"Você não sente? A tensão?" Ele acena com a cabeça na direção de Dryzek.

O gigante encosta-se na carcaça de um edifício de pedra, a luz da fogueira tremeluzindo em seus olhos. Vários humanos cuidam dele, acalmando suas feridas e massageando seus músculos desgastados pela batalha. O olhar dele se volta para mim e eu imediatamente desvio os olhos em submissão.

"Acho que ele vai desafiar Ruric e Thar pela liderança do clã", meu irmão diz.

Balanço a cabeça. "Dryzek? Ele deve ter mil anos."

"Significa que ele é sábio."

"Mas ele acabou de sair de Udzec. Ele não tem ideia de como a ordem social mudou."

"Significa que ele tem uma maneira diferente de ver as coisas", diz Jiri, sua voz perfeitamente neutra. Neutra demais.

Nunca ouvi meu irmão falar mal de Ruric e Thar, mas há aqueles que não estão felizes com a liderança deles ultimamente. O ogro de duas cabeças é pura fúria, o tempo todo. Esmagar agora, fazer perguntas depois, ou geralmente nunca. Às vezes, sinto que eles estão ocupados demais lutando para lembrar pelo que estamos lutando. Mas Dryzek entende. Ele cresceu aprendendo os Antigos Caminhos e é mais paciente e prático em assuntos de guerra. Nossa luta não é sobre destruição desenfreada, mas sobre curar Ravnica da doença que se manifesta como construção gratuita e corrupção institucional.

"E se ele desafiar mesmo pela chefia?" sussurro. "Você escolheu um lado?"

"Ficarei do lado do vencedor. Você faria melhor se fizesse o mesmo." A cauda de Jiri fica imóvel. "Vi a maneira como você olha para ele. Ele é apenas um Gruul como qualquer outro Gruul."

"Dryzek é uma lenda! Você se lembra de quando éramos crianças, nos reunindo ao redor do fogo e ouvindo histórias sobre como ele batia o punho no meio de uma praça e fazia todos os prédios caírem?"

"Aquilo eram histórias, Arrus. Você bota o seu pescoço em risco por esse gigante e Ruric e Thar vão cortá-lo." Jiri se levanta, embora eu tenha terminado apenas metade da sua tatuagem. Ele joga para mim uma cauda de raktusk em pagamento.

Sei que ele tem razão. Jiri é a razão de eu ter este emprego, em vez de estar morrendo de fome nos ermos do Cinturão de Escombros, sem clã. O nanico da nossa ninhada, eu nunca tive físico para lutar. Minha pele é de um verde-amarelado pálido, da cor de bile de maaka, e meus espigões nunca irromperam, deixando-me liso da cabeça à ponta da cauda. Mas tornei-me decente com agulha e tinta e, conforme meus irmãos voltavam da guerra, eu marcava a pele deles com mapas detalhados dos territórios que haviam destruído. Eu vivia vicariamente através dos campos de batalha que tatuava em suas peles, enquanto minhas próprias aventuras consistiam em nada mais do que coletar materiais para minha tinta. O orgulho que eu sentia pelos meus irmãos transparecia no meu trabalho, porém, e logo eles estavam trazendo seus amigos para mim, e os amigos dos amigos, e assim por diante, até que recebi um convite para tatuar os próprios chefes de clã.

Arte de: Craig J Spearing

Meus olhos se voltam para a lenda, Dryzek. Tatuar aqueles braços, porém~

Levanto-me, aproximando-me dele com um arqueamento subserviente, mãos abertas e esticadas para o lado. Seus servos humanos param o que estão fazendo e formam uma barreira frouxa à frente dele.

"Podemos ajudá-lo, irmão?" diz o que segura um espeto de madeira com um garfo de piche destinado a cozinhar, mas que poderia facilmente se tornar uma arma. Mesmo dentro do clã, especialmente dentro do clã, não há espaço para baixar a guarda.

"Sou o artista aqui", digo. "Arrus, podem me chamar. Esse é meu nome. Sou o artista aqui." Chicoteio minha cauda nervosamente. "Eu já disse isso, não disse? Precisa de tinta?"

"Sim~" a lenda brada, uma voz profunda que consigo sentir no meu próprio peito. Ele se aproxima de mim e afasta seus humanos. Eles retornam aos seus deveres, o do espeto cravando a ponta afiada em uma carcaça fresca de drake. Eles a erguem sobre a fogueira pessoal de Dryzek e o cheiro de carne assando deixa minha boca escorregadia por dentro.

"Pela maneira como todos estão me evitando, estava pensando que não éramos mais bem-vindos no Clã Ghor", diz Dryzek. "Parece que eu poderia devastar toda Ravnica e ainda assim não cair nas graças de Ruric Thar."

"Ruric e Thar. Eles são dois—Quer saber? Esquece." Sem pensar mais, pressiono um de meus dedos contra o bíceps de Dryzek como se estivesse testando a firmeza de um melão. "Dezoito blocos?" guincho.

"A pele é grossa", diz Dryzek.

"Nunca é um problema", digo. Desenrolo minha faixa de tatuagem e começo a trabalhar. O bronze profundo de sua pele absorve a tinta como se estivesse sedento por ela e consigo adicionar contornos e sombras, dando à tatuagem uma sensação tridimensional. O laboratório Izzet assume o centro das atenções, porém, conforme enrolo um padrão serpentino dentro do bloco, representando o fogo elétrico que consumiu o céu por vinte minutos inteiros.

"Esmague a civilidade", ele grunhe quando a vê. "Esmague-a em pedaços." Ele me dá um soco no meio do peito com seu punho maciço. Acho que era para ser um tapinha amigável, mas parece que minhas costelas cederam.

"Arrus!" meu irmão siseia. "Arrus, você tem uma fila se formando aqui. Você tem blocos para tatuar."

Viro-me e vejo meu irmão parado ali, vários de seus companheiros atrás dele, afiados como uma parede de facas. Talvez eu não tenha sentido muito a tensão antes, mas sinto agora. Ninguém mais no clã ousa chegar a menos de seis metros de Dryzek.

"Mas não terminei com—"

"Tudo bem", diz Dryzek. "Volte e termine amanhã. Não vou a lugar nenhum."

Ele me dispensa enquanto seus humanos lhe apresentam um enorme prato de drake perfeitamente assado, com um melão amarelo brilhante enfiado na boca. Limpo a garganta, de olho na coxa do drake como pagamento. Certamente, mais uma iguaria do que eu poderia esperar, mas um viashino pode sonhar.

"Que tal isto como gorjeta—" Dryzek diz com um sorriso, "—a Fúria não é apenas luta e destruição. Ela fala com diferentes pessoas de maneiras diferentes."

Fico rígido. Durante toda a minha vida, meu coração foi frio, mas aprendi a fingir a Fúria cedo e ninguém nunca me questionou sobre isso antes. Ranjo os dentes e rosno para garantir. "Do que você está falando? Eu sinto Fúria o tempo todo. Todo dia, quase. Tão, tão bravo."

Dryzek levanta uma sobrancelha grossa e cética. "Tenho oitocentos e trinta e poucos anos, Arrus. Conheço a Fúria quando a vejo e isso aí não é ela. Mas ela te encontrará. Levei cento e seis anos para descobrir com o que eu estava furioso."

Não. Dryzek não. Como poderia ser? Mas antes que eu tenha a chance de questioná-lo sobre isso, Jiri está me puxando para longe. Logo a tinta está fluindo, as bebidas estão sendo servidas e a alegria começa a pesar mais que a tensão. Isso até que Dryzek faz um movimento em direção a Ruric e Thar. A multidão se abre ao redor dele conforme ele se aproxima de nossos líderes de clã. A bebedeira para. A música para. A respiração para. Jiri estava certo. A lenda planeja desafiar pela chefia. Justo quando a tensão não pode ficar mais densa, Dryzek baixa a cabeça e ajoelha-se enquanto seus servos humanos colocam o drake caramelizado aos pés de Ruric e Thar. "Um símbolo, meu chefe, de minha lealdade ao Clã Ghor. Que sua Fúria sempre nos guie rumo à destruição."

Ruric Thar, o Indomado | Arte de: Tyler Jacobson

Ruric e Thar parecem surpresos com o gesto, mas no instante seguinte, cada um arranca uma asa do drake e morde a carne. "É inegável que a sua Fúria alimentou um fogo muito necessário no clã", diz Thar, pedaços de carne de drake caindo de seus lábios, "e estamos honrados em ter você lutando entre nós."

O acordo é selado com um parentesco de sangue e todos os muros entre as facções desmoronam. Celebramos mais uma vez e eu solto um suspiro de alívio por ter evitado por pouco ser pego no meio de um golpe~então, os gritos começam.

Olho para o lado e vejo que é Jiri, sua nova tatuagem brilhando tanto quanto as luas antes de seu braço irromper em chamas. Ele geme e seus companheiros tentam apagar o fogo com terra e retalhos de pano, mas então a tatuagem de Dryzek também se incendeia e há muito, muito mais tinta. O cheiro de carne cozinhando enche nosso acampamento enquanto, um por um, cada um dos outros guerreiros que tatuei hoje começa a queimar. Encolho-me e saio de fininho antes que a culpa caia sobre mim, mas sou pego pela ponta da cauda e então estou balançando no ar, o mundo balançando para frente e para trás. Ruric e Thar entram em vista e tento explicar que a culpa não é minha, que algo está errado com a tinta, que ela tem desbotado, que os maakas estão parecendo cada vez mais doentes, mas tudo o que sai da minha boca são choramingos sem sentido.

Espero ser esmurrado, espancado, rasgado em pedaços, mas o que acontece é muito, muito pior.

"Seus serviços não são mais necessários aqui", grunhe Ruric, então me joga no chão e, de repente, estou sem clã.

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No coração do Cinturão de Escombros, o selvagem fincou raízes nas ruínas da civilização do passado — árvores retorcendo-se em velhos batentes de portas, uma família de javalis transformando os restos de uma catedral Orzhov em sua toca. Vinhas agarram-se à carcaça do edifício desmoronado, transformando pacientemente pedra em terra ao longo de um milênio ou dois. Vitrais que um dia adornaram janelas jazem agora em pilhas, as arestas cortantes tornadas suaves pelo tempo. Ainda assim, a natureza parece estar sufocando aqui. Folhas de árvores amarelando, vinhas amarronzando. Até a terra parece pálida e doentia. Sobrevivendo a duras penas.

Como eu.

Um Gruul sem clã está a dias de se tornar comida de verme, ou assim diz o ditado. Arisco e alerta, escondo-me nas sombras, misturando-me ao ambiente. Coletou o que posso, observando um par de goblins lutando pela carcaça de um filhote de raktusk. Enquanto eles estão atracados um com o outro, eu me aproximo sorrateiramente e roubo um pedaço de carne para mim.

"Ei!" um dos goblins rosna ao me notar. Leva um momento para eles se desvencilharem do aperto um do outro, mas nesse tempo, já saí correndo com uma perna suculenta de raktusk e os perco nas gramas altas. Deixo minha pele ficar alguns tons mais marrom para melhor me misturar ao ambiente. As gramas me ocultam, mas noto que não estão secas e quebradiças por falta de água, mas finas e murchas, como se faltassem nutrientes.

Prendo a respiração, esperando que meus perseguidores desistam de me procurar e, quando tudo está calmo, dou uma mordida na perna. A carne está azeda, quase como se estivesse estragada, mas eu mesmo vira os goblins matarem o filhote. Como assim mesmo, com minha mente remoendo o fato de estar longe do meu clã, mas quando chego ao osso, fico surpreso com o quão maleável ele é, dobrando-se como um galho de árvore ao vento.

Vegetação murchando, lotes ruins de tinta, carne rançosa. Algo deu errado com o Cinturão de Escombros e só está piorando. Alguém precisa fazer algo antes que seja tarde demais. Sou apenas uma pessoa, porém. Preciso de ajuda — a ajuda do meu antigo clã, se conseguir. Sei que é um risco, mas reúno minhas provas e espero até o cair da noite para fazer meu caminho de volta ao acampamento deles.

As festividades diminuíram, exceto por alguns ogros, dois gigantes e um centauro amontoados perto do fogo, revivendo embriagados as conquistas do dia — heróis de novas histórias que serão contadas por gerações. Todos os outros cochilaram e eu ando na ponta dos pés ao redor de montes de guerreiros roncando. Com todo o pelo e couro e crânios, é difícil dizer onde um termina e o próximo começa.

Vejo Jiri, aninhado com seus companheiros, um retalho imundo de pano enfaixado em seu bíceps. Cutuco seu ombro e um olho injetado de sangue se abre, levando um momento para focar em mim, então lenta e silenciosamente, ele se extrai da pilha.

"O que você está fazendo aqui?" ele sussurra, além de irritado.

"Preciso falar com Ruric e Thar", sussurro, empurrando o osso borrachudo e a vegetação murcha para ele. "Algo tem sugado a vida do Cinturão de Escombros nestes últimos meses. A grama está morrendo. As criaturas estão doentias. Se não fizermos algo, seremos os próximos a passar fome."

Jiri ri. "Você não percebeu? Estamos em guerra. Ruric e Thar não têm tempo para olhar grama e osso."

"Por favor", imploro. "Isso é importante."

"Sabe o que é importante para mim?" Jiri desenrola sua bandagem. "Não ter um braço que está metade queimado por tinta ruim."

"Mas é exatamente isso que eu—"

Ele mostra os dentes e flexiona seus espigões de pele. "Vá, Arrus. Não volte aqui."

Arte de: Deruchenko Alexander

Eu me afasto, mas antes de ir muito longe, noto que o grupo de guerreiros reunidos ao lado da fogueira não está apenas contando histórias. Meus olhos se cerram e minhas escamas arrepiam diante de uma ogra corpulenta em túnicas longas, crânios de javali cobrindo cada um de seus ombros. Seu braço direito termina abaixo do cotovelo e preso a ele está uma prótese feita de presa de javali de batalha intrincadamente esculpida com tiras de couro carregando uma variedade de ferramentas finas. Uma agulha de tatuagem modificada projeta-se da extremidade da prótese, ajustada no ângulo perfeito.

Ela bate no topo da agulha com um pequeno martelo, movendo-se em um ritmo constante pelas ancas do centauro. O tom verde brilhante da tinta da ogra é como nada que eu já tenha visto, brilhando na noite como se todo o pote tivesse sido consumido pela Fúria.

Eu não tinha ideia de que me substituiriam tão rápido. Espero nas sombras, fervendo silenciosamente enquanto ela atende cada um dos guerreiros. É quase manhã quando o último deles deixa o lado dela e eu me aproximo, e de tão perto, vejo que ela tem o rosto cheio de tatuagens de xamã.

"Olá, espertinho. O que posso fazer por você?" A ogra olha para meus braços finos e nus.

"Que tipo de tinta você está usando aí?" pergunto. "Nunca vi nada igual."

"Mistura especial. Patenteada", diz ela, tirando um pedaço grande de javali de batalha assado entre seus dentes rombos. Deveria ser o meu javali de batalha assado.

"Posso trocar por um pouco?"

"Você pode lutar comigo por ela", diz ela com uma risada, então começa a guardar suas ferramentas nos bolsos de seu avental de xamã.

Pela maneira como ela se carrega, percebe-se que nasceu de linhagens fortes mergulhadas em heroísmo e poder~daquelas que as crianças imploram aos contadores de histórias para ouvir. Mas há histórias menos contadas de furtividade e astúcia, dos viashinos guerrilheiros não cantados com pouco controle de impulso e mãos rápidas, pegando seus inimigos de surpresa. Seus nomes podem ser esquecidos, mas canalizo a furtividade de meus próprios ancestrais e, enquanto a ogra está de costas, estendo meus dedos pegajosos, agarro o pote de barro que contém sua tinta e, sem um som, envolvo-o nas dobras do meu manto.

E com um movimento rápido como uma chicotada de cauda, meu braço é imobilizado no chão e o joelho da ogra está no meu peito. A tinta derrama sobre a terra desnutrida.

Como seria de se esperar, segue-se uma luta e, a cada soco e chute que ela desfere, sou lembrado de por que os ancestrais dela ganharam histórias e os meus não.

"Toque na minha tinta de novo e farei um par de botas com o seu couro", rosna ela, segurando sua tigela de tinta agora vazia. A surra foi tão rápida que nem acordou os outros.

Enquanto jaz aqui, quebrado e torto, encarando o céu, esperando para morrer, sinto algo roçar minha bochecha. A agonia atinge enquanto viro a cabeça para o lado e noto uma vinha verdejante crescendo de onde a tinta encharcara o solo, folhas desenrolando-se e alcançando o sol nascente diante dos meus próprios olhos. A vinha serpenteia pelo meu ombro, depois dá voltas no meu braço. Lenta, mas seguramente, sinto meus ossos quebrados se consertarem.

"Que magia é esta? Quem—" eu coaxo, pouco antes de as vinhas encontrarem caminho para minha boca, garganta abaixo, tocando todos aqueles pontos sangrando dentro de mim. Magia Selesnya, sem dúvida — uma guilda parceira nos caminhos da natureza, embora sua miopia os mantenha ocupados tentando trazer ordem e calma ao que deveria ser selvagem e revigorante. Não posso negar que a magia de cura deles é o que preciso neste momento, porém. Assim que estou devidamente curado, sinto-me tentado a sentar, procurar a fonte da magia, mas continuo me fingindo de meio morto, ouvindo atentamente enquanto a ogra xinga para si mesma, reclamando da tinta desperdiçada e de como terá que fazer mais. Ela termina de empacotar tudo e parte e eu a sigo, decidido a descobrir seus segredos.

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Mantenho-me rente ao chão, longe o suficiente atrás dela para que ela não me note e, se notar, eu consiga escapar antes que ela possa me bater de novo. Caminhamos para fora do Cinturão de Escombros, a folhagem murcha transformando-se em verdes vibrantes, tão brilhantes que caem muito acima da gama de cores das minhas escamas. Um enorme afloramento de calcário ergue-se alto no ar diante de nós e uma série de bocas de cavernas se abrem como mandíbulas pretas nos desafiando a entrar.

E eu sei exatamente o que a ogra procura: ovos de hidra.

Arte de: James Paick

Normalmente, hidras põem dois ou três ninhos por ano, mas esta temporada foi assolada por ninhos vazios e cascas de ovos frágeis demais para serem manuseadas. Tenho um bom pressentimento sobre este ninho, porém. Observo enquanto a ogra entra furtivamente e chego o mais perto que ouso, deixando minha coloração assumir o cinza pálido das paredes da caverna. Esgueiro-me mais, mais fundo em suas profundezas, sentindo como se estivesse descendo por uma garganta fria e úmida.

A hidra enfurece-se ao ver a ogra, sibilando e cuspindo. Você não viu a Fúria até ver uma mãe hidra protegendo seu ninho. A besta recua, mas pouco antes de atacar, a ogra começa a cantarolar uma nota grave, seus braços acenando para frente e para trás em um movimento hipnótico. Na ponta de sua prótese, ela equilibra habilmente um crânio espesso e oblongo. Goblin, provavelmente. Em segundos, ela deixou todas as cabeças da hidra hipnotizadas. E então, cuidadosamente, a ogra tira um pedaço de carne do bolso do avental, enfia dentro do crânio e lança o crânio nas profundezas escuras da caverna. A hidra quebra o transe e persegue o objeto.

Enquanto a besta está distraída, a ogra começa a cavar. Parece um ninho decente, talvez quarenta ou cinquenta ovos. Ela guarda um em seu avental, então caminha na ponta dos pés de volta para a boca da caverna enquanto as cabeças da hidra lutam pelo crânio, tentando remover o bocado irresistível de dentro. Técnica interessante. Crânios de goblin são difíceis de esmagar, mesmo para uma besta daquele tamanho, mas então ouve-se um estalo de osso estilhaçando e mais sibilos, e então os sons gredosos de uma hidra deslizando contra a rocha.

A ogra olha para trás assustada e então sai em disparada. Não consigo evitar me perguntar se o osso fraco já subiu na cadeia alimentar do Cinturão de Escombros, mas não tenho tempo para me perguntar muito, porque agora a hidra notou que seu ninho foi perturbado. Minha coloração pode se misturar aqui, mas nenhuma camuflagem vai me impedir de cheirar como o jantar para aquela hidra. Não tenho escolha senão começar a correr também.

Xingamentos ecoam pelas paredes da caverna conforme a ogra me vê e, quando ela passa por mim, sei que serei lanche de hidra com certeza. Então a ogra lança uma vinha de cinza brilhando incandescente com magia vermelho-alaranjada à nossa frente, chicoteia-a contra o chão e puxa com força. O solo irrompe, expelindo rocha e pedra enquanto uma rampa íngreme se forma à nossa frente. Escalamos a rampa conforme ela obstrui a boca da caverna, deixando apenas uma estreita faixa de luz do dia para escaparmos.

Rolamos em segurança do outro lado — eu sem fôlego, ela nem tanto. Sei que ela é uma xamã, mas a maneira como ela se moveu lá dentro não condizia com ser uma tatuadora. Ela foi feita mais como alguém que viu batalha, e muita. Encaro suas tatuagens faciais novamente~notando a linha sinuosa de um rio familiar e os blocos do bairro Azorius vizinho que agora jaz sob cinco metros de água. "Espere. Você é Baas Radley. A xamã que colapsou as represas de Jezeru?"

Ela levanta uma sobrancelha, então começa a caminhar, colocando distância entre nós e a hidra que ainda rosna para nós de dentro da caverna. "É só Baas, agora. Sinta-se à vontade para se perder, espertinho."

"Oitenta e dois blocos dizimados em um único dia!" digo, seguindo-a logo atrás, deslumbrado. Oh, o que eu daria para tatuar a pele dela. "E depois houve aquele colapso de ponte no Distrito de Fundição e a carnificina absoluta no Massacre da Rua Estanho, tanta coisa—"

"Aquele não fui eu. Gosto de esmagar represas e pontes, não ossos." Ela lança um olhar em minha direção. "A menos que alguém esteja pedindo."

Baas não parece do tipo falante, mas talvez se eu cair nas graças dela, ela me deixe acompanhá-la enquanto ela coleta o resto de seus ingredientes de tinta e eu possa ouvir algumas de suas incríveis histórias de batalha. "A fissura colossal que você colocou no Passeio Transguildas? Era tão profunda quanto dizem? Que você nem conseguia ver o fundo?"

Passeio Transguildas | Arte de: Noah Bradley

Faço uma pausa, esperando por uma resposta. Nada. Seu passo aumenta e sua passada acelera e estou praticamente correndo para acompanhá-la.

"E o desabamento do Passeio, onde você derrubou três pilares de suporte simultaneamente! Ha! Selesnya passou meses reconstruindo. Apenas você e aquele berserker Bolrac foram os responsáveis, certo? Oooh, eu me lembrei do alvoroço quando você se casou fora do clã, mas vocês dois trabalhavam tão bem juntos. Aquele ciclope, certo? Chamado Daeska Sol—"

Baas para, vira-se e me fixa com o olhar mais feroz. "Termine essa frase e eu te arrebento a garganta."

Engulo seco, mas antes que eu possa mudar de assunto, o chão começa a tremer como se a guerra estivesse por perto, mas não pode ser isso. A floresta nos cerca por quilômetros. Então vejo as folhas balançando, copas das árvores oscilando e percebo que algo está vindo em nossa direção. Um enorme conjunto de presas emerge na clareira — um javali de batalha. E eles nunca viajam sozinhos.

Viro-me para correr, mas Baas me agarra pela nuca.

"Nunca dê as costas para um javali de batalha", diz ela, "a menos que queira ser pisoteado até virar pasta. Nossa melhor chance agora é mantermos nossa posição."

"Nós dois contra uma manada inteira?"

"Não temos que lutar com eles. Só temos que parecer que queremos lutar com eles. As chances são de que eles recuem." Ela me pega pelos ombros e chuta meus pés para separá-los. "Postura larga, incline-se ligeiramente para a frente, como se fosse saltar. Ombros altos. Dentes à mostra."

"Assim?" digo, canalizando meu berserker interior, mas meu coração frio reluta em protesto.

Ela enterra o nó do dedo a dois terços do caminho para baixo nas minhas costas e minha postura muda, meu peito se alarga. "Melhor", diz ela, então assume uma postura feroz própria.

Os javalis de batalha aproximam-se — não consigo evitar notar como seus cascos maciços estão polidos com alto brilho e suas pelagens grossas e lanosas brilham como seda ao sol. Nada parecido com as bestas emaranhadas com as quais estou acostumado, mas não se engane, mesmo com este desfile ridículo de excesso de higiene, não há como eu querer estar na ponta afiada daquelas presas maciças.

"Faça contato visual com a besta líder. Não o quebre. Ela é a única que temos que dissuadir."

A besta líder para e o resto da manada também. Ela nos fareja. Eu me apoio nas pontas dos cascos, esforçando-me para parecer mais formidável do que sou. O javali grunhe, então segue em frente, mudando de curso muito levemente. Eles passam a centímetros de nós, tão perto que seus pelos fazem cócegas na ponta do meu focinho, mas mantemos nossas posturas até que o último javali passe.

"Essa é a segunda vez que você salva minha vida hoje", digo.

"E a terceira vez que você coloca sua vida em risco só para conseguir um pouco de tinta", Baas diz, balançando a cabeça. "Seu nome é Arrus, certo?"

Fico rígido. "Você sabe quem eu sou?"

"Você queimou metade do Clã Ghor", diz ela com uma risada. "Todo mundo sabe quem você é."

"Não foi minha culpa! Algo está errado com a terra e não consigo mais a mistura de tinta certa. Você notou, certo? Por que mais caminharia até aqui?"

Seus braços se cruzam, mas o restante da sua linguagem corporal suaviza. "Eu notei."

"Bem, por que você não contou a ninguém? Eles ouviriam você!"

"Acabei de sair de Portão de Guerra, espertinho. Preciso de um tempo para colocar a cabeça no lugar e temo que isso não envolva deixar todo mundo alvoroçado com a potência das fezes de maaka. Mas vi o seu trabalho. Você é bom demais para ser jogado aos Ermos. Conheço algumas pessoas no Clã da Árvore Flamejante e elas ficariam felizes em ter você. Vou te mostrar como fazer a tinta. É potente. Pode até curar os lutadores quando a Fúria atinge. Não como te curou~você deve ter tido o equivalente a duzentos blocos de magia de cura. Mas ajuda e precisamos de toda a ajuda que pudermos conseguir."

"Espere~" Minha mente gira lentamente, tentando juntar tudo. "Lá no acampamento~você sabia que aquela tinta me curaria. E sabia que eu te seguiria?"

Baas sorri. "Talvez. Agora, você quer a receita da tinta ou não?"

Quero. Com certeza quero.

Então caminhamos para a floresta em busca de casca de pinheiro. As árvores aqui são majestosas, espécimes altos alcançando o céu, mas algo sinistro cutuca o fundo da minha mente. Há um padrão nas árvores — carvalho, doze passos, pinheiro, oito passos, pinheiro, quinze passos, salgueiro, então outro carvalho. Repetidamente.

Portal da Guilda Selesnya | Arte de: Dimitar Miranski

"Cruzamos para território Selesnya", digo.

"Você quer dizer que aquele bando de javalis de batalha direto do salão de beleza não entregou?" Ela ri, então para em frente a um pinheiro imponente, fecha o punho e desfere um soco sólido no tronco da árvore. Umas duas dúzias de lascas de casca caem no chão. Vou pegá-las, mas Baas ri de novo. "Aposto que você é do tipo que pega a primeira casca que vê. Os pedaços mais fortes se agarrarão à árvore depois que você der um tapinha de amor. Tente."

Bato meus punhos contra o tronco algumas vezes. Nada acontece, exceto arranhar meus nós dos dedos. "Seria mais fácil se eu fosse feito como você", resmungo.

"Você acha que tamanho é a única coisa que importa no campo de batalha?" Ela se aproxima até ficarmos olho no umbigo. "Aqui, me derrube. Coloque seu braço em volta do meu pescoço, gire e então incline-se com todo o seu peso."

Sigo as instruções dela e consigo derrubá-la com mais do que um pouco de assistência da parte dela. Mas entendo a essência. Com um pouco de prática, vejo isso funcionando. Talvez não em alguém do tamanho dela, mas da próxima vez que meu irmão tentar roubar minhas gorjetas, poderei ensinar uma coisa ou duas a ele.

Meu coração esfria com o pensamento. Bem, mais frio do que já está. Quem sabe quando verei Jiri de novo. O território da Árvore Flamejante é tão longe. Talvez ele venha visitar quando a guerra diminuir, mas do jeito que as agressões têm aumentado nestes últimos meses, quem sabe quando será isso.

"Por que você está aqui, fugindo da batalha?" pergunto a ela. "Precisamos de você lá fora lutando. Portão de Guerra te 'reabilitou'?"

"Ha, não. Eu adoro esmagar a civilização em pedaços. Só não posso estar na linha de frente enquanto você-sabe-quem estiver lá fora. Muitas memórias de nós lutando lado a lado."

"Daeska?"

Baas serra os olhos para mim. "É", ela resmunga. "Estávamos no Mercado da Rua Estanho, olhando as coisas, passando um minuto longe da frente de batalha juntos, quando o caos estourou. Soldados Boros começaram a ser agressivos, dizendo que nos viram agredir um casal de minotauros velhos. Mentirosos, todos eles. A Fúria levou o melhor de mim e piorou uma situação ruim. Fui presa. Daeska escapou. Veio me visitar algumas vezes, prometendo esperar dez anos para eu sair de Portão de Guerra, se fosse preciso. Acontece que fui libertada cedo, apenas para descobrir que aquele vagabundo não esperou nem dez meses."

"Ciclopes", digo, balançando a cabeça.

"Enfim, acho que ainda estou fazendo minha parte. Ajudando a causa e—"

Nós dois ficamos alertas ao som de um rugido selvagem vindo das profundezas da mata.

"Maaka", dizemos em uníssono. Fonte do ingrediente final.

Atravessamos as árvores perfeitamente espaçadas, notando como até os detritos sobre a terra parecem espalhados de propósito. A cada sessenta passos, estou pulando sobre a mesma pilha de pedras e a cada oitenta e oito passos, passamos pelo mesmo carvalho caído. Os espinheiros entre as árvores tornam-se mais grossos, mais densos, mais afiados. Justo quando penso que não conseguiremos avançar mais, vemos a fonte do rugido, o que deve ser o maior e mais belo maaka que já vi — músculos salientes mal contidos por sua pelagem vermelha lustrosa. Nós o rastreamos por quase uma hora antes que ele faça seu dever e então Baas pega seu pote de barro e mistura os ingredientes, usando o toco de uma das árvores caídas como mesa improvisada. O brilho da tinta aparece quase imediatamente e, sem pedir, ela despeja metade da mistura na minha tigela.

"Obrigado", digo, preparando-me para partir para o que quer que me aguarde no Clã da Árvore Flamejante. Mas então olho de novo para o toco da árvore. Aquele sentimento sinistro me domina enquanto conto os anéis largos demais. Balanço a cabeça. Este carvalho maciço, provavelmente com doze metros de altura, tem apenas cinco anos.

Por um capricho, coloco minhas mãos pegajosas para funcionar e subo até o topo de uma árvore. Deste ponto de observação, a floresta parece menos uma floresta e mais uma cerca gigante dividindo o ermo do Cinturão de Escombros de uma extensão de território Selesnya.

Arte de: Sung Choi

Eu estava certo. uma guerra rugindo sob nossos pés, só que não é lutada com facas e porretes. É uma guerra silenciosa lutada com magia de crescimento. Selesnya plantou milhares e milhares de mudas e então acelerou seu crescimento até ter a barreira impenetrável perfeita. E eles têm drenado magia de nossas terras para fazer isso, achando que nunca teríamos a inteligência para descobrir.

Não passaríamos fome, é claro. Mesmo que todas as plantas e animais no Cinturão de Escombros morressem, sempre haveria a guerra para nos alimentar. Avançaríamos mais na civilização, derrubando laboratórios Izzet e basílicas Orzhov e instalações de treinamento Azorius, fazendo o trabalho sujo de Selesnya por eles. Enquanto isso, eles riem e cantam e dão as mãos dentro de seus jardins manufaturados, fingindo estarem acima da "selvageria" de lutar.

Isto~isto é algo com o qual posso me enfurecer. Sinto uma centelha em meu peito, um acender de Fúria esperando para ser alimentado. Agora tudo o que tenho que fazer é reunir a coragem para deixar o resto do clã furioso com isso também.

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"Eu desafio pelo cargo de chefe do clã", digo, pernas bem afastadas, corpo inclinado levemente para a frente, carranca no rosto que poderia assustar uma manada inteira de javalis de batalha. Ruric e Thar podem não ter tempo para ouvir teorias sobre grama murcha e osso quebradiço, mas eles não podem recusar um desafio.

O acampamento silencia. Não é o silêncio da tensão, mas o de risadas mal contidas.

O ogro de duas cabeças suspira e eles se levantam de seu trono de crânios e se aproximam de mim. Ruric sorri, revelando um pedaço de carne preso entre seus incisivos denteados. "Acho que eu poderia usar seus ossos finos como palitos de dente. Quem diz que não somos civilizados, hein?"

"Vocês não são aptos para serem nossos líderes", digo, elevando a voz para que ela corte o riso, e agarro-me à esperança de que esta altercação seja resolvida com a ajuda de linguagem corporal agressiva. "O Cinturão de Escombros está praticamente definhando bem debaixo dos seus narizes e vocês nem se dão ao trabalho de olhar para cima e perguntar o que está causando isso."

"Você quer lutar ou planeja nos entediar até a morte com suas palavras?" diz Thar.

Ruric e Thar aproximam-se. Falar não vai funcionar. Violência é tudo o que eles ouvem. Lanco todo o meu corpo em um soco que atinge o estômago deles, mas ele cede menos do que o tronco da árvore cedera. Ruric bate seu punho enorme no topo da minha cabeça e eu desabo no chão, pontos brancos florescendo em minha visão. Eu me levanto com dificuldade, lutando para manter o mundo debaixo de mim enquanto Ruric e Thar voltam para o trono.

"Eu desafio pelo cargo de chefe do clã", digo novamente. Os ogros rosnam desta vez.

Jiri intervém e me agarra pelos ombros, com olhos desesperados. "Arrus. Não faça isso. Peça perdão a eles e volte para o clã. Veja, as queimaduras não ficaram tão ruins." Ele vira o braço para mim, agora curado em um padrão hipnotizante de cicatrizes cintilantes. "Alguns dos meus companheiros querem o mesmo para o próximo conjunto de tatuagens deles. Por favor."

Passo por Jiri, focado na queimação latente em meu coração. "Meu desafio permanece."

"Você não ficará em pé por muito tempo", diz Thar. Os ogros batem no peito e a Fúria se acende dentro deles. Suas tatuagens brilham, algumas delas obra de minhas próprias mãos. Lembro-me do movimento de derrubada que Baas me mostrou. Uso minha rapidez para ficar atrás dos brutos pesados, então subo pelas costas deles e firmo meu aperto. Inclino-me. Inclino-me com mais força. Acho que ouço vértebras estalando, mas acontece que são apenas Ruric e Thar estalando os nós dos dedos. Ruric estende a mão para cima, me agarra, me joga. Bato no chão com força e saio rolando, parando a centímetros da fogueira.

Fico ali, certo de que quebrei algumas costelas. Então me vejo pego na sombra de uma figura corpulenta. Encolho-me, pensando ser Ruric e Thar, vindo para pisotear a vida de dentro de mim, mas uma voz profunda e familiar ribomba na boca do meu estômago.

"Bom. Você encontrou sua Fúria", diz Dryzek, olhando para mim com um sorriso. "Agora use-a."

Usá-la? Não é o que venho tentando fazer? Foco no que estou furioso, ignorando as brasas da fogueira flutuando sobre minha pele. Estou furioso com o Conclave Selesnya, claro. Estou furioso por nossas terras estarem sendo drenadas de magia, pavimentadas pela civilização, envenenadas pela industrialização. Mas o que mais me enfurece está comigo há muito tempo, antes de qualquer uma dessas coisas me importar. Estou furioso porque as histórias do meu povo foram perdidas, porque meus heróis foram escondidos de mim. Estou furioso porque nem uma única vez como um jovem viashino eu me sentara diante da fogueira para ouvir histórias de guerreiros com escamas verdes e caudas chicoteantes, pessoas como eu, esmagando a civilidade com abandono imprudente.

Forço-me a ficar em pé novamente. Ruric e Thar já estão com os dedos enterrados no que resta de uma pilha de costelas de raktusk e eu manco em direção a eles. Após alguns passos, meu mancar suaviza de volta para uma marcha constante, embora a sola dos meus pés pareça que estou caminhando sobre brasas vivas. Esse sentimento se espalha~meus joelhos, meu estômago, meus pulmões. Meu coração. Não há mais dor, apenas Fúria.

"Eu desafio pelo cargo de chefe do clã", digo pela terceira vez. Ruric e Thar começam a se levantar novamente, mas algo em meus olhos deve assustá-los, porque eles se sentam de volta e pressionam com força as costas de seu trono. "Ouçam o que estou dizendo. O Cinturão de Escombros está morrendo. As plantas estão apodrecendo, os animais estão doentios e não vai parar por aí se não fizermos algo a respeito. O Conclave Selesnyan está por trás disso. Eles estão sugando a magia da nossa terra para cultivar a deles. Não podemos desperdiçar mais um dia, nem um minuto ignorando o problema, ou não sobrará nada selvagem pelo que lutar."

Posição Privilegiada | Arte de: Wayne England

Respiro fundo, solto o ar. É então que percebo que estou completamente envolto em chamas vermelhas e revoltas, a Fúria de uma vida inteira acumulada surgindo magicamente de mim de uma só vez. Diminuo a intensidade até que as chamas apenas tremeluzam.

Jiri aproxima-se de mim e coloca a mão em meu ombro. As chamas espalham-se para ele e logo ele também está envolto. "Estou com Arrus", diz ele.

Baas coloca a mão no meu outro ombro. Ela também pega as chamas. "Estou com Arrus."

"Eu também", a voz de Dryzek brada. Ele fica atrás de mim e minhas chamas praticamente saltam para ele. Outros se juntam a nós, até que juntos, queimamos mais intensamente do que qualquer fogueira jamais poderia queimar.

"Eu desafio vocês, chefes, a fazerem algo a respeito disso", digo a Ruric e Thar, falando por nosso clã e por todos os clãs Gruul. "Lutamos por vocês. Agora precisamos que lutem por nós."

"Se Selesnya quer uma guerra, daremos a eles uma guerra", dizem Ruric e Thar, caminhando até mim. Ruric estende a mão, coloca sua palma aberta sobre minha cabeça. Chamas vermelhas sobem pelo seu braço, incendiando completamente nossos líderes. "Histórias serão contadas desta guerra por gerações e o seu nome, meu guerreiro feroz, estará no centro delas."

Arte de: Tyler Walpole
06 de Fevereiro de 2019 | Por Nicky Drayden

Os Princípios da Seleção Não Natural

"Você tem certeza de que ele não está morto?" pergunta Miko, cutucando o monge ancião na testa. O monge está sentado imóvel como uma estátua, cordões de kelp subindo das pontas de seus dedos estendidos, um pequeno remendo de pólipos de coral agarrado à sua bochecha. Vários caranguejos agora chamam as fendas sob suas pernas cruzadas de lar.

"Nada de tocar, Miko", eu digo. "Por favor, pare de agir como um habitante da superfície e reserve algum respeito pelos seus anciãos."

"Há quanto tempo ele está sentado assim?" pergunta Chessa, minha aluna estrela, acenando timidamente com a mão na frente do olhar distante do monge. As únicas coisas que se movem são os flocos de plâncton flutuando na água do oceano.

"Esse é o enigma. Alguém se habilita a resolvê-lo?" pergunto. Inverto a rotação das minhas barbatanas e derivo para trás, dando espaço para a ninhada examinar o monge de todos os ângulos. "Dias? Semanas? Anos?" Eu rio enquanto os alunos nadam ao redor, dardejando para lá e para cá enquanto viram conchas na esperança de encontrar uma pista. Jovens, sempre com tanta pressa, como um cardume de peixes-navalha.

Meu sorriso desaparece. Eu amo esses alunos, amo mesmo, e estou orgulhosa de todo o trabalho que eles dedicaram, mas a dúvida me aperta forte enquanto os conto, repetidas vezes, certificando-me de que ninguém se afastou. Apenas oito alunos este ano, não é muita coisa para uma ninhada. No ano passado, foram quatorze, e no ano anterior, vinte e dois. E antes disso, eu recusava alunos por medo de não conseguir ficar de olho em todos eles. Os tempos estão mudando e os pais estão procurando cuidadores de ninhada que se alinhem aos Adaptacionistas — aqueles que usam bioengenharia e outros princípios da Surgência que flutuaram para baixo em nossos oceanos através dos zonots Simic. Tentei evitar os meandros políticos dos habitantes da superfície tanto quanto pude, apegando-me aos caminhos de nossos ancestrais e treinando alunos para proteger nossas águas com as mesmas técnicas que usamos há milênios.

Zonots

Um zonot é um enorme sumidouro que leva até os oceanos de Ravnica, e cada um serve como um habitat Simic distinto — uma espécie de arranha-céu invertido e superdimensionado. Cada zonot tem uma cultura, ecossistema e distribuição racial diferentes, bem como um orador ou oradora.

Kaszira está sentada, desanimada, nas margens da classe, amuando como sempre. Vi a maneira como ela olha para os alunos das outras ninhadas, admirando suas barbatanas alongadas em laboratório que aumentam as velocidades de nado, suas adaptações de pele de alto nível que lhes garantem uma camuflagem rivalizando com os melhores mímicos do oceano, ou sua visão aprimorada que lhes permite detectar invasores antes que eles infiltrem o território dos tritões. Alguns pais até apoiaram modificações mais avançadas, como garras, para ajudar a defender nossas águas, mas seus números ainda são poucos, graças aos deuses.

"Kaszira", eu chamo. "Venha aqui, você está perdendo a lição."

Ela não responde. Tentei repetidas vezes me conectar com Kaszira, mas o coração dela simplesmente não está nisso. Enquanto nado para mais perto, os olhos dela se voltam para mim, então focam em algo à sua frente. Um zooplâncton. Um morto. Os olhos de Kaszira se cruzam enquanto a pequena carcaça se assenta sobre seu nariz. Ela se parece tanto com a Oradora Utopiana Zegana — uma versão mais jovem e petulante da nossa líder, claro, mas a semelhança é impressionante: um leque vistoso de barbatanas (azul com faixas iridescentes), uma magreza em seu corpo que seria deselegante na maioria dos tritões, mas ela a usa bem. Eu ousaria chamá-la de majestosa se ela se desse ao trabalho de não ficar tão curvada.

Enquanto um segundo plâncton morto se assenta sobre sua pele, percebo que ela não está amuando. Ela está observando. Paro e flutuo suavemente no lugar, não querendo perturbá-la. Um terceiro plâncton pousa sobre ela e então ela se vira para mim e diz categoricamente: "Sete semanas. É há quanto tempo o monge ancião está meditando."

Meus olhos se arregalam. Como ela poderia ter visto a pista do enigma de tão longe? Os alunos deveriam medir a largura de suas faixas de jejum e compará-las com a largura de suas faixas dorsais e chegar a quarenta e sete dias. Pouco menos de sete semanas.

"Eu ia dizer isso!" diz Chessa, nadando até aqui e apresentando seu espigão de peixe-rocha como evidência, preciso como qualquer régua da superfície. "Juro pelas guelras da minha avó!"

"É, eu também ia dizer isso", Miko zomba. O pobre garoto não resolveu um único enigma desde que está sob meus cuidados, mas o que lhe falta em habilidades de observação, ele compensa em coragem. Os outros alunos todos adoram as travessuras dele e se juntam à risada.

Eu os silencio. "Kaszira foi a primeira com a resposta. Por favor, permitam que ela explique."

"Em dez minutos, sete plânctons mortos pousaram em mim. O que resulta em quarenta e dois por hora. E com um tamanho médio de zooplâncton de um oitavo de um espigão de peixe-rocha, levaria cerca de mil deles para formar uma cobertura uniforme em uma superfície imperturbada do tamanho de uma barbatana quadrada. A camada na pele do monge está com seis camadas em seus pontos mais grossos — o nariz e as pontas das maçãs do rosto são os mais óbvios. Isso resulta em sete semanas. Ou quase isso." Ela espanta o plâncton do rosto, então o olhar vidrado de tédio se reinstala nele.

"Observações muito aguçadas. Ainda faremos de você uma excelente protetora!" eu digo, esperando que meu incentivo desperte empatia em seu coração. Oh, como desejo que ela se maravilhe com a enormidade do sacrifício que o monge fez em todo esse tempo, mas nada disso vem.

Eu suspiro. "Agora, a outra maneira que vocês poderiam ter determinado isso—" Desenrolo meu próprio espigão de peixe, uma antiguidade bronzeada com pérolas cravejadas ao longo da crista, e me preparo para mostrar à classe a maneira tradicional de resolver o enigma.

"Uau!" Miko diz, de boca aberta. Leva um momento para eu perceber que ele não está se maravilhando com minha régua, mas com Ptero Zallik, cuidador de ninhada sênior e a ruína da minha existência. Eu ouvira os boatos, mas não conseguia acreditar que ele realmente tinha feito aquilo. Todo o seu torso parece ser de origem crustácea agora, vermelho-ferrugem e cheio de calombos, com seus braços terminando em pinças enormes.

"Bela corrente você tem aqui, Medge", ele diz para mim, flexionando suas novas partes do corpo e pescando um elogio.

Guardião da Câmara de Crescimento | Arte de: Bram Sels

"Estava ótima até você decidir nadar nela", murmuro corrente abaixo, então forço um sorriso no rosto. "Saudações, Ptero. Você está elegante. Não me diga que~aparou as barbatanas?"

Ele ri enquanto sua ninhada nada atrás dele. Vinte e sete deles. E vinte e sete milhões de anos de evolução Utopiana entre eles se você somasse todas as modificações Simic. "Ainda ensinando sobre faixas de jejum? Pensei que tivessem riscado isso do currículo séculos atrás."

"Ainda tem relevância para aqueles que desejam dedicar tempo para aprender", resmungo.

"Bem, tenho certeza de que você tem bastante tempo para passar individualmente com seus alunos. Uma bênção dos antigos deuses do mar, com certeza! Eu estou com minhas garras completamente cheias agora que minha classe está transbordando de alunos. Apenas sessenta e duas vagas de protetorado estão abertas este ano, e vinte e quatro das minhas são apostas certas — mestres em empatia, coragem e observação. Mas agora que dei uma boa olhada na competição, acho que consigo colocar todos eles."

"Sessenta e duas vagas?" Eu me erisso, minhas barbatanas flexionando em agitação. "Pensei que fossem oitenta."

"O Projeto Guardião decidiu enviar alguns reforços. Eles estão pegando dezoito vagas. Mutantes sapos, eu acho. Estão criando-os como guppies hoje em dia!"

"Mas isso não é uma questão Simic. É uma questão de tritão!" Eles não sabem quase nada sobre os caminhos das profundezas.

"Ordens de Vannifar." Ptero dá de ombros. "Vejo você na concha dos vencedores." Ele estala uma pinça para mim, chegando a centímetros de beliscar uma barbatana. "Isso, se algum dos seus se mostrar bom o suficiente." E com um impulso daquelas coxas musculosas, aprimoradas em laboratório, ele e sua ninhada disparam nas correntes.

Sessenta e duas vagas. Há cento e setenta alunos entre todos os cuidadores de ninhada. As chances eram de que eu conseguisse infiltrar pelo menos alguns, mas com dezoito vagas a menos, elas não são mais uma garantia. Se nenhum dos meus alunos tiver um bom desempenho, eu bem que poderia jogar minhas conchas na superfície agora mesmo. Eu estaria acabada. Liquidada. Ninguém nunca mais me confiaria seus filhos.

Mas não posso deixar que minha negatividade contamine meus alunos. Preciso instilar toda a confiança que puder neles. Ptero estava certo sobre uma coisa: tenho a vantagem de uma ninhada pequena e pretendo usá-la.

Eu nunca ousaria levar vinte alunos para fora da proteção do território dos tritões. Nem quinze. Mas oito são poucos o suficiente para eu ficar de olho em todos e a experiência do oceano aberto valerá a pena. Ver um krasis esquivo em ação, observar como eles se movem. Vê-los atacar. Isso poderia dar aos meus alunos uma vantagem durante suas exibições.

"Venham", digo, partindo tão rápido que a areia sobe do leito do mar. Os alunos erguem as sobrancelhas em curiosidade. "Fiquem comigo. Mantenham-se próximos!" Estaremos seguros, observando de longe. Eu não ousaria colocar nenhum deles em perigo real.

Nadamos cada vez mais fundo nas profundezas, seguindo uma floresta de kelp dourado estendida abaixo de nós, os resplandecentes castelos de coral de nossa casa agora parecendo meros castelos de areia no horizonte. Uma besta anfíbia caminha pesadamente, o bentídeo resplandecente, um dos leviatãs das profundezas que chamam nossas cavernas marinhas de lar. Passamos por baixo dele, Miko passando as pontas dos dedos na barriga macia e coberta de lodo da besta. O bentídeo resplandecente passou milhares e milhares de anos sem predadores naturais. Mas agora os do tipo não natural espreitam por aí~

Finalmente, vemos o krasis esquivo — uma abominação da natureza: garras, escamas e espinhos mortais descendo por sua cauda serpentina. Os biomantes que os criaram subestimaram o quão tenazes eram, o quão espertos eram, escapando de seus recintos e encontrando sua liberdade em nossos oceanos. Dizem que são peixes mutantes, mas nunca vi um peixe com um pescoço tão grosso e tenso, ou com uma cabeça ostentando o olhar de um crânio vazio. Ordeno aos alunos que se escondam na floresta de kelp e eu os empurro cada vez mais para trás conforme o krasis se aproxima cada vez mais de nós. De repente, estamos imprensados contra o casco de um velho naufrágio, a madeira encharcada rangendo ao menor toque.

Ficamos imóveis. É aqui que faremos nossas observações e o orgulho infla dentro de mim quando meus alunos cruzam os braços sem minha instrução, uma das primeiras lições que lhes ensinei, há tanto tempo, parece. Esta técnica oculta onde um aluno termina e o próximo começa, barbatanas se sobrepondo, fazendo-nos misturar com o ambiente.

Então observamos, meu coração martelando enquanto o krasis esquivo fixa sua mira no bentídeo resplandecente que acabamos de passar. A pobre besta nem sabe o que a atingiu. O bentídeo consegue inflar-se em defesa, a bolha vocal brilhando em vermelho vivo — o alvo perfeito. Um ferrão irrompe da ponta da cauda do krasis e desfere um golpe mortal na barriga macia da besta. Então o krasis se farta, mãos com garras enfiando carne em sua bocarra esquelética até estar satisfeito. A água ensanguentada atrai outros krasis e eles também se banqueteiam e, justo quando a carcaça é limpa, exceto por alguns pedaços indesejáveis, eles avistam outra besta anfíbia ao longe e nadam atrás dela.

"Isso é o que estamos enfrentando", eu digo. "Podemos proteger as criaturas que vivem dentro do nosso território, mas aqui fora, não temos os recursos, o tempo, para proteger todas elas."

"Poderíamos ter tentado fazer algo", diz Miko, com o rosto contraído em horror. "Fluxomagia ou algum tipo de feitiço das profundezas~"

"Não aqui fora. O perigo é grande demais. Você nunca sabe o que está rondando logo na—"

"Passssagem~" raspa uma voz atrás de nós — uma voz seca, quebradiça e sinistra, como nada que pertença ao mar. "Passssagem~"

A classe olha para Miko, esperando que seja outra de suas piadas práticas, mas ele dá de ombros e diz: "Não fui eu. Acho que veio de dentro do naufrágio." Ele esfrega as mãos contra a proa. Não é Simic, pelo que posso dizer, mas definitivamente das terras secas de Ravnica. "Deveríamos investigar", diz ele, com um pé já passando pelo enorme buraco no casco.

"É perigoso demais", digo, puxando-o de volta. "Reportaremos ao Projeto Guardião e deixaremos que eles resolvam."

"Mas a voz. E se estiverem feridos?" diz Kaszira.

"Passagem~" raspa a voz novamente. Eu faço uma careta. Somos protetores da vida. Pedi aos alunos que deixassem de lado seu chamado para a ação uma vez hoje. Fazê-lo uma segunda vez, e pela vida de uma pessoa de carne e osso, praticamente anularia a bravura que trabalhei tanto para instilar neles.

"Eu olharei dentro do naufrágio. Preciso de dois voluntários para vir comigo."

Olho para Chessa, minha melhor aluna, mas ela desvia o olhar. Eu realmente precisaria de sua observação aguçada, mas quando sua coragem vacila, o mesmo acontece com suas outras habilidades. Miko ergue a mão, porém. Nenhuma surpresa. Despejei tanta energia tentando moldar aquele garoto em um protetor adequado, mas a mente dele tem a constituição da areia do fundo do mar. Ainda assim, o coração dele está no lugar certo e ele nunca foge de uma briga~algo que pode ser útil caso a situação piore. A mão de Kaszira também sobe, o que me pega de surpresa. Nunca a vi tão interessada em nada antes, mas, por outro lado, nunca a vira perto de um naufrágio antigo de um mundo exótico. Ela não seria minha primeira escolha. Nem a segunda, nem a terceira, mas eu a considero também. Não me orgulho de admitir, mas desde que soube que ela era sobrinha da Oradora Zegana, tenho ficado de olho nela, encontrando maneiras de incentivar seus pontos fortes naturais. Ela é uma aposta arriscada para a concha dos vencedores, mas se se sair bem o suficiente, talvez os juízes se deixem influenciar por sua linhagem e a aprovem.

"Escolho Kaszira", digo. "E Miko."

Chessa parece aliviada, mas não a deixo escapar e a designo para liderar o grupo de vigia enquanto estivermos lá dentro.

Então Kaszira, Miko e eu nadamos para dentro da bocarra do casco rompido, para a escuridão, a iridescência de nossas barbatanas banhando as superfícies com uma luz mortalmente silenciosa. Há um pequeno porão apinhado de barris de armazenamento e, entre eles, várias criaturas marinhas encontraram tocas adequadas. Uma escada sem a maioria dos degraus leva ao convés. Empurramos a porta da escotilha e, em vez de abrir, ela se desfaz em farpas.

"Oitenta anos", Kaszira sussurra, passando um dedo por uma espessa camada de esqueletos de zooplâncton sobre a viga caída que um dia segurou as velas do navio. "É há quanto tempo este naufrágio está aqui embaixo."

"Mas os zonots não estão abertos ao oceano há tanto tempo", eu digo.

"É, checa seus cálculos", diz Miko, cutucando Kaszira nas costelas.

"Não tem nada errado com meus cálculos", diz ela, dando um soco de volta nele.

"Alunos. Concentrem-se."

Miko olha ao redor do convés, procurando algo para quebrar, mas para subitamente bem ao lado do leme. "Vocês viram isso?" Cracas agarram-se ao convés do navio, a única coisa que está impedindo que ele se desfaça completamente. Mas há uma área onde as cracas crescem em um padrão circular estranho. Miko pressiona a mão através da madeira quebradiça. Ela cede e, quando ele puxa as mãos de volta, está segurando um medalhão dourado do tamanho do seu rosto, ostentando o símbolo de uma estrela-do-mar inchada de oito pernas. "Isso deve valer algumas conchas!" diz ele, puxando a corda em que está preso, mas os nós seguram firme.

Tesouro | Arte de: Mark Behm

"Passagem~" a voz rouca diz novamente.

"Quem está aí?" pergunto, reunindo os alunos perto de mim. "Mostre-se!"

Espero que algum tritão brincalhão nade para fora. Eu não duvidaria de Ptero orquestrar uma farsa tão terrível, mas quando uma figura emerge da coleção mutilada de madeira encharcada que um dia foi a popa do navio, calafrios me assolam de cima a baixo. É uma figura corpulenta, bem constituída para as temperaturas próximas do congelamento destas águas profundas, vestida com um simples traje cinza. Não tem barbatanas perceptíveis. Humano, talvez. Vi algumas dessas criaturas curiosas, mas todas tinham modificações genéticas ou aparelhos desajeitados para respirar debaixo da água. Eram nadadores desajeitados e moviam-se com a graça de um cavalo-marinho bêbado. Este humano não se move assim, porém. Praticamente não se move, na verdade, mas está se aproximando constantemente. Um cardume de farpas-anjo assustadas foge de nossa intrusão, passando direto pelo corpo do humano, que agora parece menos substancial do que carne de geleia.

Miko solta um grito de guerra de gelar o sangue, então deixa cair o medalhão e levanta as mãos em defesa contra o humano. "O que é isso? Algum tipo de mutante de gosma?" ele grita.

O humano fixa os olhos nos de Miko. "Passagem~" ele geme.

"É um fantasma", diz Kaszira, aproximando-se do humano como se ele fosse uma arraia selvagem. "Não pode nos machucar. Eu acho."

"O que você quer de nós?" eu demando.

"Caaaasa~" diz ele, a palavra arrastada como se sua boca tivesse esquecido como falar. "Passagem para casa."

"Você é da superfície?" Kaszira pergunta animadamente. "Das terras secas?"

O fantasma assente. "Navio naufragou. Tripulação afogou. Exceto eu." Ele passa a mão pelo seu torso. "Já morto."

"Pobrezinho", diz Kaszira, nadando perto demais do fantasma para o meu conforto.

"Fique para trás, Kaszira", diz Miko, com os punhos ainda erguidos.

"Ele está com medo, não estão vendo? Aqui embaixo, sozinho por anos e anos." Kaszira senta-se sobre um baú, ao lado do fantasma. "Apenas deem um momento para ele se aquecer. Para lembrar como é estar com outras pessoas."

Kaszira está demonstrando empatia. E Miko está usando suas habilidades de observação para variar. Sei que deveria estar pensando em tirar minha classe o mais longe que puder deste naufrágio, mas se a exposição a este dilema estranho for suficiente para chocar esses dois e fazê-los melhorar suas áreas mais fracas, ambos podem ter chance de um bom desempenho. Realmente parece que este fantasma não tem domínio sobre a vida oceânica e, como tal, não parece ser uma ameaça imediata.

"Que tipo de besta sois vós?" o fantasma pergunta, cada uma das palavras secas lenta e irritante aos meus ouvidos. "Não vi nada como vós em toda Ravnica."

"Tritões, senhor", eu digo.

"Tritões, hein? Ah, bestas da água, então." Ele limpa a garganta várias vezes, mas não resolve a rouquidão. "Sou o marinheiro Andrik, único e infeliz sobrevivente do Heckless. O navio foi afundado por piratas, há muito tempo. Ficou no fundo do rio por décadas, meu único prazer observar o vislumbre da luz do sol alcançando através do azul. Era uma visão triste, mas eu não sabia o quão bem eu estava, até que o leito do rio começou a afundar, afundar. Engoliu o navio inteiro e eu com ele, por um buraco e para dentro deste cenário infernal escuro e miserável. Eu já tinha desistido de ver uma alma viva há algum tempo."

Ilha | Arte de: Eytan Zana

"Ele caiu por um dos zonots", diz Kaszira, quase um sussurro. "Sumidouros grandes o suficiente para engolir um navio! Imagine!"

Estou imaginando~algo muito inadequado. Imagino a confiança que meus alunos ganhariam ajudando este pobre fantasma a voltar para casa e a experiência que adquiririam indo em uma aventura no mundo real. "Nós o ajudaremos com a passagem para casa", digo, "Com a condição de que obedeça aos nossos comandos. O mar é perigoso e não permitirei que coloque a mim ou meus alunos em risco."

"E com a condição de que possamos ficar com isto!" Miko levanta o medalhão novamente, olhando a corda maliciosamente. Se há alguém que pode soltá-lo, é ele.

O fantasma balança a cabeça. "Eu adoraria que ficassem com isso. De verdade, mas temo ser apenas um adereço familiar sem valor real. Ouro falso. Mas sobre sua outra condição, eu consinto. Todos os comandos serão obedecidos, se apenas puderem reunir a mim e meu navio com o céu azul brilhante."

"Aah", diz Miko, soltando o medalhão de volta. "Por que você não nada de volta para a superfície? Não é tão longe assim."

"Minha consciência é pesada demais, temo. Os restos da tripulação ainda estão a bordo deste navio e eu não me sentiria apto a fazer essa jornada sem eles. É meu único desejo que suas famílias possam dar-lhes um sepultamento adequado."

Quando apresento a ideia aos outros alunos, metade está animada, a outra metade, nem tanto. "Será perigoso", digo. "Mas se seguirmos os caminhos dos protetores, passaremos em segurança. Sabemos que a 'empatia' é o primeiro mandamento dos protetorados tritões. Quem merece mais empatia do que um fantasma, mantido longe de seu povo por quase cem anos? E se não lhe mostrarmos misericórdia, ele provavelmente ficará aqui por mais cem."

Mais dois alunos concordam em vir, mas há uma resistente: Chessa.

"Os riscos são grandes demais, Cuidadora Medge", diz ela. "Como passaremos o navio pelos krasis?"

"Nós observamos. Nós ocultamos. E se isso der errado, nós lutamos", diz Kaszira, girando seu dedo indicador em círculos, criando um vórtice de bolhas. Magia flui em direção a ela, redemoinhos azul-brilhantes de gavinhas finas. "Conhecemos os feitiços. Estamos prontos para usá-los. Não é nosso chamado proteger as criaturas que precisam de proteção?"

Os outros alunos aplaudem Kaszira e a coloração das barbatanas de Chessa empalidece de vergonha. "Claro", diz ela, tentando salvar as aparências. "Claro."

Os alunos põem-se ao trabalho, aliviando a carga do navio, esvaziando o porão de carga de seus barris. Miko e Kaszira vão levantar o baú no convés para jogá-lo fora, mas o fantasma aproxima-se deles. "Esse não", diz ele. "Aquele baú contém nossos tomos sagrados, o Contrato Divino, esculpido em seis tabletes de granito branco, fielmente portando as pontificações do próprio Vovô Karlov! Éramos de uma linhagem humilde, navegando os rios de Ravnica para espalhar a boa palavra de Orzhova! E, que vergonha, nosso navio foi naufragado pelos caprichos levianos de piratas."

Miko solta o seu lado do baú, com uma sobrancelha erguida. "Tá legal~" diz ele, então sussurra para mim, "Eu gostava mais dele quando ele estava apenas gemendo."

Mas então Miko tem a brilhante ideia de coletar o saco vocal da besta anfíbia, um dos poucos pedaços que restaram na carcaça, usando-o como um balão para encher o casco de ar e torná-lo mais flutuante. Ele veda as perfurações com piche de robalo e então prendemos o saco dentro do barco e começamos a inflar. Passamos quase uma hora e meia de sopro constante, mas o navio começa a se deslocar no leito do oceano.

Kaszira e mais alguns alunos conjuram os feitiços de ocultação, armazenando-os dentro de conchas para que possamos usá-los em um instante em nossa passagem para o Zonot Cinco. Não é o zonot mais próximo, mas ouvi dizer que eles permitem todo tipo de visitantes, então esperançosamente não teremos problemas em emergir lá.

Cinco alunos guiam o barco e coloco meus melhores observadores na proa, atentos a krasis. Quando avistamos aquelas sombras ameaçadoras passando por cima de nós, mudamos de curso na direção oposta. Os alunos trabalham tão bem juntos que sou dominada por uma sensação de calma. Todos eles conquistaram um lugar na concha dos vencedores do meu coração. Conforme a água clareia, o zonot entra em vista, uma abertura cilíndrica brilhante refletindo luz da superfície, tudo ondulando à distância. Flocos de destroços passando sob o zonot captam a luz. Então percebo que não são destroços. São pessoas. E justo quando a escala imensa do zonot começa realmente a ser percebida, Miko grita "Krasis!"

A escuridão espalha-se acima, uma sombra maciça. Metade tubarão, metade caranguejo — todo dentes e garras. "Ocultar, ocultar!" eu digo. E juntos, recorremos à magia armazenada dentro das conchas e pressionamos nossas mãos contra o casco do navio. O velho naufrágio desaparece em uma névoa azul ondulante, como a própria água. O krasis passa bem por cima de nós, chegando a poucos metros. Miko quase estica a mão para tocá-lo. Quase, mas lanço-lhe um olhar tão frio quanto as profundezas do mar.

Essa foi por pouco.

O fantasma começa a ficar inquieto conforme finalmente nos aproximamos do zonot. Eu também estou nervosa. Só ouvira falar deles até agora e negava que qualquer coisa feita pelos habitantes da superfície pudesse ser tão bela quanto afirmavam, mas é. Esferas verdes luminosas alinham as paredes do sumidouro, como se tivessem sido encorajadas a crescer daquela forma em vez de serem empilhadas à mão. A vida vegetal entrelaça-se na estrutura, fornecendo suporte natural assim como beleza natural. O espaço de laboratório acima parece ser uma mistura de ar e aquáticos e, acima disso, milhares de pessoas caminham por uma vasta escadaria em espiral.

"Tudo isso não estava aqui quando desci pelo ralo", diz o fantasma, observando os Guardiões que vigiam a base do zonot. Um grupo de três tritões nada até os guardas mutantes sapos, entrega algumas moedas e, após uma breve inspeção, eles são autorizados a passar para dentro do zonot.

Portal da Guilda Simic | Arte de: Adam Paquette

"Se explicarmos seu dilema, tenho certeza de que nos concederão passagem segura", diz Kaszira.

"Vamos dar meia-volta", murmura o fantasma. "Encontraremos outro caminho para subir."

"Seu naufrágio já perdeu metade das tábuas do casco", diz Chessa. "Não acho que durará muito mais. E não temos mais feitiços de ocultação prontos."

"Chessa tem razão", eu digo. "Devemos prosseguir pelo zonot. Já arriscamos tanto para chegar aqui. Os Guardiões podem olhar a bordo, perguntar nossos nomes e ocupações, nada mais. Não há nada a temer."

"Não podemos!" grita o fantasma. O baú chacoalha no convés. Redemoinhos de magia laranja surgem das fendas da tampa, como a descarga de fontes hidrotermais. As águas inflam contra o navio e seu casco geme. As bordas suaves e esfarrapadas do fantasma endurecem enquanto ele absorve toda aquela magia e vislumbramos algo muito mais sinistro. Algo que definitivamente representa uma ameaça. Os alunos retesam suas barbatanas em resposta, prontos para uma luta.

"Quem é você de verdade?" exige Miko. "E o que tem nesse baú?" Ele vai abrir o baú e o fantasma estremece novamente, então despe-se completamente de sua face humilde. Foi-se o traje esfarrapado e ele agora permanece vestido em camadas e mais camadas de túnicas opulentas com vários colares que parecem feitos de bolachas-do-mar douradas. Ele brilha nas bordas, o que lhe dá uma aura hostil. Águas chicoteiam ao nosso redor, girando como uma corrente de retorno. Miko agarra bem o baú e não solta.

A tampa gasta finalmente cede e as águas tornam-se tornádicas, uma tempestade dentro do mar. Miko bate a cabeça nos destroços e fica imóvel, derivando. Eu arfo e solto meu apoio no barco para nadar atrás dele. A visibilidade é ruim através da turbulência: bolhas e destroços por toda parte, mas nunca perdi um aluno e não pretendo perder um agora. Eu o encontro, puxo-o para perto e então luto meu caminho de volta.

O conteúdo do baú voa ao nosso redor, definitivamente não tomos sagrados, mas tesouro de algum tipo. Antigo e belo, cada peça traz a marca do Conluio Simic.

"Você as roubou", eu digo. "Sua tripulação não estava pontificando! Vocês estavam piratando!"

"Ele poderia ter voltado para a superfície décadas atrás", diz Kaszira, "mas era ganancioso demais para deixar seu tesouro para trás."

"Ou talvez ele não partiu porque não podia partir", diz Chessa, raspando freneticamente as cracas do medalhão. Um vórtice abre-se bem ao lado dela, tentando arrancá-lo de suas mãos. Ela segura firme, cerrando os olhos para a escrita. "É algum tipo de sinete contratual. Está vinculado ao barco, então ele também está."

A água aquieta-se. "Solte isso, peixe", diz o fantasma, com os olhos em chamas.

Chessa encara-o de volta, finca um pé contra o convés, então ela e Kaszira puxam até que toda a prancha que ancora a corda do medalhão se solte. "Eu jogaria isso ao mar, mas você não merece a honra de descansar no leito do oceano", diz Chessa. Não sei o que deu nela, mas ela nada para longe com o medalhão, em direção ao krasis de que tínhamos acabado de escapar. O fantasma é puxado atrás dela, atado por magia antiga porém resiliente.

"Chessa!" eu grito. "Chessa." Mas ela é tão forte. Tão rápida, tão corajosa, eu nunca conseguiria alcançá-la.

"Deixe-a ir", sussurra Miko, apenas semiconsciente. "Ela precisa disso."

Chessa alcançou o krasis, todos aqueles dentes afiados brilhando. Ela o provoca, parecendo um lanche adequado, então quando a besta abre sua bocarra, Chessa esquiva-se e lança o medalhão lá dentro. "Vejamos como você gosta do seu novo mestre", diz ela ao fantasma enquanto as mandíbulas da besta se fecham e o medalhão encontra o caminho para o estômago.

A atenção do krasis volta-se para a curiosidade que é o fantasma enquanto Chessa nada para longe. Dentes rangem inutilmente através da aparição enquanto ele desaparece dentro do krasis, arrastado pelo medalhão.

O naufrágio foi obliterado, mas a classe reúne os artefatos Simic em seus braços. Nadamos até o zonot e explicamos aos guardiões o que acontecera. Uma das guardiãs se interessa por uma peça escura de metal iridescente com uma filigrana de conchas e garras. Ela chama seu chefe. O mago elfo olha para baixo e seus olhos se arregalam enquanto ele a pega cuidadosamente.

Sua boca busca palavras antes de ele finalmente dizer: "Se não me engano, esta é a chave rúnica de Momir Vig. Roubada há quase um século. Há uma exibição popular sobre ela aqui no zonot. Venham. Vou levá-los ao curador do museu, para que possam contar sua história."

Chave Rúnica Simic | Arte de: Daniel Ljunggren

Saímos da água na base do zonot, tão ansiosos e tão curiosos que mesmo o peso repentino do mundo da superfície pressionando nossos ossos não nos atrasa. Após subirmos alguns lances de escada, porém, desejei ter passado mais tempo nas cavernas marinhas, aclimatando meu corpo a respirar ar. Fico me sentindo tonta, tentando absorver todas as invenções criadas pelos Simic. Meu povo. Vendo os frutos da Surgência, talvez eu os entenda um pouco melhor agora.

Somos alimentados e autorizados a cuidar de nossas barbatanas em piscinas rasas enquanto a equipe do museu corre em preparação para a instalação. Finalmente, o curador nos saúda e recebemos um tour pelo museu. Muitas eras da história Simic estão dispostas à nossa frente.

Há uma seção inteira dedicada às buscas intelectuais de Momir Vig e o curador nos dirige à peça central: o último citoplasto que Vig criara antes de sua queda. Ele está sobre um pedestal, cercado por três guardiões. A massa amorfa ondula alegremente sob os holofotes, em uma espera eterna para conectar-se com alguma pobre alma e manipular sua genética. Eu estremeço, então volto minha atenção para a nova exibição a ser revelada~nossa descoberta~diante de uma multidão de visitantes do museu.

"Hoje é um dia muito importante para nós", entoa o curador. "Um de nossos tesouros perdidos foi devolvido a nós e é minha honra exibi-lo aqui, onde poderá ser observado por séculos!" Após um longo monólogo, quase todos estão espiando por cima do ombro uns dos outros, buscando seu primeiro olhar para a chave rúnica usada por Momir Vig. Eles a poliram e ela agora brilha tão intensamente que quase dói olhar. Até os guardiões que vigiavam o citoplasto voltaram sua atenção para testemunhar tal evento monumental.

Noto que Kaszira parou de prestar atenção e está espiando através do vidro de bolha da próxima exibição: um laboratório funcional, com criaturas flutuando em gel espesso. Mesmo através do vidro distorcido, eu as vejo crescendo, mudando, sofrendo mutações. Uma concha começa a endurecer sobre carne jovem e macia.

"Se você quiser passar por modificação genética", digo a Kaszira, "então apelarei aos seus pais para que você inicie os tratamentos. Após a conclusão, você pode treinar novamente para o protetorado sob o comando de Ptero. Seus pais ficarão tristes por você não aderir às ideias Utopianas deles, mas se é para onde seu coração te leva, então você deve segui-lo."

Kaszira balança a cabeça. "Não quero uma mutação. E sempre vi o valor da vida Utopiana, mas ela não é sustentável~não com os krasis lá fora. Talvez, se eu estudar aqui nos zonots, eu pudesse descobrir como poderíamos mudar a luta. Talvez pudéssemos dar aos bentídeos resplandecentes uma pele mais forte ou a habilidade de se camuflarem. Podemos dar-lhes uma chance de sobreviver. Podemos manter nossos caminhos Utopianos e equilibrá-los com os caminhos dos Adaptacionistas."

Ela faz tanto sentido. Sua exibição de empatia será inigualável. E pela primeira vez, vejo Kaszira como sua própria pessoa, não apenas a sobrinha de uma oficial de alto escalão, que um dia fará um grande barulho por conta própria. "Você deixará o Conluio orgulhoso. Você já me deixa orgulhosa."

Estou orgulhosa de todos os meus alunos: Chessa, Dimas, Laszlo, Saganderis, Fania, Zyanek e~Miko? Para onde ele correu?

Eu o vejo, seu dedo a centímetros de tocar o citoplasto agora desprotegido.

"Miko!" eu grito. "Pare agora mesmo!" Ele retira o dedo e vira-se em minha direção, mas uma de suas barbatanas bate no pedestal e o citoplasto tomba de seu lugar. A massa amorfa de células vivas cai direto em minha direção. Tento me mover, mas aqui fora, neste ar pesado e opressivo, meus membros falham e não tenho tempo de sair do caminho. O citoplasto me atinge no peito. No momento seguinte, sinto uma substância pegajosa rastejando sobre minha pele, afundando dentro de mim, buscando partes de mim para sofrer mutação.

A pressão aumenta. Sinto oito das minhas barbatanas engrossando, alongando-se. Carne de ventosa irrompe de suas partes inferiores e, em suas pontas, bulbos de carne pressionam para fora e então piscam ao abrir. A luz desliza para minha mente, acompanhada de mais imagens do que consigo processar. Estou vendo a sala de vários ângulos, tudo ao meu redor captado em minha visão. Aquelas coisas nas pontas dos meus tentáculos, são olhos.

Guardiões aproximam-se, mas antes que possam me apreender, minha classe reage à ameaça e me cerca, um escudo formidável de coragem e observação, e se esta é a nossa luta, estamos prontos para resistir.

"Afaste-se", diz o guardião aos meus alunos. "Esta tritã destruiu um artefato inestimável."

"E nós lhe demos um novo. Estamos quites. Deixe-nos passar", eu demando. "Ou então."

"Ou então o quê?" o guardião pergunta, divertido com a ameaça.

Posso dizer que não me orgulho do que acontece a seguir. Culpo a confusão de sofrer mutação tão rapidamente, deste ar seco demais deixando meus pensamentos tontos. Uma luta ocorre e, após uma rodada de barbatanas quebradas e egos partidos, minha classe e eu somos jogados na carceragem do zonot. Talvez seja bom saber que nosso Conluio não é frágil o suficiente para ser derrubado por um grupo de tritões pré-adolescentes e sua professora recém-tentaculada.

Finalmente, após horas de silêncio, a porta da carceragem abre-se e entra nadando a Oradora Utopiana Zegana. Em pessoa, ela é mais majestosa do que eu jamais imaginara.

"Kaszira, minha sobrinha", diz ela. "Falei com seus pais e eles expressaram extremo desagrado com suas ações aqui."

"Sinto muito, titia." Kaszira inclina-se para a frente, as barbatanas descendo flacidamente pelas costas.

"Receio que 'sinto muito' não vá desfazer o estrago que vocês causaram", diz Zegana. "Você e seus amigos devem retornar ao território dos tritões imediatamente e estão, por meio desta, banidos dos zonots."

Meu coração arde. Kaszira não poderá mais prosseguir com sua educação aqui. Ela não poderá mais realizar seu sonho.

Não posso deixar isso passar. "Se alguém deve ser banido dos zonots, minha querida oradora, por favor que seja eu. Coloquei estas crianças em perigo, mas o único desejo delas é servir ao Conluio Simic da melhor maneira que sabem. Chessa aqui superou seus medos e exibiu um ato extremo de coragem. Miko provou suas habilidades de observação. E Kaszira não apenas demonstrou empatia, ela encontrou sua vocação. Ela quer estudar nos zonots e levar seu conhecimento de volta aos oceanos, onde pode ajudar a nos fortalecer a todos."

"Isso é verdade?" Zegana pergunta a Kaszira.

Kaszira assente, agora de pé, reta como um espigão de peixe-rocha. "É, titia. Mais do que qualquer coisa."

Zegana, Oradora Utopiana | Arte de: Slawomir Maniak

Zegana vira-se e nos deixa sem mais uma palavra. Vários minutos depois, estamos sendo conduzidos para fora da cela, depois para fora do zonot, de volta ao oceano. Nunca pensei que ficaria tão animada em ver o leito do mar novamente.

No dia da exibição, as garras de caranguejo de Ptero tremem ao ver minha classe, a confiança deles como uma aura ao redor deles. E, com certeza, cada um dos meus alunos garante um lugar no protetorado, exceto dois. Miko~porque, bem, ele é o Miko, mas ele evoluiu além de todas as minhas expectativas e eu alegremente o terei repetindo comigo no ano que vem. Kaszira também não garante uma vaga. Na verdade, ela nem comparece à sua exibição. Mas enquanto meus alunos ocupam seus lugares no palco de madrepérola central que é a concha dos vencedores, eu a vejo na plateia~vestida com túnicas de biomante Simic. Ela conseguiu. Ela vai para os zonots estudar.

Solto um suspiro de alívio.

"Obrigada por me dar o chute na barbatana de que eu precisava", digo a Ptero quando ele passa. Quase metade da ninhada dele se classificou. Não tão bom quanto ele esperava, mas a competição no geral foi a melhor que vi em anos.

"Não precisa zombar de mim", resmunga ele, olhando para meus tentáculos com um ciúme palpável.

Sei que eu era contra as adaptações, mas esta me cai muito bem. Consigo ver tudo, ao meu redor. Não tem como um aluno escapar da minha vista agora.

"Não estou zombando de você. Eu evitei as ideias Adaptacionistas. Você descartou as Utopianas. Nós dois abraçamos os extremos, quando deveríamos ter dedicado tempo para aprender um com o outro e encontrar um lugar no meio."

Ele olha para mim, surpreso por eu não ter aproveitado esta oportunidade para envergonhá-lo como ele fizera comigo tantas vezes. "Talvez no ano que vem possamos nos unir", diz ele, "cuidar de nossas ninhadas juntos. Podemos garantir que estaremos enviando os melhores e mais brilhantes para serem os protetores do nosso oceano."

Ano que vem. Gostei muito do som disso e tenho a sensação de que será a melhor ninhada de todas.

20 de Fevereiro de 2019 | Por Nicky Drayden

O Livro-razão das Fortunas Ocultas

Data: 15 de Dhazo

Local: Colinas do Trevo

Resumo dos Procedimentos de Coleta de Dízimo:

Dos 360 nomes listados no registro de dízimo:

- 259 cidadãos pagaram integralmente o dízimo obrigatório de 30% de seus salários - 87 cidadãos enviaram pagamentos parciais com promessas de dívida (Consulte o Livro-razão de Dívidas para detalhes) - 13 cidadãos optaram por açoite público e servidão por dívida - 1 cidadão recusou-se terminantemente a pagar — conforme exigido, seus bens serão confiscados, junto com os de seus familiares estendidos, para serem redistribuídos pendentes de absolvições

Total de Dízimos Semanais:

- 21.890 zinos em moedas cunhadas - 7.503 zinos em promessas de dívida - 4.401 zinos em propriedades confiscadas (Veja as avaliações estimadas nas notas abaixo)

Item de Propriedade 1: Qtd 3 – Correntes de moedas, prata. Avaliado em 69 zinos#linebreak() Item de Propriedade 2: Qtd 1 – Amuleto Orzhov, lápis-lazúli com brilho solar de cristal. Avaliado em 155 zinos#linebreak() Item de Propriedade 3: Qtd 7 – Máscaras de thrull, banhadas a ouro. Avaliado em 109 zinos#linebreak() ~

É minha terceira semana completa como cobradora de dízimo certificada e, apesar das garantias do meu pai, não ficou nem um pouco mais fácil. Hoje foi especialmente ruim, então estou escrevendo sobre isso aqui no meu livro-razão. Ninguém nunca lê todas estas notas de qualquer maneira e posso anotar meus sentimentos sempre que quiser, sem que ninguém saiba.

Hoje foi minha primeira recusa. O cidadão em questão tentou argumentar comigo que o novo dízimo obrigatório de trinta por cento era demais. Costumava ser dez por cento, ele disse, desde que ele conseguia se lembrar. Expliquei gentilmente que ainda era dez por cento — os primeiros dez por cento indo para a defesa e gestão de guerra, os segundos dez por cento indo para serviços sociais e infraestrutura, e os dez por cento finais indo para Orzhova para compensar o Obzedat e os Oligarcas por seu tempo valioso, mas ele não quis ouvir. Apresentei-lhe a oportunidade de compensar os outros vinte por cento em promessas de dívida, se precisasse, mas então ele começou a amaldiçoar a guilda, dizendo que era bom nossos mestres de guilda tirarem suas mãos gananciosas dos bolsos dele antes que ele fizesse algo a respeito.

Eu poderia ignorar sua agitação e palavrões, mas não poderia ignorar uma ameaça flagrante contra o Obzedat. Quando me movi para subjugá-lo, seus olhos tremeram como os de um morcego raivoso. Ele avançou contra mim, suas mãos nuas batendo contra minha armadura banhada a ouro até que o metal ficou vermelho com o sangue dele. Dei-lhe uma cotovelada na têmpora e então usei meu cajado para varrer seus pés debaixo dele. Ele caiu e atingiu a terra, com a respiração pesada e difícil. Ele fixou os olhos nos meus, como se a punição que estava prestes a cair sobre ele fosse toda culpa minha.

Ele foi quem se recusou a pagar. Eu estava apenas fazendo o meu trabalho.

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Data: 24 de Dhazo

Local: Propriedades da Prosperidade

Resumo dos Procedimentos de Coleta de Dízimo:

Dos 292 nomes listados no registro de dízimo:

- 120 cidadãos pagaram integralmente o dízimo obrigatório de 30% de seus salários - 127 cidadãos enviaram pagamentos parciais com promessas de dívida (Consulte o Livro-razão de Dívidas para detalhes) - 37 cidadãos optaram por açoite público e servidão por dívida - 8 cidadãos recusaram-se terminantemente a pagar — conforme exigido, seus bens serão confiscados, junto com os de seus familiares estendidos, para serem redistribuídos pendentes de absolvições

Total de Dízimos Semanais:

- 6.890 zinos em moedas cunhadas - 37.503 zinos em promessas de dívida - 8.143 zinos em propriedades confiscadas (Veja as avaliações estimadas nas notas abaixo)

Item de Propriedade 1: Qtd 3 – Socos ingleses, com espigões. Avaliado em 37 zinos#linebreak() Item de Propriedade 2: Qtd 12 – Turíbulos pequenos, prata com detalhes em ouro. Avaliado em 155 zinos#linebreak() Item de Propriedade 3: Qtd 1 – Fone de comunicação, Dimir, encantado. Avaliado em 109 zinos#linebreak() ~

Hoje, após o jantar, apresentei ao meu pai o dinheiro que eu tinha desviado dos dízimos. Quase quinhentos zinos. Eu conseguia praticamente ver o ouro refletido em seus olhos arregalados e vítreos. Ele limpou uma lágrima antes que ela caísse, então me puxou para um abraço apertado.

"Duzentos e quinze zinos a mais do que na semana passada! Essa é a minha garota!" ele me disse, apertando minha orelha. Senti orgulho de contribuir para os cofres minguantes da minha família. Tem sido difícil ultimamente, mesmo antes do aumento do dízimo de Orzhova.

Alguns anos atrás, uma sequência de investimentos ruins obliterou grande parte da herança do meu pai. Ele procurou os espíritos de nossos ancestrais na esperança de obter um empréstimo das fortunas maciças a que eles se apegaram após a morte. Admitir o fracasso o destruiu e todos teríamos que sofrer com os olhares desdenhosos de nossos ancestrais sempre que eles nos visitavam para o Dia das Absolvições ou para a Véspera do Acerto de Contas. Mas o que meu pai trouxe de volta para casa foi pior do que estar sobrecarregado de dívidas. Ele voltou para casa com a verdade: não havia fortuna familiar. A riqueza de nossos ancestrais estava pesadamente ligada aos cofres do Conselho Fantasmagórico e, quando o Conselho Fantasmagórico bateu as botas, o dinheiro deles se foi também. Nossos espíritos ancestrais estiveram mantendo aparências de sua afluência o tempo todo, quando na realidade, eles tinham apenas alguns milhões de zinos em seus nomes e não conseguiam suportar se desfazer de nada disso.

Ministrante da Obrigação | Arte de: Bastien L. Deharme

Eu estava ressentida, mas papai entendia melhor do que eu. Manter as aparências era importante e caro para nós também. Não ousávamos empregar menos de três servos, por medo de que a notícia chegasse aos Oligarcas. Como pontífice, papai só se associava com eles ocasionalmente, mas estar nas sombras dos Oligarcas era um privilégio ao qual muitos aspiravam. Não podíamos arriscar ter nossa posição social rebaixada, então todos na nossa família contribuíam. A coleta de dízimos é a minha contribuição.

"Eu sabia que você conseguiria", papai disse, guardando o dinheiro em um de seus bolsos profundos. "Eu não te disse que ficaria mais fácil?"

Desvie um zino aqui, desvie outro ali. Adultere os livros-razão. Todos os cobradores de dízimo fazem isso.

Só que eu não conseguia. Sei que foi todo o motivo pelo qual papai me empurrou para a profissão. Um dia de trabalho honesto para um dia de desvio honesto, ele dizia com uma risada. Mas tirar o dinheiro das pessoas não me trazia alegria, mesmo que nossa família precisasse, porque todas aquelas famílias lá fora tinham muito menos do que nós. Então consegui um segundo emprego auxiliando um mago da carne. Fazer thrulls não é a linha de trabalho mais glamourosa, mas paga bem e sou boa nisso. Se meus pais algum dia descobrirem, nunca vou parar de ouvir — como a magia da carne é inferior à nossa posição e, se os espíritos da nossa família algum dia descobrirem~deuses nos ajudem.

Metade do que ganho a cada semana, dou ao meu pai. Uso a outra metade para ajudar os cidadãos que não conseguem pagar seus dízimos. Não posso ajudar muitos, mas em meu coração, espero que existam mais cobradores de dízimo por aí fazendo o mesmo.

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Data: 11 de Prahz

Local: Ala dos Oligarcas, Sul

Resumo dos Procedimentos de Coleta de Dízimo:

Dos 402 nomes listados no registro de dízimo:

- 34 cidadãos pagaram integralmente o dízimo obrigatório de 40% de seus salários - 339 cidadãos enviaram pagamentos parciais com promessas de dívida (Consulte o Livro-razão de Dívidas para detalhes) - 34 cidadãos optaram por açoite público e servidão por dívida - 29 cidadãos recusaram-se terminantemente a pagar — conforme exigido, seus bens serão confiscados, junto com os de seus familiares estendidos, para serem redistribuídos pendentes de absolvições

Total de Dízimos Semanais:

- 1.890 zinos em moedas cunhadas - 68.667 zinos em promessas de dívida - 22.852 zinos em propriedades confiscadas (Veja as avaliações estimadas nas notas abaixo)

Item de Propriedade 1: Qtd 4 – Pedras da pista, encantadas. Avaliado em 67 zinos#linebreak() Item de Propriedade 2: Qtd 2 – Sinete, contaminado. Avaliado em 55 zinos#linebreak() Item de Propriedade 3: Qtd 12 – Litro de sangue humano, pasteurizado. Avaliado em 109 zinos#linebreak() ~

Papai chegou em casa de mau humor hoje, outro de seus planos de enriquecimento rápido que deu errado. Terrivelmente errado pelo aspecto da sua perna, agora um emaranhado retorcido de carne azul-acinzentada de thrull. Tentei chegar perto o suficiente para trabalhar minha magia da carne nela sem que ele notasse, mas ele estava furioso e batia os pés por toda a casa. A placa de rosto dourada do thrull presa à sola de seu pé batia no chão de pedra com tanta força que derrubou as bonecas de porcelana na cristaleira da mamãe. Papai amaldiçoou o Conclave Selesnya, chamando-os de um bando de fanáticos que comem farelo, vestem folhas e sofrem lavagem cerebral, e dizendo que derrubará a guilda sozinho pelo que fizeram com ele. O tempo todo, zibs de cobre caíam dos buracos em seus bolsos. De suas reclamações, entendi que havia uma máquina Izzet e vermes envolvidos. Parecia interessante, mas não perguntei.

É melhor evitá-lo quando ele está em um desses seus humores.

Algo interessante aconteceu trabalhando para o Mago da Carne Jarek hoje. Eu estava ocupada processando um cadáver quando o ouvi na sala de acerto de contas.

"Silêncio", disse ele. "Seus apelos são inúteis agora."

Uma mulher implorava por sua vida, o que não era novidade. Todos os tomadores de empréstimos faziam isso. Mas então ela disse: "Tenho informações sobre uma vulnerabilidade em Vitu-Ghazi. Só preciso falar com meu contato e serei compensada justamente. Então poderei quitar todas as minhas dívidas!"

Além de curiosa, deixei a carne com que estava trabalhando cair em uma pilha e quase derrubei uma pilha de patelas enquanto corria para a porta. Quando espiei para dentro da sala de acerto de contas, vi uma mulher vestida com finas túnicas Selesnya, o material diáfano mal sendo um sussurro contra sua pele. Seus movimentos eram impetuosos e bruscos, porém, e me pegaram de surpresa. Quando eu era mais jovem, sabia em meu coração que queria me juntar a Selesnya. Queria estudar seus caminhos e abraçar o poder do "dom". Papai cortou isso antes que a ideia tivesse chance de criar raízes, então não aprendi muito sobre eles, mas sabia de uma coisa — nenhum Selesnyano ousaria se envolver em dívidas com o Sindicato Orzhov. Só pude concluir que ela era uma espiã. Dimir, provavelmente.

Jarek não teve piedade dela e convocou as runas que espreitavam nos cantos sombrios da sala de acerto de contas. Magia saiu de suas pontas dos dedos, gavinhas pretas de fumaça que eram efêmeras no início, mas depois se afiaram em adagas. Ele esfolou a devedora da cabeça aos pés e, assim que Jarek fez o corte final, o espírito derivou livre em direção ao teto. Antes que pudesse escapar, ele o vinculou a um tomo com outro conjunto de feitiços e então ordenou que o espírito entrasse na fila ao longo da parede com os outros que ele colhera hoje. Treze ao todo. Tempos ocupados.

Quando ele me chamou, contei até cinco e entrei correndo como se não estivesse bisbilhotando na porta. Arrastei o cadáver para fora da sala de acerto de contas, despi-o e então o limpei com óleos perfumados que interromperiam a decomposição. Consultei meus diagramas, calculando as formas que eu precisava esculpir na carne. Recebemos um pedido de um thrull do tesouro. Criar uma besta de seis toneladas é um quebra-cabeça complicado de montar e geralmente exigia nada menos que quarenta corpos humanoides, mas aprendi a fazê-lo com trinta e três. O truque é medir duas vezes, conjurar uma~não é um grande segredo, mas você ficaria surpreso com quantos magos começam a invocar magia sem planejamento nenhum. Eu poderia fazer um outro thrull inteirinho com os retalhos de carne que eles deixam para trás.

Mas enquanto eu começava a desenhar meus contornos no corpo com um bastão de carvão, meus olhos continuavam voltando-se para as túnicas Selesnya dobradas ordenadamente no meio do chão.

Camaradagem | Arte de: Sidharth Chaturvedi

Orei aos meus espíritos ancestrais para que o pensamento rebelde fosse embora.

Um dos imps thrull que eu montara hoje miou, seus olhos dardejando de mim para as túnicas e de volta, como se soubesse o que eu estava pensando.

"Eu realmente não deveria~", respondi a ele. Seria inadequado pegar as túnicas. Elas pertenciam a Orzhova agora, apenas mais um item de propriedade confiscada para registrar em um livro-razão:

Item de Propriedade 12.542: Qtd 1 – Túnicas, Selesnya, seda. Avaliado em 68 zinos

Ninguém sentiria falta delas. Enfiei as túnicas em minha sacola.

Talvez eu não seja tão ruim em desviar coisas, afinal.

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Lendo de novo essa entrada, percebo que fiz meu pai parecer horrível, mas ele é maravilhoso em tudo o que importa. Durante nossos tempos de abundância, ele frequentemente contribuía para as artes, encomendando os retratos em vitral de nossos ancestrais que ficavam nas janelas da nossa sala de jantar. Ele investira em vários pequenos negócios, incluindo um que fabricava um gerador de chaves rúnicas, o que mudou o cenário de segurança de Ravnica. E papai tem a paciência de um santo comigo. Em meus dias mais jovens, tive uma fase um pouco rebelde~ainda tentando descobrir quem eu era e a que lugar pertencia. Pintei meu cabelo de todas as cores do arco-íris (exceto verde, claro~papai nunca permitiria aquela cor em sua casa) e ele nem piscou, apenas me desfilou pela nossa basílica enquanto minha mãe se encolhia dez passos atrás de nós, envergonhada demais para ser vista pelas damas de seus círculos sociais. Eu era pequena sob o volume daqueles arcos intimidantes da basílica, mas caminhando ao lado de papai, com aquele sorriso no rosto, eu me sentia uma gigante. Ele me apoiou de todas as maneiras imagináveis, e é por isso que estou disposta a negar esta única parte de mim por ele.

Mas através dele, consegui ver o bem que preenche nossa guilda e Orzhov é o suficiente para mim.

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Data: 26 de Prahz

Local: Praça da Penitência

Resumo dos Procedimentos de Coleta de Dízimo:

A coleta de dízimo foi temporariamente suspensa devido a motins. Soldados de reforço do Décimo Distrito estão sendo enviados para ajudar a pacificar a situação.

Bem, tive a tarde livre inesperadamente e não estou ansiosa para voltar amanhã. Os cidadãos não estão felizes com outro aumento de dízimo tão cedo e estou ficando cansada de esfregar sangue de todos os cantos da minha armadura.

Papai saiu para se encontrar com um chefe de docas sobre um potencial investimento e minha mãe estava em seu clube social, então pensei que teria a casa toda só para mim por hoje.

Não demorou muito para meus pensamentos voltarem para as túnicas Selesnya escondidas sob meu colchão. Fui experimentá-las, apenas para ver como ficavam. Serviram tão bem e, comparado com a armadura a que me acostumara, era como vestir nuvens. Imaginei filigranas de folhas descendo pelos meus braços, o cabelo preso e amarrado com uma vinha retorcida, bagas e flores presas ali perfeitamente. Saltei para a sala de estar e fiz uma reverência diante da imponente cristaleira da mamãe, fingindo ser Vitu-Ghazi. Dancei como se fosse o vento soprando as folhas da árvore-mundo — como se estivesse livre de confiscar os bens pelos quais as pessoas trabalharam arduamente e livre de confiscar seus próprios ossos.

Então a porta da frente bateu. Meu pai estava em casa e, julgando pelo fedor pantanoso que trouxera consigo, eu sabia que não seria bonito. Tentei me livrar daquelas túnicas traiçoeiras, mas os laços nas costas estavam bem amarrados. Sem opções, pressionei-me contra as sombras, observando enquanto ele andava furioso, reclamando de como quase fora esmagado por um caixote de uísque. Ele arrancou seu manto molhado, que tinha todo tipo de destroços grudados na lã preta.

"Miri!" ele me chamou, com a voz alta, achando que eu ainda estava no meu quarto. "Miri! Venha aqui."

Então seus olhos finalmente se ajustaram à iluminação fraca e ele me viu.

Nunca o vira tão bravo. Sua voz sacudiu as vigas, fazendo pedaços de poeira choverem sobre mim. Vestir túnicas Selesnya na casa dele? Eu seria deserdada. Então busquei uma desculpa, qualquer desculpa.

"Descobri uma informação, papai, uma pista de que Vitu-Ghazi tem uma vulnerabilidade." Engoli em seco o nó na minha garganta. "Vou me infiltrar para ver se a encontro e, se conseguir, podemos explorá-la e ter toda Selesnya nos implorando misericórdia!"

"Onde você conseguiu essa informação?" ele siseou para mim, com os olhos ainda cerrados. "Isso não parece uma tarefa para uma cobradora de dízimo. Vou falar com seu comandante."

Agarrei a camisa dele, ainda ensopada, percebendo que teria que confessar que praticava magia da carne. "A tarefa não veio do meu comandante. Ouvi a informação de uma espiã com meus próprios ouvidos."

"Mas de onde?"

"A espiã estava implorando por sua vida, logo antes de seu espírito ser tomado. Eu estive~trabalhando para um mago da carne em meu tempo livre."

Sua carranca não diminuiu. Em vez de ajudar minha causa, eu acabara de desafiá-lo duplamente. Se eu ia reconquistar a confiança do meu pai, precisava realmente convencê-lo.

"Papai, você honestamente acha que eu usaria estes trapos malditos se não achasse que esta pista poderia nos abençoar com uma riqueza imensurável? Vi como você e mamãe têm lutado, renunciando à própria felicidade para sustentar a minha. No momento em que ouvi sobre a vulnerabilidade de Selesnya, tudo o que consegui pensar foi em como poderia usá-la para aumentar a prosperidade Orzhov. Os cobradores de dízimo me treinaram em intimidação e combate. Você me ensinou a manipular o sistema para o ganho da nossa família. Por favor. Deixe-me fazer isso."

Seus olhos suavizaram. Sua postura passou de um músculo tenso para braços abertos, prontos para um abraço.

Plantei a semente da fortuna em sua mente e, quando ele olhou para mim naquelas túnicas, não viu mais uma traidora, mas uma sucessora apta que restauraria a riqueza da nossa família.

Não tenho certeza de qual olhar me assusta mais.

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Data: 7 de Mokosh

Local: Composto de Iniciados

Estou aqui! Orientação Selesnya.

E tenho um diário de verdade agora, feito de papel de folha de palmeira duplamente abençoado com pequenas flores amarelas prensadas na polpa. As páginas são quebradiças e grossas demais para virar corretamente e, em alguns pontos, parece que está repelindo ativamente minha tinta~mas é lindo e é meu e não preciso mais escondê-lo. Na verdade, os anciãos incentivam ativamente que escrevamos nossos sentimentos sempre que sentirmos necessidade.

Planície | Arte de: James Paick

Nossa classe tem trezentos iniciados. Danika, Caz e Vasil estão no meu casulo de desenvolvimento designado. Caz e Vasil não têm guilda. Danika trabalhou como detentora Azorius, mas após a carnificina do motim de Udzec e as repressões subsequentes, ela teve um colapso nervoso e decidiu que precisava de uma mudança de cenário. Nosso casulo de desenvolvimento está conectado a outros quatro, formando um ramo de apoio, e esses ramos conectam-se a troncos de enriquecimento e então houve algo sobre um sistema radicular, mas eu já tinha desligado do ancião àquela altura, porque, como se fosse um sinal, o odor de todas as nossas trezentas axilas coletivas começou a gritar obscenidades para o meu nariz.

Nós nos limpamos em um banho morno de bagas e óleos antes de vestir nossas túnicas recém-lavadas. O cheiro era celestial na hora, mas aqueles botânicos aparentemente não fizeram nada para neutralizar o suor e o fedor gerados em nossas partes úmidas. Um dos iniciados teve a audácia de levantar a mão para reclamar.

O ancião chamou o cheiro de parte de nossa "aura natural" e prometeu que logo nos acostumaríamos.

Danika passou um pequeno frasco ao redor do nosso casulo e cada um de nós passou um toque de óleo perfumado sob o nariz e então sentamos e ouvimos atentamente as instruções de oração.

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Data: 12 de Mokosh

Local: Assembleia do Conclave

Quase me sinto mal por escrever isso, mas já sinto falta de casa. Claro, o Sindicato Orzhov tem seus problemas, mas nossa higiene é impecável e nosso papel não se desintegra espontaneamente em pedaços se você olhar para ele com muita força. E nunca na minha vida apreciei tanto o dinheiro quanto agora. Por exemplo, ontem, quando soube que estávamos sendo convocados para participar da nossa primeira Bênção Coletiva, soube instantaneamente que tinha que aparecer em algo mais deslumbrante do que minhas túnicas roubadas. Após quase uma semana de uso constante, elas estavam começando a parecer surradas, mas não há um alfaiate a uma distância caminhável do composto de iniciados, apenas algumas costureiras que fazem túnicas em suas casas.

Encontrei as túnicas exatas que eu queria, porém, sedas fluidas e belas bordadas com folhas em fio de ouro. Minha carteira praticamente pulou do meu bolso quando as vi. O trabalho dela era magnífico. Celestial. Eu não conseguia parar de pensar em quão lucrativo o negócio dela poderia ser com a ajuda de um bom investidor. Ela poderia comprar os contratos de dívida de meia dúzia de devedores e fazê-los costurar tudo. Ela poderia triplicar seus lucros só no primeiro ano, expandir sua marca, comprar um ponto de venda na Rua Estanho, atrair mais investidores, então~

~Mas esse não é o caminho Selesnya. Para piorar, a costureira só trocaria as túnicas por uma chaleira de cobre ou tesouras de poda afiadas com bandu. Achei que uma chaleira seria mais fácil, já que eu não tinha ideia do que eram tesouras de poda afiadas com bandu. Fui a um ferreiro que queria quatro pares de meias tricotadas pela chaleira. O único tricotador por perto queria três quilos de pele de lobo branco. (Não ousei perguntar para que seria usada.) Encontrei um cavaleiro de lobos que estava enfermo e queria que seu filhote fosse passeado em troca. Passeei o lobo (que com certeza não era um filhote). Dei a pele para o tricotador e as meias para o ferreiro. Eu estava pegando o jeito da permuta, embora tivesse passado quase toda a manhã correndo em vez de estudar e, deixe-me dizer, minha aura pessoal estava passada.

Então me limpei antes de voltar à costureira, porque sabia que não teria tempo antes da assembleia de Bênçãos Coletivas para fazê-lo. Então bati à porta dela e, quando ela atendeu, estendi a chaleira para ela, bem polida, incapaz de conter o sorriso orgulhoso no meu rosto. "Eu gostaria de permutar isto por aquelas túnicas, por favor."

Ela sorriu o sorriso mais gentil e disse: "Mas que utilidade eu teria para duas chaleiras?" E de dentro da casa dela, ouvi uma chaleira apitando, trocada com ela por algum outro cliente nem vinte minutos antes. Minha cabeça doeu. Meu coração também.

Quando me reuni com meu casulo, Danika viu minha frustração e me emprestou um xale que mudou completamente o visual das minhas túnicas. Estávamos atrasadas para as Bênçãos, então sentamos no fundo onde o xamã não nos notaria. Ficamos inquietas após a terceira hora de cânticos e começamos a passar bilhetes em papel de folha de palmeira. Perguntei se ela iria a Vitu-Ghazi comigo amanhã. Ela parecia estar se adaptando ao Conclave mais rápido do que eu e eu poderia usar o apoio dela. Ela concordou e, quando nosso bilhete se desintegrou em uma pilha de polpa quando ela o entregou de volta para mim, mal conseguimos conter o riso.

Eu sabia que as chances de eu encontrar a vulnerabilidade de Vitu-Ghazi eram pequenas. Sabia que o desapontamento esperava por meu pai. Podemos nunca recuperar nossa fortuna, mas pelo menos poderei dizer a ele que fiz um esforço. E talvez com o aniversário dele chegando, ele logo esqueceria todo esse plano bobo. No Sindicato, aniversários são celebrados com colares de moedas e todo ano, os Oligarcas que papai passa tanto tempo tentando impressionar o cobrem de riqueza. Os colares são meros adereços para os Oligarcas, claro, mas sua generosidade poderia manter nossa família à tona por meses, talvez até um ano.

Antigamente, quando eu era criança e quando o dinheiro de aniversário era apenas dinheiro para diversão, eu o ajudava a cortar as moedas do cordão e empilhá-las. Ele doava metade para a igreja, como é obrigatório, mas gastava a outra metade nas corridas de dromades, sua chance de transformar aquela aparente ninharia em uma fortuna. Ele sempre me levava com ele. Eu sentava no colo dele, embora caísse toda vez que ele se levantava em uma enxurrada de emoções — ou agradecendo aos espíritos por uma aposta vencedora ou amaldiçoando-os por uma perdedora. Havia muito mais dessas últimas.

Todo ano, ele voltava para casa com os bolsos vazios e um grande sorriso estampado no rosto, dizendo como estivera por um triz de ganhar tudo e como um dia não haveria nada que eu pedisse que ele não pudesse me dar e então ele apertava minha orelha e se assustava ao encontrar uma última moeda escondida ali.

Ugh. Esta assembleia de Bênçãos está entrando na sua quarta hora. Minhas nádegas adormeceram. Deuses, como sinto falta de casa agora.

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Data: 13 de Mokosh

Local: Composto de Iniciados

Hoje aprendemos um feitiço de crescimento. Todos os meus companheiros de casulo parecem ter encontrado "o dom" e foram capazes de conjurar sementes em plantas saudáveis. Eu apenas passei meu tempo orando aos espíritos ancestrais para que algo acontecesse, qualquer coisa, antes que o ancião voltasse de suas meditações e visse meu triste vaso de terracota cheio de nada além de terra.

"Você tentou o Cântico de Vitu-Ghazi?" Vasil me perguntou, com um franzir preocupado na testa.

Balançei a cabeça. Passei toda a manhã de ontem caçando aquela chaleira, então não tive chance de praticar. Vasil me orientou no cântico e, quando eu mesma tentei, pude ver algo se contorcendo sob a terra, mas as sementes nunca brotaram. Eu as desenterrei e as segurei na palma da mão. As sementes brancas e rechonchudas tinham murchado e ficado marrons.

"Não se preocupe", disse Caz, pressionando novas sementes no vaso. "A invocação da centelha de semente é infalível." Ele me deu um cutucão. "Eles não ensinam aos iniciados porque é tão simples que não se dariam ao trabalho de aprender os cânticos." Então Caz girou os dedos em espiral, reuniu uma esfera de magia verde pulsante em sua mão e a borrifou em seu vaso. Sua planta suculenta dobrou de tamanho.

Tentei fazer o mesmo e, quando borrifei minha terra, três brotos emergiram. Por um breve momento, fiquei em êxtase, mas então eles definharam, exatamente como as sementes haviam feito.

Quando meu casulo ficou sem ideias, algumas das pessoas do nosso ramo de apoio tentaram ajudar. Quando essas ideias falharam, recebi conselhos de um dos iniciados em nosso tronco de enriquecimento que tinha sido dispensado das lições de encantamento. Mas nada funcionou e o ancião estava para chegar a qualquer momento. Eu me perguntei se já tinha tocado em coisas mortas demais para algum dia fazer algo crescer.

Danika não desistiu de mim, porém. Trabalhou comigo nos meus cânticos, até que o ancião estivesse sobre nós e, no último segundo possível, ela trocou o seu vaso pelo meu.

"Belo trabalho", o ancião me disse, apertando as folhas para testar sua flexibilidade. "Muito bom." Então ele passou para Danika e franziu o cenho para seus brotos murchos. "O dom a encontrará eventualmente", disse ele. "Mas eu gostaria que você passasse o resto da noite em meditação corretiva."

Depois, perguntei a ela por que faria aquilo por mim. Ela disse que sabia o quanto eu queria visitar Vitu-Ghazi hoje e, se não pudéssemos ir juntas, pelo menos eu poderia ir sozinha. Não soube o que dizer. Fiquei simplesmente pasma com a generosidade e o sacrifício dela e com a bondade de todos que tentaram me ajudar.

Então fui ao Salão da Guilda sozinha e, quando parei diante dele, maravilhei-me com a enorme árvore-mundo. Vê-la pessoalmente foi agridoce. Era tão perfeita, tão serena, e a arquitetura orgânica rodopiando ao seu redor parecia mais feita de fiapos de fumaça do que de pedra. Mas eu sabia que amanhã estaria voltando para casa de mãos vazias e enfrentaria o desapontamento do meu pai. Todos esses sentimentos desapareceram quando algo zumbiu contra minha coxa. Alcancei o bolso da minha túnica. Não o tinha notado antes. Na verdade, tenho certeza de que ele não estava lá. Ao deslizar minha mão para dentro, fios de magia dissipada flutuaram. O bolso subitamente pareceu pesado e puxou minhas túnicas para um lado.

Certifiquei-me de que ninguém estava olhando, então tirei o item. Era um artefato~Selesnyano. Pulsava em minha mão e, quando o ergui em direção a Vitu-Ghazi, uma verdade chocante foi revelada. A grande árvore tinha sido restaurada após um ataque de algum senhor da magia Izzet, mas parecia que aqueles remendos eram superficiais. Sob a casca, eu conseguia ver o quão frágil a árvore-mundo era, fraturas de estresse percorrendo seus ramos, suportes ocultos mal sendo capazes de suportar o peso. Um ataque bem direcionado poderia derrubar toda a estrutura, desta vez de vez.

Este artefato valeria milhões para Orzhov. Dezenas de milhões. Talvez mais. Nossa família seria tirada do desespero e o orgulho que meu pai teria de mim brilharia tanto quanto o sol.

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Data: 14 de Mokosh

Local: Meu Quarto

Ontem à noite, corri para casa vindo direto do Conclave, ansiosa para contar ao meu pai o que descobrira. Entrei pela porta, suando e ofegante. Antes que eu pudesse abrir a boca, meu pai deu uma olhada na bagunça que eu estava e chamou os servos para me prepararem um banho com sabonetes perfumados, para buscarem algo decente para eu vestir e para me prepararem uma refeição Orzhoviana de verdade. Só então ele ouviria as notícias que eu trouxera. Ele enviou um pajem para buscar minha mãe em seu clube social. Quando ela chegou em casa, paparicou-me inteira, tirando os gravetos e talos de bagas do meu cabelo como uma mãe lobo limpando a pelagem de seu filhote.

"Senti sua falta, Miri", ela disse e, pela primeira vez, meu nome foi como uma música saindo de seus lábios. Qualquer embaraço que sentira em relação a mim desaparecera. "A casa não foi a mesma sem você. Seu pai tem sido insuportável, gabando-se para todos sobre o quão corajosa a filha dele é."

O cheiro de pontas de filé e molho subiu. Após uma semana comendo farelo e frutas secas, eu estava praticamente salivando. Isso atraiu minha atenção, mas a mão da minha mãe puxou meu queixo para que eu a encarasse.

"Eu sei que sua viagem a Selesnya foi apenas um pretexto. Você tem essa guilda no coração desde criança. Uma mãe sempre sabe. Apenas diga ao seu pai que encontrou isto." Ela me entrega um artefato — uma delicada coroa de ouro, irradiando uma suave luz branca. "Diga a ele que você a surrupiou dos salões de Vitu-Ghazi. Invente uma história maravilhosa e isso saciará seus anseios de fortuna por agora."

Quando ela disse isso, mal pude esperar por uma revelação ainda maior no jantar. Os espíritos ancestrais até se juntaram a nós, amuados sobre o delicioso banquete que sabiam que não podíamos pagar. Contei minha história e papai se agarrou a cada palavra minha. Ele riu quando mencionei o papel horrível e minha manhã gasta permutando. Minha mãe sorriu, com um ruga de orgulho no canto dos olhos. Foi então que vi quanta riqueza minha família já tinha. Não pelas moedas em nossos bolsos, mas pelo amor que tínhamos um pelo outro em nossos corações. Pensei nos amigos que fizera no Conclave também. Nas conexões profundas que fizéramos em tão pouco tempo. Conexões das quais não estou pronta para desistir.

Quando cheguei à parte sobre Vitu-Ghazi, algo inesperado saiu. Não contei a eles sobre a vulnerabilidade e que nossa família estava destinada a compartilhar uma fortuna verdadeira. Em vez disso, apresentei ao meu pai o artefato que minha mãe me dera.

"A Coroa de Convergência? Miri, isto vale milhares!" papai bradou e, enquanto me puxava para um abraço, minha mãe e eu compartilhamos um sorriso conspiratório.

Coroa de Convergência | Arte de: Jen Page

"Fiz isso por você, papai. Queria que você tivesse orgulho."

"Oh, Miri. Eu sempre tive orgulho", ele disse. "E não há fortuna neste mundo que pudesse pesar mais que o amor que tenho por você."

Esta será a última entrada no meu diário Selesnya. Não quero que meu pai algum dia esbarre nele, embora duvide que o papel dure mais que alguns meses guardado, especialmente com a maneira como minhas lágrimas estão transformando as páginas em polpa.

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Data: 29 de Mokosh

Local: Ala dos Oligarcas, Norte

Resumo dos Procedimentos de Coleta de Dízimo:

Dos 614 nomes listados no registro de dízimo:

- 551 cidadãos pagaram integralmente o dízimo obrigatório de 18% de seus salários - 65 cidadãos enviaram pagamentos parciais com promessas de dívida (Consulte o Livro-razão de Dívidas para detalhes) - 5 cidadãos optaram por açoite público e servidão por dívida - 0 cidadãos recusaram-se terminantemente a pagar

Total de Dízimos Semanais:

- 68.417 zinos em moedas cunhadas - 3.670 zinos em promessas de dívida - 2.852 zinos em propriedades confiscadas (Veja as avaliações estimadas nas notas abaixo)

Item de Propriedade 1: Qtd 3 – Runas, encantadas. Avaliado em 67 zinos#linebreak() Item de Propriedade 2: Qtd 1 – Sinete, muito contaminado. Avaliado em 75 zinos#linebreak() Item de Propriedade 3: Qtd 12 – Galão de guano de morcego. Avaliado em 205 zinos#linebreak() ~

Estou de volta ao trabalho e as coisas estão melhores agora. Felizmente, perdi o pior da revolta e a calma voltou às ruas agora que o Sindicato concordou com um dízimo muito razoável de dezoito por cento. Não tive que lavar sangue da minha armadura em mais de um mês.

O aniversário do papai foi na semana passada. Como esperado, ele trouxe para casa uma pequena fortuna em colares de moedas, mas disse que o melhor presente foi o que eu lhe dei.

"É uma árvore de dinheiro encantada", eu disse enquanto lhe apresentava o vaso de terracota. Ele olhou para a muda e franziu o cenho. Estava prestes a gritar algo sobre não permitir nada verde dentro de nossa casa, mas então eu alcancei a terra e retirei uma moeda de ouro.

Os olhos dele brilharam.

"Eu a desviei de propriedades confiscadas ontem", eu disse. "Ela produz uma moeda toda noite."

Desde então, meu pai tem cuidado fielmente daquela árvore — regando-a, certificando-se de que ela receba sol suficiente e até conversando com ela quando acha que ninguém está ouvindo. E toda noite, depois que meu pai adormeceu e antes de eu sair de fininho para trabalhar secretamente com magia da carne até as altas horas da manhã, coloco uma moeda de ouro na terra para ele encontrar.

Ter aquele pouquinho de verde em nossa casa me enche de serenidade e de esperança. No momento, é apenas uma muda que ele permitiu em nossas vidas, mas logo ela estará pronta para espalhar suas raízes além do vaso e, eventualmente, eu também.

21 de Agosto de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 11

Nivix nunca ficava verdadeiramente silenciosa. Mesmo na calada da noite, sempre havia algum inventor que não conseguia dormir rabiscando novos designs em uma mesa de desenho, algum quimista trabalhando ininterruptamente para cumprir um prazo de financiamento. Mas normalmente, o edifício ao menos desacelerava após a meia-noite, os corredores esvaziando-se exceto pelos guardas porta-brasas e autômatos vigilantes. Até loucos precisavam de descanso, eventualmente.

Mas não esta noite, nem em nenhuma das noites na semana desde o desastre na cúpula das guildas. Enormes bancos de luzes transformavam a escuridão em luz do dia, enquanto geradores de mizzium nas entranhas do edifício zumbiam e disparavam faíscas. Cada mesa estava cheia, cada laboratório, cada câmara de testes, o ar impregnado com o cheiro de tinta, vapores e metal quente. Quando trabalhadores colapsavam, eram arrastados para alojamentos improvisados nos corredores, deitados sobre cobertores e recebiam algumas horas de descanso antes de serem reanimados com café e enviados de volta ao trabalho.

E, talvez de forma única na história da guilda, todo esse esforço estava voltado para um único objetivo. Comitês haviam cessado as reuniões. Disputas burocráticas entre os diferentes laboratórios haviam sido suspensas. Mil gênios briguentos tiveram suas cabeças batidas umas contra as outras até que estivessem todos apontando, ao menos aproximadamente, na mesma direção. A ordem viera do topo — do primeiríssimo topo — de que todos os recursos que os Izzet possuíam estavam à disposição de Ral Zarek, e qualquer um que entrasse em seu caminho teria que se ver com a Mente de Fogo.

Ral não saíra de seu escritório desde seu retorno de Nova Prahv. Refeições eram trazidas, trocas de roupa, novos rolos de papel de desenho e os resultados de cem outros escritórios para compilação e combinação. Ele há muito perdera a noção do tempo, ou mesmo do dia. Trabalhava até não conseguir mais manter os olhos abertos, então encostava a cabeça na mesa e dormia até ser acordado pela próxima entrega ou desastre.

Enquanto dormia, ele sonhava.

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Ral lembrou-se de ser despedaçado em fragmentos tão pequenos a ponto de serem invisíveis, fluindo por um mar de energias estranhas e espaço retorcido, e remontado bit por bit agonizante.

Ele abriu os olhos e encontrou-se de bruços sobre uma grade de esgoto.

Tinha um design estranho de latão, diferente do ferro forjado de Tovrna, e as paredes ao seu redor eram de tijolos marrons queimados pelo sol, em vez de pedra cinza. A chuva caía, batendo em suas costas, e um fluxo de água corria por ele e descia para os esgotos. Ral conseguia ver um rastro carmesim nela e sentiu uma dor aguda em seu flanco.

É isso mesmo. Ele colocou a mão no ferimento, sentiu o sangue pulsar úmido contra sua palma. Aquele menino me esfaqueou. E eu cheguei em casa . . . e o Elias . . .

Um trovão ribombou acima e o céu tremeluziu.

"Bem", disse uma voz com um sotaque estranho. "Você está vestido muito bem para estar deitado em uma sarjeta."

"Alguém está tendo uma noite ruim", disse uma segunda voz.

"Ruim para ele", corrigiu a primeira voz. "Boa para nós."

Ral sentou-se, com esforço. Havia dois homens encostados nas paredes do beco, observando-o com expressões divertidas e sem pressa. Suas roupas eram estranhas, camisas e calças largas e fluidas, mas ele reconheceu o comportamento deles imediatamente. Rufiões eram rufiões, não importa para onde você viajasse.

E para onde eu viajei? Alguma magia o levara, isso era certo. Ele limpou a garganta. "Que distrito é este?"

"Distrito?" disse o segundo homem. Ele era o mais baixo dos dois. "Você deve ser de muito longe daqui."

"Achei que fosse um mercador", disse o homem mais alto. "De algum lugar onde se vestem assim sem ninguém rir deles, imagino."

Ral arrastou-se até ficar de joelhos, o cabelo achatado contra o crânio pela chuva torrencial. Ele forçou as palavras entre dentes cerrados.

"Onde. Estou. Eu?"

O homem mais alto caminhou para frente. "Onde você está, amigo, é no fundo do poço. Bem, foi bom conversar com você, mas você deve ter notado que está caindo um toró aqui fora, e eu, por exemplo, gostaria de ir para algum lugar quente e seco e cheio de bebidas. Então. Entregue o que estiver nos seus bolsos, depois tire essas coisas bonitas e nós o deixaremos tão saudável quanto o encontramos."

A mão dele foi ao bolso e saiu com uma faca. Seu parceiro sacou uma também, as lâminas de aço brilhando enquanto relâmpagos rastejavam pelo céu acima.

Ral respirou fundo.

"Não", disse ele.

"Isso me parece um erro", disse o primeiro homem. "Então vou te dar mais uma chance de pensar bem—"

CABUM. Clarão e trovão foram simultâneos, o relâmpago serpenteando pelos telhados para atingir o solo na água que corria pelo beco. Ral sentiu o calor lavando-o, o poder percorrendo-o, como fogo em seu sangue. Seu cabelo ficou frisado e em pé e, quando ele sorriu, faíscas saltaram entre seus dentes. Acima dele, a chuva começou a se desviar em arcos suaves, deixando um círculo seco onde ele estava.

Momentos depois, Ral deixou o beco, mais rico em duas facas retorcidas e ligeiramente derretidas, algumas bolsas cheias de cobre e dois pares de botas ainda fumegantes.

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Algo estava sempre explodindo.

Novamente, um estado nada incomum para Nivix. Mas as explosões eram geralmente um pouco menos frequentes e acompanhadas de um pouco mais de fanfarra. A maioria dos goblins acreditava que o melhor momento para fazer um teste de campo era na grande inauguração, para que, se o que quer que estivesse sendo construído explodisse, ao menos todos estivessem lá para ver.

Agora os estrondos sacudiam a vasta estrutura, dia e noite. Hidromantes apagavam os incêndios e trabalhadores desciam ao laboratório atingido, retirando os corpos e martelando o metal de volta à forma antes mesmo de ter parado de fumegar. O perigo era irrelevante — não que algum dia tivesse sido tão relevante assim — e o custo não importava. O trabalho prosseguia, conforme as linhas esboçadas pelo lápis frenético de Ral tomavam forma em arcos de mizzium e aço, e quimistas com rostos enegrecidos pela fuligem subiam as escadas às pressas para relatar sucesso ou fracasso.

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PRECISA-SE DE APRENDIZ

Ral encarou a placa por um longo tempo e suspirou. Mas o lucro de algumas facas e pares de botas só durava até certo ponto e seu estômago estava roncando. A oficina do funileiro era de dois andares de tijolos esfarelados, com uma engenhoca estranha de vidro e aço emergindo do telhado. Um relâmpago girava dentro de um globo no topo, mas apenas fracamente, e um trem de engrenagens descendo da máquina movia-se apenas aos trancos e barrancos.

Um velho, usando óculos de proteção com uma lente seriamente rachada, abriu a porta com força quando Ral bateu.

"SIM?" ele gritou, depois moveu a mandíbula e girou um dedo no ouvido. "O quê?"

"Estou aqui por causa do aprendizado", disse Ral.

"Você não está um pouco velho para ser aprendiz?" disse o velho, olhando-o de cima a baixo.

"Quero aprender sobre máquinas", disse Ral.

Máquinas estavam por toda parte nesta cidade estranha, zumbindo pelo ar e rolando pelas ruas. Tantas delas eram movidas por relâmpagos domesticados que seu poder latejava em simpatia por onde quer que ele fosse. Ele estivera observando-as, fascinado, desde que chegara.

"Você e metade da cidade", disse o velho. "Pode pagar a taxa de aprendiz?"

"Não", admitiu Ral. "Mas posso trabalhar."

"Posso contratar um garoto para limpar minha caldeira e lavar minhas cuecas por uma ninharia. O que mais você pode fazer por mim?"

Ral ergueu a mão e concentrou-se. O poder crepitou nas pontas de seus dedos, depois disparou para cima, em direção ao grande globo. O relâmpago lá dentro brilhou intensamente, seu brilho fraco fortalecendo-se até ficar tão brilhante quanto o sol. A corrente de engrenagens que descia para a oficina começou a girar, virando cada vez mais rápido, fumaça subindo de seus rolamentos. Atrás do velho, um guincho metálico subiu para um grito e então algo quebrou com um estrondo tremendo.

O velho olhou por cima do ombro, depois de volta para Ral. Ele sorriu.

"Você está contratado", disse ele. "O que você quer aprender?"

"Tudo o que você tiver para me ensinar", disse Ral, passando a mão pelo cabelo com um estalido.

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"Oláaaaaaa?" disse Hekara, em um sussurro teatral. Ela abriu a porta do escritório de Ral.

Ral olhou para ela, com os olhos turvos. "O quê?"

"Só achei que você precisasse de um pouco de, sabe, animação." Ela abriu os braços. "É para isso que servem os parceiros, né? Legal!"

"Não tenho tempo", disse Ral. "Nenhum de nós tem tempo."

"Aaaah, sempre tem tempo para um pouco de diversão, né?" Hekara girou alegremente pela sala. Sua mão solta atingiu um pote de lápis no canto da mesa de Ral, que tombou, enviando-os rolando pelo chão. "Ops."

"Hekara", começou Ral, com a voz subindo. Hekara encolheu-se, parecendo tão arrependida que ele parou e soltou o ar. "Apenas pegue-os. E . . . sente-se no canto e fique bem quietinha. Consegue fazer isso?"

"Ooh, tipo esconde-esconde! Sou terrível nisso. Não como minha parceira Brevia, ela é a melhor. Brincamos no porão dos Chicotes Flamejantes e levei três semanas para achar o lugar onde ela tinha se escondido sob as tábuas do chão!" Hekara torceu o nariz. "Claro que ela já estava um pouco cheirenta a essa altura."

Ral recostou-se na cadeira com um suspiro e fechou os olhos.

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Harith era diferente de Elias em quase todos os sentidos — alto e de ombros largos em vez de esguio como um salgueiro, com músculos de trabalhador braçal e mãos ásperas e calejadas em vez dos dedos ágeis de um poeta. Talvez, pensou Ral, fosse por isso que se sentira atraído por ele imediatamente, após três copos em uma noite ruim em uma taverna barata. Ou talvez ele fosse apenas a primeira pessoa em muito tempo que parecia interessada em conversar com Ral em vez de explorá-lo.

O quarto era de Harith, muito maior que a ratoeira que Ral alugava com o estipêndio pífio que Ghazz, o velho funileiro, dispunha-se a pagar-lhe. Ficava no último andar de um edifício de tijolos vermelhos, com vista para um beco vizinho, entrelaçado com varais de roupas e lavanderia pendurada. Harith mantinha as janelas abertas para a brisa quente e seca; isso significava que qualquer um no beco provavelmente poderia ouvir o que eles estavam aprontando, mas Ral descobriu que não se importava muito.

Harith estava junto à janela, olhando para baixo, vestindo apenas um roupão sem mangas. Ral rolou de lado para admirá-lo, os planos firmes de seu corpo, a massa cerrada de cachos laranja-avermelhados que pareciam perfeitos quando ele enrolava os dedos neles. Sentindo o olhar, Harith olhou por cima do ombro e deu um sorriso enviesado.

"Achei que você ia dormir até o meio-dia", disse ele. "Ressaca?"

"Surpreendentemente, não", disse Ral, jogando-se de costas. Seu próprio cabelo pendia lank e desgrenhado de suor. "Só preguiça."

"E o velho Ghazz? Ele não vai ficar bravo por você estar atrasado?"

Houve uma longa pausa. Ral encarou o teto por um momento, os olhos traçando as rachaduras em forma de teia de aranha no gesso, tentando manter seu coração acelerado sob controle.

"Eu não te disse para quem eu estava trabalhando", disse ele, baixinho.

Harith praguejou entre dentes. Quando se virou da janela, seu sorriso era largo e tão falso quanto um zino de estanho.

"Devo ter ouvido em algum lugar", disse ele.

"E é por isso que você falou comigo", disse Ral, ainda sem se mover. "Você precisa de algo."

"Não é nada disso—"

"Apenas admita." Ral soltou um suspiro profundo e sentou-se, passando a mão pelo cabelo. O relâmpago crepitou, restaurando seu frizz. "O que você esperava conseguir de mim?"

Harith olhou para ele, todo cálculo frio, sem desejo nenhum restando em seus olhos. "A combinação do cofre. Ghazz tem alguns brinquedos pelos quais pessoas que eu conheço pagariam bem."

"E eu deveria entregar isso em troca de uma transa e um sorriso bonito."

"Ral . . ."

"Trinta por cento."

Harith piscou. "O quê?"

"Essa é a minha parte. Trinta por cento."

"Dez", disparou Harith. "Sou eu quem está correndo todo o risco."

"Vinte e cinco", disse Ral. "Ghazz saberá que fui eu e não conseguirei outro aprendizado. Além disso, você deveria ter sido honesto comigo desde o início."

Harith parecia ter chupado um limão, mas assentiu. "Vinte e cinco." Ele hesitou. "Você não está preocupado em ter que deixar o Ghazz?"

Ral forçou seus traços em um sorriso cuidadosamente planejado. "Não tenho mais nada a aprender com ele."

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A caminhada até o Ninho parecia especialmente longa quando você tinha que fazê-la no meio da noite, em resposta à convocação peremptória da Mente de Fogo. Ral esfregou os olhos, sentindo olheiras profundas por falta de sono, e rangeu os dentes. Em seu rastro, uma dúzia de goblins carregava longos rolos de papel sob os braços, apressando-se para acompanhar seu passo determinado.

Quando chegaram às grandes portas que levavam ao santuário de Niv-Mizzet, Ral gesticulou para seus assistentes pararem.

"Eu chamo quando precisar de vocês", murmurou ele.

"E . . . e se a Mente de Fogo devorar o senhor?" uma mulher goblin de olhos arregalados gaguejou.

"Então eu grito", disse Ral, "e você pode tirar o resto do dia de folga."

Ele empurrou as portas. Niv-Mizzet estava sentado sobre as ancas em frente à grande janela, entre os detritos arcanos e maquinário de seu Ninho, vários livros pairando no ar à sua frente. Eles marcaram as páginas e empilharam-se cuidadosamente sobre uma mesa conforme o longo pescoço do dragão girava para encarar Ral, com as barbatanas abrindo-se.

"Ral Zarek", disse Niv, sua voz ao mesmo tempo clara na mente de Ral e um estrondo sinistro na garganta do dragão. "Estive esperando pelo seu relatório."

"Minhas desculpas, Mestre da Guilda", disse Ral, curvando-se. "A situação tem estado . . . confusa."

"Imaginei", disse Niv. "Não é todo dia que o juiz supremo dos Azorius é assassinado sob nossos narizes." Sua cabeça serpenteou para mais perto, a respiração um vento quente no rosto de Ral. "Mas exijo respostas, não desculpas."

"Claro", disse Ral. "Nossos representantes visitaram cada guilda desde o . . . incidente na cúpula, com algum sucesso. Com a morte de Isperia, Dovin Baan assumiu a liderança dos Azorius e entendo que sua posição como juiz supremo apenas aguarda confirmação pelo Senado. Ele tem sido muito solícito e permanece convencido de que a cooperação é a melhor maneira de enfrentar a ameaça de Bolas. Aurélia da Legião Boros também enviou seu firme compromisso de continuar as negociações. Kaya dos Orzhov e Lazav dos Dimir expressaram sentimentos semelhantes." Ral tentou não deixar sua expressão mudar neste último. Ainda não confio em Lazav. "E Hekara comunicou-se com o próprio Rakdos e me garante que o demônio permanece disposto a nos ajudar."

"Seis guildas", ribombou Niv pensativo. "E o resto?"

Ral respirou fundo. "Os Simic retiraram-se para seus zonots e ergueram suas defesas, recusando todas as comunicações. Emmara dos Selesnya diz que com Trostani ainda . . . em desacordo, as forças que aconselham cautela ganharam vantagem. Ela oferece neutralidade, mas nada mais."

Os olhos imensos de Niv cravaram-se nele. Ral sentiu o suor brotar em sua testa.

"Os Gruul parecem ter sofrido algum tipo de disputa de liderança após a cúpula", continuou ele. "Borborigmo caiu e ainda não sabemos quem tomou seu lugar. Mas os clãs parecem agitados e as incursões nas fronteiras dos cinturões de escombros aumentaram. Aurélia prometeu aumentar as patrulhas e reforçar suas defesas."

"E a Vraska?" disse Niv suavemente.

"Ninguém vê a Vraska desde a noite da cúpula", disse Ral. "Mas relatos da subcidade dizem que o Enxame Golgari está se mobilizando para a guerra."

"Precisamos de todas as dez guildas para emendar o Pacto das Guildas", disse Niv. "Incluindo nós mesmos, então, temos seis, com duas neutras e duas ativamente hostis à nossa causa."

"Sim, Mestre da Guilda", disse Ral, inclinando a cabeça.

"Em outras palavras", disse Niv, sua voz subindo para um ribombar perigoso, "você falhou."

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Havia uma tábua solta, bem ao lado da cama onde Ral e Harith tinham passado tantas noites que — Ral tinha que admitir — tinham sido ao menos divertidas. Ral pousou a bolsa que continha suas poucas posses e alavancou a prancha com uma adaga. No espaço entre o último andar e o de baixo havia um saco de lona, que tilintou pesadamente conforme Ral o extraía. Estava metade cheio dos estranhos tokens de prata em forma de haste que passavam por moedas ali, o salário de meses de roubo, sabotagem e violência ocasional.

Havia também o caderno preto. Ral observara Harith rabiscar nele quando achava que ninguém estava olhando. Ele finalmente conseguira dar uma olhada na semana anterior, após deixar seu amante completamente bêbado com vinho fortificado. O livro continha as listas de contatos de Harith, seus alvos potenciais, rotas de entrada e saída. Segredos e quem poderia ser mais vulnerável ao seu uso. Um tesouro para outra ocasião. Ral enfiou o livro sob o braço, guardou o dinheiro em sua bolsa e recolocou a tábua no chão.

Ele saiu furtivamente do prédio o mais silenciosamente possível. Harith estava fora em um trabalho esta noite e Ral fingira estar doente. Com sorte—

"Sabe", disse Harith, "eu não queria acreditar."

Ral parou no patamar que levava às escadas. Harith esperava um lance abaixo. Dois rufiões corpulentos em couros de rua davam-lhe apoio, um homem grande e pesadamente tatuado com um porrete e um minotauro magro com punhos enormes e cheios de cicatrizes.

"Achei que tivéssemos um acordo muito bom", disse Harith. "Você tinha seus vinte e cinco por cento, não tinha? Tinha proteção, um lugar para dormir, alguém para dormir com você." Ele deu um passo à frente. "Isso não era o suficiente para você?"

"É hora de eu seguir em frente", disse Ral, descendo as escadas. "E ambos sabemos que você não poderia me deixar fazer isso. Não com o que eu vi."

"Por que seguir em frente?" Harith fixou-o com um olhar que era metade fúria, metade desespero.

Ele realmente se importa, Ral percebeu. Ele forçou outro sorriso e deu de ombros. O tolo.

Harith franziu a testa e fez um sinal com a cabeça e os dois rufiões avançaram. Ral estendeu as mãos, como se pedisse para esperarem. Em sua mochila, a coisa que ele passara o último mês construindo, uma confusão improvisada de fios e placas de aço, zumbiu aos solavancos ao ganhar vida. O poder percorreu-o, o tipo de energia que ele normalmente só conseguiria ao ficar sob uma tempestade. Ele sorriu para os capangas contratados por Harith ao fechar as mãos em punhos e faíscas brancas rastejaram por seus dedos.

"Não tenho mais nada a aprender aqui", disse ele.

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"Ainda não", disse Ral.

Ele não era especialista em ler expressões dracônicas — quem era? — mas tinha quase certeza de que Niv-Mizzet estava surpreso. A longa língua do dragão chicoteou para fora e seus lábios retraíram-se para mostrar dentes do tamanho de espadas.

"Explique", ribombou Niv.

"Tragam", gritou Ral em direção às portas.

Seus assistentes goblins entraram correndo, quase congelados de terror óbvio diante do dragão. Sob o olhar impassível de Niv, eles depositaram seus papéis enrolados aos pés de Ral e ele gesticulou para que estendessem as folhas no chão. Após certa confusão e discussão — goblins eram goblins, mesmo sob os olhos da Mente de Fogo — eles montaram as folhas na ordem correta.

O que tomou forma foi um enorme mapa do Décimo Distrito, detalhado o suficiente para mostrar cada beco. Desenhado sobre a planta das ruas havia uma complexa rede de linhas coloridas, grossas e interconectadas em algumas áreas, esparsas em outras. A forma básica era familiar, é claro; o Labirinto Implícito, a disputa que Beleren de alguma forma conseguira vencer e tornar-se o Pacto das Guildas Vivo, apenas para abandonar essa responsabilidade quando Ravnica precisou dele. Este mapa, porém, era muito mais detalhado e montá-lo consumira grande parte da atenção de Ral na última semana.

"A rede de energia", disse Niv. Ele não parecia impressionado.

"De fato", disse Ral. "Que é, como aprendemos, a estrutura subjacente do próprio Pacto das Guildas. Ela está disposta na cidade, ao nosso redor, nós e linhas vinculados para criar o poder que nos une a todos."

"Tudo isso me é bem conhecido", disse Niv. "Eu vi Azor lançar os fundamentos."

Ral assentiu. "Azor estipulou que todas as dez guildas estivessem em acordo para mudar o Pacto das Guildas", disse ele. "Mas essa regra é parte do próprio Pacto das Guildas, o que significa que está incorporada nestas linhas de poder, como todo o resto. Se não pudermos cumprir as condições do Pacto das Guildas, então devemos simplesmente burlá-las."

"Burlá-las?" disse Niv. "Você acha que você pode adulterar a obra de Azor?"

"Apenas superficialmente", disse Ral. Ele passou a mão pelo cabelo, subindo faíscas, e caminhou sobre o vasto mapa. "Podemos construir linhas artificiais de energia para alterar o design. A maior parte da tecnologia já está pronta — condensadores de energia, uma câmara de ressonância, baterias de bobina de mizzium. Só precisa durar por um momento. Uma máquina que abrangerá o Décimo Distrito. A maior criação que os Izzet já tentaram."

"E esta . . . coisa", disse Niv. Ele soava cético. "Ela permitirá que você altere o Pacto das Guildas, possibilite minha ascensão, sem o consentimento de todas as guildas?"

"Sim", disse Ral, com consideravelmente mais confiança do que sentia. "Há apenas algumas dificuldades triviais a superar."

"Como quais?" ribombou o dragão.

Ral olhou para o mapa. "Há um número limitado de configurações eficazes de nós", disse ele. "As estações ressonadoras devem ser posicionadas com muita precisão através do distrito. Encontrar um arranjo que evite o território de Simic, Selesnya, Gruul e Golgari tem sido . . . impraticável."

"Hmm", disse Niv, com a cabeça serpenteando para frente. "Estas marcações vermelhas são o seu plano atual?"

"Sim", disse Ral. "Simic e Selesnya podem cair em si, mas não podemos contar com isso. Não a tempo. Este arranjo requer apenas nós em território Gruul e Golgari, aqui e aqui." Ele apontou.

"Os Gruul e os Golgari não permitirão simplesmente que usemos esses nós", disse Niv.

"Eles não permitirão", disse Ral, e empertigou-se. "Então teremos que tomá-los à força."

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

Uma sala de conferência em Nivix, mais comumente ocupada por meia dúzia de quimistas tramando alguma travessura mortal, fora apressadamente apropriada para um conselho de guerra.

Ral sentava-se à cabeceira de uma longa mesa de pedra, marcada e descolorida por décadas de experimentos. À sua direita, a anjo Aurélia permanecia de pé com os braços cruzados, observando os outros com olhos brancos e brilhantes. Sua segunda no comando, a minotauro Comandante Ferzhin, sentava-se em uma cadeira volumosa e ostentava uma expressão de suspeita descarada.

Oposto ao contingente Boros estavam os representantes Azorius. O vedalken Planeswalker Dovin Baan, agora líder daquela guilda, olhava de volta para Aurélia com igual imperturbabilidade. Ao seu lado estava uma jovem em armadura prateada que ele apresentara como a Capitã Hussarda Vell, que se mantinha tão dolorosamente ereta que as costas de Ral doíam em simpatia.

Finalmente, na outra extremidade da mesa, Kaya relaxava em sua cadeira, com um largo sorriso no rosto. Um sacerdote de rosto severo em túnicas pretas sentava-se ao seu lado, encarando-a como se quisesse começar a dar sermão, mas ela não parecia inclinada a dar atenção a ele.

Ral olhou para a porta uma última vez, suspirou e colocou as mãos sobre a mesa. "É melhor começarmos."

"Nossa companhia não está completa", disse Aurélia. "Assumi que o restante de nossos aliados estaria se juntando a nós."

"Pouca perda", murmurou Ferzhin.

"Lazav já enviou notícias de que seus agentes estarão disponíveis para ajudar a coletar inteligência, mas combate direto não é a especialidade deles", disse Ral. "Quanto aos Rakdos . . ." Onde está a Hekara, afinal? Normalmente era impossível impedi-la de se meter em tudo. "Não acho que eles farão falta em uma sessão de planejamento. Nós os veremos quando a luta começar, imagino."

"E você tem certeza de que não há outra maneira?" disse Dovin.

"Não no tempo que nos resta", disse Ral. "A Mente de Fogo ordenou que todos os recursos Izzet fossem comprometidos com este projeto. Nós teremos os ressonadores montados e prontos. Para os nós que controlamos, é uma simples questão de instalá-los e vinculá-los ao nó mestre aqui em Nivix. Mas precisamos de mais dois." Ele empurrou um mapa do Décimo Distrito, anotado a lápis, pela mesa. "Aqui e aqui. E parece improvável que consigamos tomá-los pacificamente."

"Certamente não este", disse Ferzhin, batendo no mapa com um dedo com garra. "Essa parte do cinturão de escombros já mudou de mãos uma dúzia de vezes nos últimos dois anos."

"E o outro é na Subcidade", disse Dovin, calmamente. "O que significa que a Vraska estará em uma excelente posição para tentar nos impedir."

Ral assentiu. "Felizmente, unidos, devemos ter a força para tomar ambos os nós. E com sorte, nossos inimigos não perceberão a importância deles." Ele olhou ao redor da mesa. "Não deveria ser necessário dizer que a natureza do nosso objetivo não deve deixar esta sala."

"Os Gruul lutarão, porque essa é a natureza deles", disse Aurélia. "No entanto, se os derrotarmos no encontro inicial, é improvável que contra-ataquem. Em vez disso, procurarão alvos mais fracos para saquear."

"Há várias guarnições em uma marcha fácil deste nó", disse Ferzhin. "E conduzimos operações contra os Gruul regularmente. Devemos ser capazes de mobilizar uma força considerável sem levantar suspeitas."

"Bom", disse Ral. "Gostaria de sugerir que os Boros forneçam a maior parte de nossas forças na superfície, então, com Izzet e Azorius fornecendo algumas unidades de elite para auxiliar. Eu mesmo me juntarei a vocês, é claro."

"Isso deve ser o suficiente para fazer os selvagens saírem correndo", disse Ferzhin, sorrindo com a perspectiva.

"Não subestime os Gruul", disse Aurélia. "Eles são mais astutos do que parecem."

"Não vamos subestimar", prometeu Ral. "Quanto à operação na Subcidade, é onde vocês entram." Ele olhou pela mesa para Kaya. "Eu esperava que pudéssemos contar com o apoio Orzhov lá embaixo."

"Hmm?" Kaya piscou, parecendo distraída. "Claro. O que você precisar."

"Mestre da Guilda", disse o sacerdote, "talvez um compromisso mais limitado—"

"O que você precisar", disse Kaya firmemente. "E eu estarei lá."

"Mestre da Guilda, por favor", disse o sacerdote. "Sua segurança é primordial."

"Devo ao Ral por sua ajuda", disse Kaya. "E eu pago minhas dívidas."

"Bom", disse Ral. "Vou pedir ajuda dos Rakdos lá também. E é mais provável que a Vraska tente algo inteligente depois que tomarmos o nó, então precisaremos fortificar nossa posição."

"Nosso pessoal pode cuidar disso", disse Dovin. "Com ajuda de nossos amigos Boros, é claro." A minotauro eriçou-se, mas Aurélia apenas assentiu.

"Tudo bem." Ral respirou fundo. "Sei que o que aconteceu com a Isperia foi um . . . choque. Mas sempre soubemos que Bolas tinha aliados aqui e agora eles se revelaram. Tudo o que resta é esmagá-los." Ele olhou ao redor da mesa. "Obrigado pelo seu compromisso com Ravnica."

"Certamente", disse Dovin, após um momento de silêncio. "Que outro curso poderíamos tomar, afinal?"

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#linebreak Está feito. Nivix ainda era um formigueiro de atividade, mas nada disso exigia a intervenção de Ral. A grande máquina estava sob construção em dúzias de laboratórios e oficinas, peças sendo forjadas e soldadas que, quando finalmente montadas, criariam forças que costurariam o Décimo Distrito em uma única e vasta obra de magia. A obra do próprio Azor, ajustada e modificada pelo gênio combinado de centenas dos melhores dos Izzet. Ral sentia um orgulho feroz de sua guilda, seu lar adotivo. Nós conseguiremos. #linebreak O pensamento de sua cama era subitamente inacreditavelmente atraente. Ral levantou-se de sua mesa com um gemido conforme seu corpo dolorido reclamava, alongou-se e cambaleou em direção à porta. Os planos para o ataque ao território Gruul estavam bem encaminhados, com Aurélia cuidando dos detalhes táticos. Ral seria o primeiro a admitir que não era nenhum especialista militar, então estava feliz em deixar esses assuntos para a anjo e seus subordinados. Então não há problema em eu dormir um pouco. #linebreak No corredor do lado de fora de seu escritório, porém, uma figura magra estava sentada de pernas cruzadas contra a parede. Ral olhou para baixo para ela e suspirou.

"Hekara." Ela não se moveu e ele a cutucou com a bota. "Hekara."

"Eu não fiz nada!" disse Hekara, acordando de sobressalto.

"Ninguém disse que você fez", disse Ral.

"Desculpe." Ela bocejou e limpou os olhos. "Estava esperando você terminar."

Ral estendeu a mão e ela a pegou e se levantou. Sua estrutura magra parecia não pesar quase nada. Ela deu-lhe um sorriso, como sempre, mas havia uma tensão nas bordas que parecia estranha.

"Você perdeu a reunião de estratégia", disse Ral.

"Eu teria morrido de tédio", disse Hekara. "O Pisador-Mor diz para apenas nos avisar quando quiserem nossa ajuda. Contra os Gruul, ou . . ."

Ela parou e ficou em silêncio.

"Hekara", disse Ral. "O que foi?"

"Eu só . . ." começou ela, depois balançou a cabeça. "Não tem um jeito de resolvermos as coisas com a Vraska?"

"A Vraska está trabalhando para o Bolas", disse Ral. "Ela nos traiu a todos na cúpula das guildas. Ela matou a juíza suprema dos Azorius."

"Eu sei", disse Hekara miseravelmente. "Sei de tudo isso. Mas ela é nossa parceira, Ral. Lutamos com ela. Você não vai contra seus parceiros, nunca. É apenas . . . o jeito que as coisas são."

"Eu entendo." Ral colocou a mão no ombro dela e baixou a voz. "Eu . . . achei que pudesse confiar nela."

Uma coisa rara. O antigo Ral, o Ral de seus sonhos, decidira nunca confiar em ninguém. Com a ajuda de Tomik e alguns outros — até mesmo a Hekara, por estranho que pareça — ele pensara que isso estava começando a mudar. Mas agora . . .

"Ela não nos deu escolha", disse Ral. "O Bolas está vindo e, se vamos detê-lo, precisamos desses nós. Se a Vraska tentar nos impedir, isso a torna inimiga de toda Ravnica."

"É. Mas . . ." Hekara balançou a cabeça. "Deixa para lá."

Ela virou-se, desanimada, e afastou-se. Ral olhou para ela por um momento, depois suspirou novamente e dirigiu-se para as escadas.

28 de Agosto de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 12

"E quanto a gigantes?" disse Kaya, animada. "A dupla deles no porão certamente me deu um bom treino. Podemos reunir alguns desses?"

"Tenho certeza de que isso pode ser providenciado", disse o Cavaleiro do Desespero, uma figura de faces encovadas em armadura escura.

"Mestre da Guilda", disse Teysa, com sua paciência se esgotando, "você poderia, por favor, me ouvir por um momento?"

"Estou ouvindo", disse Kaya. "Eu apenas discordo."

"Você não pode se expor a riscos desnecessários", disse Teysa.

"Posso", disse Kaya, bocejando. "E eles não são desnecessários. E quanto a gárgulas? Embora essas possam não ser muito boas no subsolo—"

"Poderia falar com você a sós?" siseou Teysa.

Kaya olhou para o Cavaleiro do Desespero e sua comitiva, depois deu de ombros. "Esperarei um relatório sobre a força de campo que você montar."

"Muito bem, Mestre da Guilda", disse o cavaleiro. Ele saiu da sala com um estrépito de armadura pesada, soldados e sacerdotes arrastando-se atrás dele.

Kaya ficou a sós com Teysa, nesta pequena câmara de conferência no alto de Orzhova. Como tudo mais na grande catedral, era luxuosamente mobiliada, com retratos em molduras douradas de banqueiros do passado encarando das paredes e um pesado tapete roxo suavizando o chão de pedra. A mesa intrincadamente marchetada era polida até um brilho de espelho. Kaya não pôde deixar de se perguntar quantos dos vínculos de dívida que pesavam sobre sua alma haviam sido forjados aqui, nesta sala, vidas arruinadas pelo traço da caneta de algum burocrata.

"Precisamos ter uma discussão", disse Teysa rigidamente. "Você sabe—"

"What is there to discuss?" disse Kaya, encarando a outra mulher desafiadoramente. "Você me fez mestre da guilda, então minha decisão é final."

"Eu te fiz mestre da guilda porque era a única maneira de salvar sua vida", disse Teysa. "Os outros estavam prontos para te matar antes de você acordar e assumir o risco de que as dívidas pessoais do Vovô seriam transferidas para quem cortasse sua garganta. Eu os convenci de que este caminho era mais seguro." Ela esfregou os olhos com a palma das mãos, como se estivesse começando a se arrepender daquela decisão, e Kaya suavizou um pouco.

"Eu entendo", disse ela. "De verdade. E sou grata. Sei que você não precisava botar seu pescoço em risco por mim."

"Você me ajudou quando eu precisei", disse Teysa. "Não posso esquecer isso."

"Eu estava sendo paga", disse Kaya. Ou assim eu pensava. Bolas, a cobra viscosa, soubera que seguir suas instruções a deixaria presa aqui.

"E eu preciso pensar no que é melhor para a guilda", disse Teysa. "Se você se deixar matar lutando contra Vraska ou qualquer outra pessoa, isso pode ser catastrófico para os Orzhov."

"Eu entendo isso", disse Kaya. "Mas sou muito boa em não me deixar matar, sabe."

"Posso imaginar", disse Teysa, com um leve sorriso. "Mas como eu disse. É um risco desnecessário."

"É um risco necessário", disse Kaya. "Devo isso ao Ral."

"As forças Orzhov vão apoiá-lo—"

"Eu devo a ele. Não os Orzhov. Então eu tenho que estar lá. Entende?"

Teysa encarou Kaya por um longo momento, então balançou a cabeça.

"Não", disse ela. "Mas vejo que não vou mudar sua mente."

Kaya sorriu. "Justo. Prometo que serei cuidadosa."

"É bom ser mesmo", disse Teysa. Ela olhou para os relatórios de força, pergaminhos espalhados como sementes pela vasta mesa, e suspirou.

"Precisa da minha ajuda com esses?" perguntou Kaya.

"Não." Teysa acenou com a mão. "Vá descansar um pouco. Garantirei que Ral tenha as tropas de que precisa."

Kaya abafou um gemido de alívio, deu um aceno para Teysa e saiu da câmara de conferência, atravessando a porta em uma lavagem de luz roxa. Não era estritamente necessário, claro, mas ela gostava de caminhar através de paredes de vez em quando, apenas para provar a si mesma que ainda conseguia. Toda a vasta catedral estava começando a parecer cada vez mais uma gaiola, dourada e decadente, mas igualmente confinante.

Conseguia sentir as obrigações que assumira do fantasma de Karlov quando suas lâminas o abateram. Elas a envolviam como mil correntes espirituais, cada uma ligando-a a algum pobre devedor que fizera um acordo com a Igreja dos Negócios. Liberá-los custava-lhe força e custava dinheiro aos Orzhov. Quebrar muitos de uma vez e um ou outro colapsaria.

Seria tão terrível assim? Kaya devaneava, preguiçosamente, enquanto passava fantasmagoricamente pelos corredores em direção aos seus próprios aposentos, evitando os guardas por hábito. Poderia fazê-lo, arrancar todas as correntes, declarar um jubileu e cancelar todas as dívidas com um aceno de mão. Os Orzhov viriam abaixo, todo o suntuoso ouro e mármore revelados como podres no cerne. Talvez eu estivesse fazendo um favor a Ravnica.

Claro, ela morreria no processo. O que é meio que o ponto de impasse. Não que tivesse medo, exatamente, mas não havia mais ninguém. Quando Kaya deixara seu lar, jurara sacrificar qualquer coisa para consertar o mundo quebrado que deixara para trás. If I die here, everyone back home dies with me, if not now then in ten years or twenty as the sky rips itself apart.

Além disso, tudo bem, estou com um pouco de medo.

Caminhou até a porta de seus aposentos e balançou a cabeça para espantar os pensamentos sombrios. Como mestre da guilda, ela naturalmente tinha uma suíte repugnantemente opulenta no coração de Orzhova. Vinha com uma equipe de uma dúzia de servos, que deveriam morar nela para servi-la. Kaya os enviara embora — ter pessoas em tal proximidade o tempo todo a deixava nervosa — e assim seus aposentos pareciam estranhamente vazios, grandes demais para sua ocupante. Ela chacoalhava neles como uma ervilha seca em uma vagem e ficava principalmente no quarto colossal e no banheiro adjacente.

Hoje, ao se materializar do outro lado da porta no grande hall de entrada, assustou uma velha com as vestes de serva do palácio, que estava parada desajeitadamente contra um grande espelho com duas crianças pequenas ao seu lado. A mulher piscou para Kaya em choque, e uma das crianças, um menino de dez ou onze anos, soltou-se e ficou de boca aberta.

"Como você faz isso?" disse ele. "Andar através das paredes?"

"É um talento", disse Kaya modestamente.

"Svet!" a velha disse, puxando-o de volta. Uma menina ligeiramente mais jovem espiou Kaya debaixo do braço dela. "Ambos, mostrem respeito. Esta é a sua mestre da guilda." Ela fez uma reverência profunda, forçando as crianças a se curvarem junto com ela.

"Obrigada", disse Kaya, sentindo-se desajeitada. "Levantem-se, por favor. O que estão fazendo aqui?" Havia guardas do lado de fora de seus aposentos, embora ela mesma os tivesse contornado como de costume.

"Meu nome é Olgaia", disse a velha. "Não pretendo perturbá-la, Mestre da Guilda. Mas ouvimos dizer . . . quer dizer . . ."

"Vovó diz que você perdoa as dívidas de qualquer um que peça pessoalmente", disse Svet.

Kaya estremeceu. A notícia estava começando a se espalhar, então. Eu realmente não deveria. Se Teysa descobrisse, teria um ataque. Mas havia tantos devedores e cada um contribuía apenas fracionalmente para o fardo na alma de Kaya. Por que não ajudá-los, se eu tenho a chance?

"Não é . . . exatamente assim." Kaya inclinou a cabeça. "Como você acabou em dívida com os Orzhov?"

"Comprei um colar." Olgaia baixou a cabeça. "Eu era jovem e tola e achei que atrairia o olhar de um rapaz. Atraiu, mas . . ." Ela deu de ombros. "Passei os últimos vinte anos trabalhando nas lavanderias aqui. Mas os juros do que devo são maiores que meu salário e assim a dívida só aumenta." Ela puxou seus dois netos para si. "Desde que os pais deles morreram, cuido destes dois, mas quando atingirem a maioridade, eles herdarão a dívida também. Por favor, Mestre da Guilda. Quero apenas uma chance de uma vida melhor para eles."

Um colar. Um erro, talvez, mas esta mulher passara a vida inteira pagando por ele. Quantas crianças trabalham para mim, pagando pelos erros de seus avós?

Kaya encontrou o fio da dívida que a conectava a estes três, como rastreando um único fio fino de um novelo grosso. Com um esforço de vontade, rompeu-o, sentindo uma pontada de dor no peito. Olgaia arquejou e endireitou-se levemente.

"Vocês estão perdoados", disse Kaya. "Só . . . não conte a todo mundo sobre isso, está bem?"

"Certamente, Mestre da Guilda." Olgaia curvou-se freneticamente. "Obrigada. Obrigada."

Kaya acenou para que se fossem e a velha apressou-se em tirar os netos pela porta. Quando saíram, Kaya suspirou pesadamente e vagou para o quarto, jogando-se de cara no grosso colchão de penas da ornamentada cama de dossel.

Pesou a corrente de obrigações em sua mente, os grilhões dourados que a prendiam. Com um puxão, tantas vidas seriam libertadas. Todas exceto a minha. Se Bolas era digno de crédito, apenas ele poderia resolver isso—

Kaya sat up abruptamente e balançou a cabeça. Caminhou pesadamente até o banheiro, onde havia uma enorme banheira de mármore, completa com água corrente quente e fria — um luxo impensável em muitos dos mundos que visitara. Os Orzhov podem ser um bando de banqueiros-sacerdotes sem coração, refletiu Kaya, mas certamente sabiam como fazer um bom banho.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#linebreak Não havia natureza selvagem de verdade em Ravnica. Após dez mil anos ou mais de civilização, nenhum pedaço de terra deixara de ser construído, queimado, arado e construído novamente uma dúzia de vezes. Os cinturões de escombros que contornavam o Décimo Distrito não eram naturais em nenhum sentido — eram a ausência de civilização, sua negação e destruição.

Provavelmente, Ral pensou, os clãs Gruul gostavam que fosse assim. Ou então não sabiam a diferença — como Planeswalker, ele vira a natureza selvagem real em outros mundos, mas nenhum ravnicano conseguia entender o que aquilo verdadeiramente significava. Em qualquer caso, enquanto os Gruul pregavam interminavelmente sobre a natureza e seu poder, viviam entre ruínas, parasitas vasculhando o que as outras guildas criavam. Nunca foram os principais inimigos da Liga Izzet, mas de todas as guildas Ral achava-os talvez os mais incompreensíveis.

Era um dia frio, mas ao menos a chuva diminuíra brevemente, com apenas ocasionais pancadas intermitentes sob um céu cinza e sem sol. Alguns dias de sono razoável não tinham restaurado Ral completamente, mas haviam ajudado bastante, assim como uma infelizmente breve visita de Tomik. Agora ele vestia seu casaco longo e a versão mais recente de seu acumulador, totalmente carregado e pronto. As braçadeiras de mizzium em seus braços estalavam em antecipação.

Atrás dele caminhava uma companhia de porta-brasas, soldados viashino equipados com lança-chamas. Os humanoides reptilianos latiam e rosnavam uns para os outros em sua variante gutural da língua comum, as línguas chicoteando indicando seu bom humor. Passavam a maior parte do tempo em serviço de guarda, impedidos de usar suas armas para não queimarem os laboratórios e oficinas que protegiam, então Ral imaginou que estivessem ansiosos por uma chance de se soltarem em campo aberto.

A maior parte da força que os acompanhava, como Aurélia prometera, fora fornecida pela Legião Boros. Dois batalhões de infantaria marchavam em colunas disciplinadas, lanceiros com escudos à frente e arqueiros atrás. Sargentos em elmos entalhados rondavam as fileiras, criticando seus soldados por infrações de disciplina que eram incompreensíveis para Ral. Na frente de cada batalhão, uma bandeira de batalha com o emblema Boros flutuava orgulhosamente, cercada por uma guarda de honra.

Soldados Boros estavam nos céus também. Várias formações de cavaleiros dos céus, lanceiros montados em rocs, faziam a cobertura da expedição, vigiando o terreno à frente. Compartilhavam o ar inquietamente com seus homólogos Azorius, montados em grifos. Mais cavalaria Azorius mantinha os flancos da força de terra, vários esquadrões de hussardos em armaduras brilhantemente polidas de cada lado.

Eles cavalgavam sobre antigas estradas e praças, por edifícios meio desmoronados e emaranhados em vinhas e árvores brotando. Alguns trechos do cinturão de escombros estavam arruinados há muito tempo, enquanto outros tinham cicatrizes de queimaduras frescas. Aquela era a fronteira do território Gruul, onde os Boros lutavam sua guerra interminável contra o caos que avançava. Conforme passavam além dela, as árvores cresciam mais altas, a grama mais profunda e as carcaças de pedra em ruínas de estruturas ancestrais eram submersas no verde, como se fossem navios naufragados afundando abaixo das ondas.

A Comandante Ferzhin, acompanhada por meia dúzia de jovens ajudantes de ordens, caminhava no centro da formação Boros, com seus olhos escuros vigilantes. Ela olhou na direção de Ral quando ele se aproximou, dando dois passos para cada um dos dela para manter o ritmo.

"Estamos quase lá", disse Ral. Olhou para a engenhoca em sua mão, uma coisa de mizzium e cristal que os quimistas montaram às pressas. Uma janela polida no topo brilhava mais conforme se aproximavam do nó e zumbia suavemente enquanto ele a movia em círculo. "Logo após aquele muro, eu acho."

"Parece uma antiga praça", a minotauro ribombou, protegendo os olhos com uma mão. Um amplo espaço aberto à frente era ladeado por edifícios em ruínas em três lados, incluindo um que tinha pelo menos quatro andares de altura. "Não gosto disso. Bom lugar para uma emboscada."

"Os Gruul não vieram atrás de nós até agora. Talvez nem ataquem."

"Eles atacarão", disse Ferzhin. Seu lábio contraiu-se. "Eles sempre atacam. Prepare-se."

Na borda da praça, a minotauro rosnou uma ordem e a coluna parou. Cavaleiros dos céus voavam em círculos preguiçosos acima, enquanto a cavalaria esperava, os cavalos dando um ou outro bufo suave. Ral e Ferzhin esgueiraram-se pelas fileiras até a frente da formação. À frente deles, no centro da praça, uma única figura esperava.

"Você o reconhece?" perguntou Ferzhin.

Ral balançou a cabeça, desejando por um momento que Lavínia estivesse lá. Ela é a única que sabe tudo sobre todos. "Ele claramente quer conversar. Então vamos conversar."

A minotauro revirou os olhos, mas nada disse enquanto Ral caminhava para encontrar o estranho solitário. Era um rapaz, claramente dos clãs Gruul — pesadamente tatuado, com retalhos de armadura de couro e uma crista rígida de cabelo escuro. Carregava um par de machadinhas no cinto e apoiava as palmas nelas enquanto esperava seus visitantes se aproximarem, dando-lhes um sorriso insolente.

"Muita audácia de vocês", gritou ele quando chegaram perto. "Muita audácia virem aqui."

"Você tem certa audácia também, encontrando-nos sozinho", disse Ral. Ele olhou o jovem de cima a baixo. "Sou Ral Zarek, da Liga Izzet."

"Sou Domri Rade, entende? Dos clãs Gruul." Seus lábios abriram-se em um sorriso cruel. "O chefe de todos os clãs Gruul."

Ferzhin soltou uma risadinha. "Borborigmo pode querer dar uma palavra com você se você sair por aí dizendo coisas assim."

Domri sorriu mais ainda. "Já deu. Duelo do século, estão chamando."

"E você venceu?" disse Ral, duvidoso.

"Estou aqui, não estou?" Domri abriu os braços. "E ele não. Então é o seguinte. Peguem seus brinquedinhos brilhantes e deem o fora daqui enquanto ainda podem, entenderam? Senão vamos ter problemas."

"Não viemos para ficar", disse Ral. "É apenas durante a emergência."

"Não estou nem aí", disse Domri, inclinando-se para frente até estar a poucos centímetros do rosto de Ral. "Para você ou sua emergência. Se esse dragão grande e mau vier mexer conosco, lutaremos contra ele também. Lutaremos contra todos. Isso é ser Gruul, percebe? O velho Bor-Bor tentou conversar e veja onde isso o levou. Eu não cometerei esse erro."

"Palavras grandes para um homem sozinho", disse Ferzhin.

"Oh, não se preocupe." Domri deu um passo atrás e abriu os braços. "Não estou sozinho."

Um grito agudo rasgou o ar. Ral olhou para cima e viu um cavaleiro dos céus caindo, o flanco de seu grifo rasgado em uma chuva de sangue por uma águia monstruosa. Mais aves estavam descendo, bandos delas, falcões, corujas e corvos aos milhares. Elas brilhavam, um verde escuro e verdejante, e Ral conseguia sentir a pulsação de magia ao redor delas.

He ergueu as mãos e fechou as manoplas em punhos. O relâmpago estalou, ao seu redor, então disparou para o céu, pegando o maior dos atacantes alados. A águia deu um guincho ao irromper em chamas, caindo na praça gramada como um monte em brasas, e o poder saltou adiante, de uma ave para a seguinte. Corvos explodiam em rajadas de penas pretas.

"De volta às fileiras!" disse Ferzhin, pegando Ral pelo ombro.

"Consigo lidar com alguns pássaros—"

Mas mais movimento captou o olhar de Ral. Dos arredores da praça, uma nuvem de poeira estava subindo e, à frente dela, ele podia ver uma linha sólida de javalis selvagens. Eram enormes, do tamanho de um homem, com as mesmas tatuagens de Domri e o mesmo brilho verde escuro. Cada um ostentava um par de presas maciças, impulsionadas por meia tonelada de músculo porcino. Domri sacou um machado em cada mão e riu descontroladamente conforme os javalis avançavam por ele.

"De volta às fileiras", concordou Ral.

Eles chegaram bem a tempo, espremendo-se atrás da parede formada pela fileira da frente das tropas Boros, seus escudos de metal desgastados intertravando-se com facilidade praticada. Suas lanças niveladas formavam um emaranhado impenetrável, mas os javalis continuaram sua carga com uma fúria suicida, lançando-se contra a linha de pontas de aço. A massa pura de seu impacto desordenou a linha, empurrando soldados para trás ou derrubando-os. Mesmo empalados e sangrando, os javalis continuavam se debatendo, quebrando as hastes que os fustigavam. Quando chegavam perto o suficiente, suas presas arrancavam escudos e rasgavam armaduras, deixando corpos quebrados sangrando na grama.

As tropas Boros sabiam o que fazer, porém. Homens e mulheres na linha de frente largaram suas lanças quando os javalis as despedaçaram e sacaram espadas, aproximando-se para abater as bestas maciças. Atrás deles, a segunda linha formou-se e os arqueiros encaçaparam suas flechas. No céu, o ar tornara-se um redemoinho caótico de aves e grifos, um bando de animais fustigantes atacando cada cavaleiro dos céus. Os cavaleiros disparavam seus arcos com precisão sobrenatural, enviando uma chuva constante de águias, falcões e corvos despencando para a terra.

"Lá vêm eles", berrou Ferzhin. "Arqueiros, prontos!"

Através da poeira levantada pela carga dos javalis, Ral conseguia distinguir uma multidão de formas fugazes, saindo dos edifícios em ruínas em uma maré de músculos, couro e aço. Aqui e ali, cabeças eram visíveis acima da confusão, gigantes com cabelos desgrenhados e multicoloridos e clavas de pedra maciças. Ral teve um momento súbito de dúvida — são muitos deles — então mostrou os dentes em um sorriso selvagem e gritou para suas tropas viashino.

"Vão! Para a frente!"

Os lagartos saltaram para frente, esquivando-se entre os grupos de soldados Boros em luta e os poucos javalis sobreviventes para formar uma linha de escaramuça fina à frente da parede de escudos da Legião. Atrás deles, os arqueiros dispararam uma salva de flechas com um som de um bando de pássaros alçando voo, as hastes zunindo acima e descendo como chuva escura. Os soldados bem treinados tinham outra salva no ar antes que a primeira atingisse o solo e figuras gritavam, tropeçavam e caíam conforme a horda avançava.

Luz súbita e ofuscante quando os porta-brasas acenderam suas armas. Línguas de fogo chicotearam, tocando as figuras envoltas em bruma e deixando-as em chamas, varrendo para lá e para cá. Homens e mulheres dançavam como fantoches enlouquecidos, envoltos em chamas, gritando enquanto queimavam. Uma onda de dardos e machados arremessados veio em resposta e alguns dos porta-brasas caíram, um deles detonando em uma explosão espetacular. Os demais recuaram lentamente, lançando seus fogos sobre os anarquistas Gruul em avanço, depois voltando para a segurança atrás da linha de lanceiros Boros.

Os Gruul avançaram, cheios de fúria berserker, saltando sobre seus próprios mortos carbonizados com espadas e machados em punho. A maioria era humana, cabelos selvagens, vestindo armadura de couro ou nenhuma, pele carregada de tatuagens e olhos selvagens de raiva. Ogros assomavam entre eles também, maiores e de pele grossa, brandindo clavas enormes que Ral duvidava sequer conseguir levantar.

Por um momento pareceu que esmagariam a linha Boros pelo puro ímpeto, mas os soldados treinados travaram escudos e fincaram suas lanças no chão e a onda furiosa de anarquistas quebrou-se contra eles como uma onda contra a rocha. Eles golpeavam as lanças projetadas, tentavam esquivar-se entre elas ou simplesmente lançavam-se para frente e confiavam na sorte. A linha de frente ficou subitamente cheia de mortos e moribundos e as tropas Boros largaram suas lanças, sacaram suas espadas e enfrentaram os sobreviventes. Em instantes, um combate corpo a corpo selvagem se desenvolveu e era difícil ver qualquer coisa.

Um dos gigantes caiu, transformado em um alfineteiro por cem flechas, mas outro entrou alegremente no meio da multidão, sua enorme clava varrendo para lá e para cá, esmagando amigos e inimigos indiscriminadamente. A linha Boros curvou-se diante dele e ameaçou romper. Ral estendeu o braço acima da cabeça e puxou para baixo e a energia rugiu do acumulador em suas costas e subiu para o céu. Um momento depois, o céu ribombou em resposta e um raio titânico desceu, atingindo a enorme criatura enquanto ela erguia a clava para outro golpe. A arma escorregou de sua mão, caindo pesadamente no solo, enquanto o gigante era contornado em branco brilhante por um instante. Então ele tombou, fumegando, e colapsou sob um grito de alegria dos soldados Boros.

"Ali!" disse Ferzhin. "É o Domri!"

Algo enorme surgiu da poeira, mais alto e mais largo que os gigantes. Tinha uma forma vagamente humanoide, corpo atarracado e pernas longas, mas era feito das coisas do cinturão de escombros — vinhas, árvores, pedaços de rocha, colunas antigas e estátuas, tudo prensado e moendo-se um contra o outro para produzir um rugido contínuo. Flechas atingiam-no com pouco efeito e ele varreu uma mão por um esquadrão de soldados Boros e deixou-os espalhados e quebrados no gramado. No ombro da coisa maciça cavalgava Domri, um machado em cada mão, rindo alegremente da carnificina abaixo.

"Porta-brasas!" Ral acenou. "Matem essa coisa!"

Ele não esperou os viashino se reagruparem, mas avançou ele mesmo, com Ferzhin ao seu lado. Relâmpagos explodiram das pontas de seus dedos, percorrendo o enorme elemental de ruínas, pedra e madeira explodindo em seu rastro. A coisa contorceu-se, como se pudesse sentir dor, e desceu uma mão enorme para esmagar Ral como um inseto. Ele esquivou-se para trás, tropeçando enquanto o golpe enviava uma onda de choque pela terra, e enviou um pulso concentrado de poder na mão do elemental, explodindo-a em uma chuva de rochas e farpas de madeira.

O fogo lambera de uma dúzia de direções, queimando o elemental, e ele empinou-se e procurou por seus atacantes. Domri saltou de seu ombro e avançou contra Ferzhin, que sacou sua montante e preparou-se para encontrá-lo. O aço tinia contra o aço, o jovem risonho pressionando o ataque, girando e esquivando-se dos ataques da minotauro estóica com uma facilidade desconcertante. Ral enviou uma rajada de relâmpago contra ele e Domri baixou-se. Antes que Ral pudesse pressionar o ataque, teve que desviar do elemental novamente, evitando por pouco ser esmagado.

Já chega disso. Normalmente, a melhor maneira de lidar com um elemental seria matar quem o convocara, mas no caos da batalha eles poderiam estar em qualquer lugar. Só resta a abordagem direta. A coisa estava seriamente danificada, ardendo em vários lugares enquanto os lança-chamas continuavam a atormentá-la. Ral puxou todo o poder que pôde de seu acumulador, suas manoplas brilhando em branco e focou-o em uma lança de energia brilhante. Quando o elemental empinou-se novamente, ele liberou a rajada, um feixe de luz que perfurou o cerne da coisa e explodiu uma enorme chuva de rochas e alvenaria antiga por suas costas. A vasta criatura gemeu, então começou a se desfazer, rochas e árvores em chamas caindo no chão enquanto se desintegrava.

Domri deu um grito de triunfo e Ral virou-se a tempo de ver a espada de Ferzhin ser derrubada de suas mãos. O rapaz girou, enterrando um de seus machados de mão profundamente nas costelas da minotauro. Mas ele ficou preso e seu grito triunfante foi cortado quando ela o agarrou e desceu seu crânio chifrudo com força em uma cabeçada viciosa. O nariz de Domri quebrou com um crunch que Ral pôde ouvir através do campo de batalha e ele cambaleou para trás na poeira ondulante do colapso do elemental.

Ral ergueu uma mão para enviar um relâmpago atrás dele, mas o acumulador em suas costas deu apenas um zumbido vazio. Ele praguejou enquanto Domri desaparecia, então correu para o lado de Ferzhin. A minotauro caíra de joelhos, segurando o machado que Domri deixara para trás. Ela o arrancou com um arquejo e jogou-o fora, o sangue encharcando seu uniforme.

"Comandante!" Um tenente Boros aproximou-se trotando e fez uma saudação formal.

"Traga um curandeiro", Ral disparou para ele. "Ela precisa—"

"Depois", disse Ferzhin, levantando-se. "Relatório."

"Sim, senhora", disse o tenente. "O inimigo está em retirada total. O dia é nosso."

"Mobilize patrulhas de perímetro", disse Ferzhin. "Recolha nossos feridos e certifique-se de que os bastardos não deixaram nenhuma surpresa desagradável para trás."

"Sim, senhora."

"E então", disse Ferzhin, olhando para Ral. "Busque-me um curandeiro. Se houver um sobrando."

"Sim, senhora." O tenente saudou e afastou-se apressado.

"Você está bem?" perguntou Ral, observando seu flanco sangrando.

"Já tive piores", disse Ferzhin, respirando com dificuldade. "Isso foi . . . mais do que eu esperava."

Ral deu um aceno lento. "Alguém os avisou que estávamos vindo." Bolas. #linebreak "Não importa." A minotauro gesticulou ao redor deles, para a antiga praça agora generosamente repleta de cadáveres. "Você conseguiu seu pedaço de terra. Espero que seus engenheiros loucos consigam fazer algo que valha a pena com ele."

"Não se preocupe com isso", disse Ral, enquanto um médico Boros de túnica branca aproximava-se correndo. "Nós cuidaremos daqui em diante."

04 de Setembro de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 13

Vraska olhou para seu mapa, linhas de tinta em pergaminho cobertas por hachuras de lápis. Apenas linhas no papel, por enquanto. Mas o que elas representavam . . .

Você está perturbada, amiga-Vraska, Xeddick projetou em sua mente.

Vraska recostou-se em seu trono de corpos petrificados, agora pesadamente almofadado e muito mais confortável. Deixou a cabeça descansar no travesseiro espesso que cobria o rosto gritante de um elfo das sombras e olhou para o teto abobadado. Globos de luz pendiam em intervalos, brilhando suavemente com bioluminescência, suspensos em vastos tapetes de teia de aranha. Vraska fechou os olhos e pressionou os dedos contra a testa. Seu crânio doía e as gavinhas em sua cabeça jaziam flácidas e sem vida.

Você deve descansar, disse Xeddick, saindo das sombras ao lado do trono. Além de alguns guardas Outrora, ele era o único na sala do trono. Ela expulsara todos os outros na noite anterior. Você se esforça demais.

"É tudo o que posso fazer", murmurou Vraska e balançou a cabeça. Sentou-se e olhou para o kraul albino. Ele era pequeno para sua raça, com as asas tremulantes fracas e inúteis, mas sua mente era extraordinária. E ele se importa comigo. Isso, hoje em dia, era uma mercadoria rara. "Desculpe. Você tem razão. Eu só . . ."

Ela gesticulou para o mapa.

Você planeja o ataque dos habitantes da superfície, disse Xeddick. Você tem certeza de que eles virão?

"Eles virão", disse Vraska sombriamente. "Ral Zarek não desistirá. Não é de sua natureza." Seu lábio contraiu-se. "Uma de suas qualidades mais charmosas."

Então eles virão, disse Xeddick. E você os derrotará.

Ela conseguia sentir a total confiança dele e isso a fez estremecer. "Haverá um custo e seu povo levará a pior."

Sempre há um custo, amiga-Vraska. E meu povo lhe deve mais do que podemos pagar. Assumiremos o fardo, e com prazer.

"Mazirek pode não concordar."

Mazirek se afastou do restante dos kraul, disse Xeddick. Ele parecia incerto — não era de sua natureza criticar. Ele se tornou . . . orgulhoso. Ele esqueceu que o propósito de todo kraul é servir à colmeia. É a colmeia que perdura quando o indivíduo falha.

Exatamente, pensou Vraska. Ela lançou as palavras nas profundezas de sua própria mente, onde tinha a desagradável sensação de que encontraria Jace olhando de volta para ela. Fiz o que tive que fazer pelos Golgari. Este é meu povo, minha responsabilidade. Tenho que protegê-los melhor do que Jarad, para que ninguém tenha que sofrer o que eu sofri. Prisão, tortura e quase morte, por nenhuma razão melhor do que o fato de ter nascido uma górgona.

E além do mais. Vraska forçou um sorriso, mostrando dentes pontiagudos. Eu gostei. Ver a grande esfinge Isperia — a juíza que destruíra sua vida com uma assinatura casual em um formulário — endurecer em pedra sem vida. Eu deveria ter feito aquilo há muito tempo.

Xeddick mexeu-se inquieto. Amiga-Vraska, disse ele, os guardas capturaram uma intrusa.

"Outro assassino?" Vraska olhou para baixo, para o trono. "Não preciso dele para o trono. Mande jogá-lo—"

Perdão, mas não parece ser um assassino. Ela afirma ser uma emissária dos Rakdos.

"Dos Rakdos?" Vraska franziu a testa. "Traga-a."

Alguns momentos depois, um par de Outrora entrou, escoltando uma figura maltrapilha em um macacão de couro de retalhos, encharcada até os ossos. A água lavara a goma de seu cabelo, deixando-o liso e pingando.

"Hekara", disse Vraska, com um suspiro.

"Vrasky!" disse Hekara, saltitando e espalhando água para todos os lados.

"O que aconteceu com você?" perguntou Vraska.

"Caí no fosso", disse Hekara prontamente.

"O fosso está cheio de crocodilos", disse Vraska.

"Descobri isso", disse Hekara, ainda sorrindo. "Mordedores!"

Vraska balançou a cabeça, as gavinhas curvando-se em diversão. "Ral sabe que você está aqui?"

"Não", disse Hekara. "Eu só queria conversar." Ela mordeu o lábio, depois olhou para os guardas e para Xeddick.

"Deixe-nos", disse Vraska. "Você também, Xeddick. Falarei com você mais tarde."

O kraul dobrou as pernas dianteiras na versão de sua espécie de uma reverência e retirou-se, com os Outrora arrastando-se logo atrás. Hekara, ainda pingando, saltou em direção ao trono.

"Gostei do que você fez com o lugar", disse ela. "Bem a sua cara, entende?" Ela inclinou-se para examinar uma das estátuas retorcidas que compunham o trono. "Bela cadeira também. Deve ser difícil esculpir todas essas partes detalhadas."

"Isso foi . . . sem problemas", disse Vraska, sorrindo apesar de si mesma. "O que você está fazendo aqui, Hekara? Veio falar em nome de Rakdos?"

"Nopes. Sua Flamejância está bem puto com você por causa de toda a . . . coisa. Não gosta de ser traído, diz ele, o que é esquisito porque ele está sempre traindo todo mundo, né? Demônios!" Ela riu, embora soasse um pouco forçado. "Não estou aqui em nome de ninguém. Apenas por mim."

"Tudo bem", disse Vraska. "O que é que você quer dizer?"

"Pensei sobre o que aconteceu", disse Hekara. "E acho que você deveria voltar."

"Voltar", disse Vraska, inexpressiva.

"É." Hekara saltitava nas pontas dos pés. "Porque somos parceiros. Você, eu e o Ral. Não deveríamos estar lutando uns contra os outros."

"Ral provavelmente está . . . 'bem puto' comigo também."

"Eh. Ele vai superar." Hekara acenou com a mão. "Ele tem essa coisa nova sobre a qual eu não deveria falar, o que está tudo bem porque não faz muito sentido para mim e ele entra nessas longas tangentes quando não dorme o suficiente e começa a desenhar nas paredes e agora acho que estou perdida e esqueci o que ia dizer. Mas enfim, você deveria voltar porque somos parceiros e eu não guardo mágoa nenhuma e ele vai parar de ficar bravo eventualmente."

"É uma bela oferta", disse Vraska, recostando-se no trono novamente.

"Eu achei", disse Hekara. "Então você vem?"

"Infelizmente, não acho que seja tão simples assim."

O cenho de Hekara franziu-se. "Por que não?"

"Eu tenho . . . responsabilidades."

"Queime-as!" disse Hekara prontamente.

"Queime—" Vraska balançou a cabeça.

"Queimar resolve a maioria das coisas, eu acho", disse Hekara.

"Não é . . ." Vraska respirou fundo. "Os Golgari precisam de mim. Tenho o dever de protegê-los."

"Meu antigo professor costumava dizer que você tem três deveres. Ouvir seu chefe, cuidar de seus parceiros e cuidar de si mesma." Hekara inclinou a cabeça. "Você é a chefe, então o número um já está resolvido. Você pode trazer seu amigo-inseto se quiser. Eu o mantenho no meu quarto. Ninguém vai descobrir."

"Não posso, Hekara", disse Vraska, gentilmente.

"Mas você não pode ficar aqui." O lábio de Hekara tremeu. "Senão você acabará lutando contra o Ral. E vocês são parceiros. Tentei dizer a mesma coisa a ele, mas ele não quis ouvir. Ele tem aquele dragão como chefe, porém, e você não, então eu pensei . . ."

Eu tenho outro dragão inteiramente. Vraska guardou o pensamento para si. Mesmo se não tivesse Bolas, ainda teria o povo Golgari a quem responder.

"Sinto muito", disse Vraska.

"Você é burra", disse Hekara, batendo o pé. "E o Ral também. Vocês não entendem."

Ela girou nos calcanhares e saiu pisando forte, deixando um rastro de pegadas úmidas. Alguns momentos depois, Xeddick reapareceu.

Sua visitante caiu no fosso de novo, disse ele.

"Tire-a de lá", disse Vraska. "E certifique-se de que ela volte para a superfície em segurança."

Era o mínimo que ela podia fazer. A única coisa que posso fazer.

E as defesas?, disse o kraul, gesticulando para o mapa com um membro anterior.

"Diga ao Mazirek e ao povo dele para começarem a montá-las", disse Vraska. "O mais rápido que puderem. Não temos muito tempo."

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

Kaya seguiu Tomik Vrona até o escritório de Teysa, caminhando pelos corredores elegantemente mobiliados das partes mais privilegiadas de Orzhova. Aqui em cima, definitivamente parecia mais um banco do que uma igreja, com retratos severos de antigos notáveis Orzhov em cada parede, mobília dourada e muito mármore. Tomik parou em frente a um conjunto de portas duplas esculpidas com um friso elaborado e Kaya parou desajeitadamente ao lado dele.

Se eu sou a mestre da guilda, pensou ela, por que sinto que sou eu quem está sendo chamada para levar bronca?

Tomik bateu levemente na madeira. A voz de Teysa veio de dentro. "Sim?"

"Trouxe a mestre da guilda, Lady Teysa, como a senhora pediu."

"Claro. Entre." Havia uma frieza nas palavras de Teysa de que Kaya não gostou.

Elas entraram. O escritório de Teysa era quase inteiramente de mármore, com um fogo rugindo em uma lareira maciça que o tornava quase sufocante. Janelas altas e estreitas ocupavam a parede atrás da grande escrivaninha de madeira de lei, açoitadas pela chuva. Relâmpagos brilhavam de nuvem em nuvem do lado de fora e Kaya ouviu um estrondo baixo de trovão.

Teysa, sentada entre duas pilhas de grandes livros encadernados em couro, levantou os olhos do livro-razão em que estava escrevendo e deu um sorriso sem humor.

"Mestre da Guilda", disse ela.

"Hum . . . Teysa." Kaya não tinha certeza do seu título oficial. "Como vão as coisas?"

"Estive revisando os números", disse Teysa, gesticulando para os livros.

"Estou vendo." Kaya olhou para Tomik, que ocupara um lugar discreto no canto. "Achei que você tivesse pessoas para isso?"

"A líder dos Orzhov — a mestre da guilda — deveria ter uma apreciação pessoal do estado de nossas contas. Somos, afinal, um banco. O equilíbrio de nossos ativos contra obrigações pendentes é uma questão de grave preocupação."

"Certo." Kaya deu de ombros. "Olha, nós duas sabemos que isso não é algo que eu vou ser capaz de fazer, então se é sobre isso que se trata—"

Teysa olhou para cima, a expressão fria com raiva contida. "Eu estou ciente disso. Na verdade, você concordou em ficar bem longe da política Orzhov como mestre da guilda e deixar esses assuntos para mim. Mas agora . . ." Ela tamborilou o dedo no livro-razão. "Os números não batem."

Kaya fingiu confusão. "Não entendo."

"Deixe-me ser simples, então. Você tem perdoado dívidas, sem consultar a mim ou qualquer outro oficial Orzhov."

"Eu . . ." Que se dane. Kaya balançou a cabeça. "Tudo bem, e se eu tiver? Não foram tantos—"

"Sessenta e sete pessoas, até o momento. Em um valor total de duzentos e quarenta e seis mil trezentos e doze zinos de valor presente líquido, assumindo . . . bem, qualquer número de coisas."

"Tenho certeza de que os Orzhov podem arcar com isso", disse Kaya. "Eu consigo sentir nossos contratos, lembra? Esses são apenas uma fração minúscula deles."

"Se podemos arcar com isso não é o ponto", disse Teysa, com a voz subindo. "Você me prometeu que ficaria fora dos negócios dos Orzhov."

"Não importa se eu quero ficar fora ou o que combinamos", disse Kaya. "Você disse a todas essas pessoas que eu sou a mestre da guilda. Pode culpá-las quando elas me tratam como tal?"

"Não estou culpando elas. Apenas diga não!"

Kaya sentiu sua raiva subir. "Por quê? Para que você possa continuar extraindo dívidas dos bisnetos delas?"

O rosto pálido de Teysa coloriu-se. "Cada contrato que os Orzhov celebram está de acordo com a lei de Ravnica e é voluntário de ambos os lados. Estamos apenas exercendo nossos direitos."

"Certo. Algum pobre coitado quer pagar um médico para ajudar a esposa e isso te dá o direito de fazer a família dele trabalhar como escravos pelas próximas três gerações."

"Ele foi informado dos termos. Poderia sempre escolher não assinar—"

"E deixar seus entes queridos morrerem." Kaya balançou a cabeça. "Você não entende que o que está fazendo com essas pessoas é errado?"

"Nós não estamos fazendo nada!" disse Teysa. "O que quer que aconteça com eles, eles trazem sobre si mesmos. Nós apenas . . . facilitamos."

Elas se encararam por um longo momento. Teysa estava com as mãos espalmadas sobre o livro-razão, respirando com dificuldade. Kaya rangeu os dentes.

"Independentemente dos seus . . . escrúpulos", disse Teysa, em tons cuidadosos, "como uma questão prática, não podemos simplesmente perdoar nossos devedores. Os Orzhov têm obrigações próprias e precisamos ter renda para cumpri-las. Se fôssemos inadimplentes, as consequências para Ravnica seriam incalculáveis."

"Só porque você se amarrou em um nó não significa que tenha que continuar puxando-o cada vez mais forte", disse Kaya. "Não significa que você não possa tentar se soltar, um pouco de cada vez."

"Kaya . . ." Teysa levou a mão à testa. "Se fizéssemos o que você quer, isso significaria a destruição da guilda."

"Se a guilda depende de escravizar crianças pelas dívidas de seus pais, então talvez ela mereça ser destruída."

"Espero que essas palavras não deixem esta sala", disse Teysa, com um olhar agudo para Tomik. "Ou não serei responsável pelas consequências."

"Muito sutil", disse Kaya.

"Estou tentando ajudar você. Tudo o que você tem que fazer é . . ." Teysa acenou com a mão vagamente. "Nada. Sente-se no trono e diga alguns clichês vazios. Acene em funções oficiais. Quando nossos magos da lei descobrirem como extrair você de nossas obrigações, você estará livre para ir, com minha bênção. Até lá—"

"Até lá, eu apenas deixo todos pensarem que estou de acordo em ser a cabeça desta organização?" Kaya ouviu sua própria voz subir. Não tinha percebido, até aquele momento, quão fortemente se sentia. "Seja lá como aconteceu, eu tenho o poder de mudar as coisas para melhor aqui. Não me diga para não usá-lo."

"Aparentemente, não posso te dizer nada", disse Teysa. "Exceto que você deveria vigiar suas costas."

"Felizmente para todos nós", disparou Kaya, "sou boa nisso."

Ela levantou-se e saiu pisando forte. Tomik correu para abrir as portas duplas, mas Kaya simplesmente as atravessou em um lampejo de luz roxa.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

Para Ral, o apartamento em Dogsrun deveria ter sido um refúgio. Infelizmente, no momento, parecia que esse refúgio estava sob cerco pelo restante de Ravnica. Ele entrou, com algumas gotas de chuva salpicando ao seu redor, e bateu a porta contra o vento forte.

Tempestades geralmente o faziam sentir um tipo de euforia. Todo aquele poder, correndo livremente pelo ar, correntes brilhantes de energia escrevendo-se em sua pele em trilhas de fogo. Ele podia esticar a mão e tocá-lo, saboreá-lo, sentir o cheiro do calor do ozônio. Agora, porém . . .

Não é o suficiente. Relâmpagos podiam rachar pedra e derreter aço. Mas não podiam fazer as engrenagens da burocracia moerem mais rápido, ou triangular ressonadores com mais precisão, ou alinhar bobinas de mizzium. Não podem fazer um bando de idiotas de merda fazerem o que lhes é ordenado.

Estavam progredindo. Os ressonadores estavam subindo, por todo o Décimo Distrito, engenhocas zumbindo e girando de mizzium, cristal e aço. Cada um tinha que ser cuidadosamente posicionado, depois ajustado para que suas bobinas principais girassem exatamente com a frequência e direção corretas em relação aos seus companheiros. Feito corretamente, formariam uma rede, amplificando e alterando o campo mágico do Pacto das Guildas apenas o suficiente para que Niv-Mizzet pudesse conseguir o que queria.

Um erro, porém, e todos os seus esforços seriam piores que inúteis. Os ressonadores falhariam, ou pior. O poder potencial de uma ressonância destrutiva era devastador. Ral negligenciara mencionar isso às outras guildas quando estivera explicando o plano.

Mas se falharmos, nada disso importa. Ele quase podia sentir o hálito quente de Bolas em sua nuca. O dragão estava vindo, cada vez mais perto, e se os ressonadores não estivessem prontos a tempo, a única coisa que ficaria entre ele e Ravnica seria o Farol, o plano de reserva desesperado de Niv-Mizzet. Gritar no vazio e esperar que alguém responda. Ral estremeceu. Se tivermos que contar com isso, então provavelmente estamos condenados.

A fechadura clicou e Ral percebeu que ainda estava encostado na porta. Afastou-se antes que ela se abrisse novamente para revelar Tomik, encolhido sob uma capa de chuva molhada e segurando um saco de papel. Ele ergueu uma sobrancelha para Ral e ajeitou os óculos.

"Hum. Trouxe curry?" disse ele. "Do tipo que você gosta. Posso entrar?"

Ral percebeu que ainda estava parado no portal e apressou-se em abrir caminho. "Desculpe."

"Tudo bem", disse Tomik, entrando. "Não é como se estivesse caindo um dilúvio absoluto. Nem todos temos nosso próprio guarda-chuva mágico pessoal, sabe?"

"Até eu me molho em dias como este", reclamou Ral. "Vento demais."

"Você tem minha total simpatia." Tomik jogou o saco de curry na pequena mesa deles. Tirou os óculos manchados de chuva, ia limpá-los na camisa e parou ao descobrir que ela já estava encharcada. "Você tem uma—"

Ral aproximou-se por trás dele e colocou uma mão em seu ombro, virando-o. Antes que Tomik pudesse terminar a frase, ele o beijou, com toda a frustração e preocupação acumuladas nos últimos dias. Tomik tropeçou um passo para trás, contra a parede, e Ral pressionou-se contra ele com força.

"—toalha?" terminou Tomik fracamente quando Ral finalmente se afastou por um momento. Respirou fundo. "O curry . . ."

"Depois", rosnou Ral.

"Depois", concordou Tomik, pousando os óculos cuidadosamente sobre a mesa.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

O depois chegou, como costuma fazer, com uma pressa deprimente.

"Eu sei com o que eu estou preocupado", disse Ral. Estavam no quarto e ele andava de um lado para o outro em frente à ampla janela. Relâmpagos brilhavam no horizonte, conectando alguma torre ao céu por um momento, e Ral ergueu as mãos e deixou um rastro crepitante percorrer seus nós dos dedos. Passou uma mão pelo cabelo úmido de suor e deixou um estalido de eletricidade restaurar seu frizz. "O que está te corroendo?"

"Quem disse que algo está me corroendo?" murmurou Tomik. Ele ainda estava deitado na cama, seu corpo magro coberto apenas por um lençol fino. Ral observou seu reflexo na janela com um olhar apreciativo quando ele rolou e suspirou.

"Você está amuado", disse Ral.

"Não estou amuado, estou pensando", disse Tomik. "Você deveria tentar algum dia."

"Certo", disse Ral. "Então o que você está pensando?"

"Negócios da guilda", disse Tomik e suspirou.

Ral olhou por cima do ombro. O cenho de Tomik estava franzido e, por um momento, Ral quis pressioná-lo mais. Mas eles sempre mantiveram suas respectivas posições fora do relacionamento e, embora as circunstâncias de Ral tivessem mudado — se eu tiver sucesso, ninguém nos Izzet ousaria me desafiar, e se eu falhar, não importará — as de Tomik só haviam ficado mais confusas, com sua senhora Teysa servindo agora sob a Planeswalker Kaya.

"Você sabe que tem minha ajuda, se precisar", disse Ral, após um momento de silêncio.

"Obrigado." Tomik sentou-se e tateou em busca dos óculos. "É . . . complicado."

"Tenho certeza." Ral inclinou a cabeça. "Curry?"

"Curry", concordou Tomik.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#linebreak "Os Gruul intensificaram seus ataques por todo o Décimo Distrito", disse Aurélia. Seus olhos brilhantes eram difíceis de ler, mas Ral achou notar um traço de preocupação até no rosto beatífico da anjo. "Nossas guarnições ao longo dos cinturões de escombros são assaltadas quase diariamente. Há mais deles do que imaginávamos e estão melhor organizados. É lamentável que você não tenha capturado esse Domri; a liderança dele parece ser altamente capaz."

"Peço desculpas", disse Ral. "Estávamos um pouco ocupados. Como está a Comandante Ferzhin, a propósito?"

"Ferida, mas ela se recuperará." Aurélia inclinou a cabeça para o mapa na mesa da sala de guerra. "Infelizmente, temo que nossa contribuição para o seu esforço contra os Golgari será menor do que eu antecipei inicialmente."

"Compreensível", disse Dovin Baan. "O Senado fornecerá o que puder, como prometi, mas nossos números são limitados."

"Falei com a Mente de Fogo sobre empregar alguns de nossos ativos mais . . . eficazes para o ataque", disse Ral. "Mas com a necessidade de construir e proteger os ressonadores, também estamos com pessoal reduzido."

"Tive a impressão de que os Rakdos estariam contribuindo para o esforço", disse Aurélia.

"Eu também", murmurou Ral entre dentes. Não via a Hekara há dias e, embora fosse bom não tê-la constantemente se metendo em tudo, estava começando a se preocupar. Pelo menos o ressonador no território Rakdos ainda está no cronograma, mesmo que tenhamos que continuar arrastando os trabalhadores para fora dos clubes. "Vou ver o que posso fazer, mas o tempo é curto. Kaya, você acha que seu pessoal pode compensar os números?"

"Podem", disse Kaya firmemente. "Podemos, quero dizer. Digam a hora e o lugar e estaremos lá."

"A hora é amanhã", disse Ral. Ele embaralhou os mapas até encontrar um que mostrava a Subcidade, mais uma coleção de esboços fragmentários do que uma representação sólida daquele domínio notoriamente caótico. Mas a câmara que ele queria estava marcada claramente o suficiente, uma vasta caverna circular com uma via navegável subterrânea correndo pelo coração dela. "E o lugar é aqui. Grek’ospen, os Golgari chamam."

"Este espaço grande", disse Aurélia, inclinando-se mais perto do mapa. Suas asas dobradas quase roçavam o teto. "É terreno aberto?"

"Não acho", disse Ral. "Pelo que nossos batedores puderam perceber, é algum tipo de colmeia pertencente aos insetos gigantes aliados aos Golgari."

"Os kraul", disse Dovin Baan. "Uma espécie fascinante. Comportamento eussocial é extremamente raro entre sencientes plenos."

"Não será bom terreno para batalha", disse Aurélia. "Atulhado e confuso. Ideal para os Golgari."

"Infelizmente", disse Ral, "não temos escolha. O nó de que precisamos está lá. E a Vraska provavelmente sabe que estamos vindo." Pessoas demais trabalharam no plano para que houvesse uma chance real de ocultá-lo dos espiões Golgari, mesmo com Lazav fazendo o seu melhor para eliminar os agentes de Vraska. "Deveríamos planejar uma luta difícil."

"Eu entendo", disse Aurélia. "Liderei nossas forças pessoalmente." Diante do olhar de surpresa de Ral, a anjo ergueu uma sobrancelha delicada. "Comprometi a Legião com a sua causa e levo minhas promessas a sério. Esta é a melhor maneira de garantir o sucesso."

"Embora lamente não poder me juntar à expedição", disse Dovin Baan, "nossos melhores soldados estarão com vocês."

"E eu estarei lá, é claro", disse Kaya, inclinando-se para frente. "Francamente, eu poderia usar um pouco de ação."

"Certo, então", disse Ral. "Amanhã."

E se a Vraska se mostrar, terei a chance de pregar a cabeça traidora dela na parede.

11 de Setembro de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 14

A cidade de Grek’ospen era antiga para os padrões da Subcidade. Os domínios dos Golgari estavam em constante mudança, sempre renovados, tudo reciclado e renascido através do ciclo da podridão. Essa era uma das coisas que tornava tão difícil para os habitantes da superfície atacá-los — nenhum mapa dos domínios do Enxame permanecia preciso por muito tempo.

Mas em Grek’ospen, os kraul haviam dobrado esse ciclo de decadência aos seus próprios fins e feito da necessidade uma virtude. Um rio corria pelo centro da enorme caverna e o ar era pesado de umidade, que se coletava e gotejava sobre inumeráveis estalagmites e estalactites. Com o trabalho cuidadoso de séculos, os kraul haviam incentivado essas formações rochosas naturais a crescerem de acordo com seu próprio plano, formando os ossos de suas maciças torres-colmeia. Crescimentos fúngicos também faziam parte das plantas, enormes cogumelos de prateleira servindo como pisos esponjosos, enquanto crescimentos coloridos e decorativos subiam pelas paredes feitas de resina kraul.

Ver Grek’ospen e cidades como ela fez Vraska perceber pela primeira vez o quanto admirava os kraul. Eles personificavam o verdadeiro espírito dos Golgari, muito mais do que os decadentes devkarin. Kraul individuais vinham e iam, mas a colmeia perdurava, crescendo pouco a pouco através de cada ciclo de crescimento e decadência.

E agora vamos demolir o trabalho de séculos em poucas horas, porque Ral Zarek não consegue deixar as coisas em paz.

"Seu povo está posicionado?" perguntou ela a Mazirek.

O enorme kraul preto estava de um lado dela, oposto à pequena e doentia forma branca de Xeddick. Mazirek baixou os membros anteriores em obediência, mas houve uma hesitação que ela não precisava ser um inseto para interpretar. Xeddick tem razão. Este aqui se tornou orgulhoso demais.

"Estamos, Rainha", disse ele. "Tudo aguarda o seu comando."

Os habitantes da superfície estão a caminho, disse Xeddick em sua mente. Os trolls estão zangados por serem contidos.

"Eles terão sua vez." Quase certamente. Vraska empertigou os ombros e caminhou para o espaço aberto que formava o centro da bela cidade kraul. Se o Ral for tão teimoso quanto eu penso.

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Mais uma vez, Ral encontrava-se à frente de um exército. Estes não eram, porém, as tropas blindadas e disciplinadas da Legião Boros. As forças Orzhov eram uma massa fervilhante de preto e dourado, obedientes mas sem a precisão suave dos soldados profissionais. A maioria deles era de thrulls, coisas rastejantes que eram apenas vagamente humanoides, não havendo dois exatamente iguais. Não portavam armas, apenas máscaras sem expressão feitas de moedas antigas, mas Ral estivera na ponta receptora de sua fúria insana em seu assalto a Orzhova e não tinha ilusões sobre quão perigosos eram.

Entre eles caminhavam os cavaleiros, os assassinos de elite dos Orzhov, em armaduras pretas com detalhes em ouro e carregando uma variedade desconcertante de armas — arcos, espadas, armas de haste, mangas e engenhocas ainda mais exóticas. Havia até alguns gigantes, de elmo e sem rosto.

Kaya caminhava ao seu lado, aparentemente despreocupada, conforme seguiam pelo longo e sinuoso caminho para as cavernas. Batedores haviam limpado o caminho, é claro, e não relataram contato com as forças Golgari. Mesmo assim. Ela poderia ter a decência de agir um pouco nervosa. Ele certamente estava.

"E isso continua para sempre?" perguntou Kaya, gesticulando para o túnel.

Era alguma estrada antiga, com as paredes em ruínas de edifícios ainda visíveis ao lado dela, agora enterradas sob rocha e detritos por sabe-se lá que catástrofe. Após dez mil anos, Ravnica era uma cidade construída sobre as ruínas de si mesma, camada por camada.

"Até onde se sabe", disse Ral. "Existem oceanos aqui embaixo, se você cavar fundo o suficiente. Os zonots Simic estendem-se até lá."

"Deuses e monstros", disse Kaya, balançando a cabeça.

"Não muito parecido com o lugar onde você cresceu?" perguntou Ral.

Kaya bufou. "Nasci em uma cidade com menos de cem pessoas. Temos cidades no meu plano, mas não como esta."

Ral tentou imaginar aquilo, viver em um lugar onde você pudesse conhecer todos, sem nada do anonimato casual de uma rua apinhada. Sua mente rebelou-se.

"Note que andei circulando um pouco desde então", disse Kaya. "Passei muito tempo em cidades, na verdade. Elas tendem a ter muitos fantasmas."

"Caça a fantasmas é um negócio curioso", disse Ral.

"Algum dia te conto como comecei", disse Kaya. "Mas é uma longa história e acho que estamos quase lá."

Ral assentiu. À frente estava uma linha de batedores, goblins da Legião Boros levemente armados com bestas penduradas em um ombro. A estrada que seguiam passava por um portal de tijolos meio desmoronado para um espaço maior e eles haviam parado no lado de cá. O tenente deles correu até Ral.

"Estamos no lugar certo", disse ela. "Ainda nenhum sinal dos Golgari, mas a caverna é tão urbanizada quanto qualquer bairro na superfície. Muitos lugares para se esconder."

"Maravilhoso", disse Ral, olhando para Kaya. "Isso pode ficar muito feio."

"Mande os thrulls", disse ela. "É para isso que eles servem."

Ral assentiu, mas a batedora falou.

"Há alguém esperando no centro da cidade, senhor. Parece que estão esperando para falar com o senhor. É . . . bem, parece ser a própria Vraska."

"Isso tem que ser uma armadilha", disse Kaya.

"Ou uma oportunidade", disse Ral. "Tudo bem. Vou ver o que ela quer. Traga o restante de nossas forças atrás, mas tente não começar nenhuma briga até receber meu sinal."

Kaya pareceu querer objetar, mas apenas franziu a testa e assentiu. Ral gesticulou para que um par de batedores o seguisse e partiu pelo portal. Grek’ospen era tão grande quanto ele esperava, uma vasta caverna abobadada, fracamente iluminada por dezenas de globos verdes brilhantes suspensos no alto. A arquitetura era alienígena, rocha lisa e fungo úmido cobertos com uma substância papirácea que o lembrava de uma colmeia. As torres imponentes tinham entradas em muitos níveis, conectadas por pontes elevadas ou simplesmente abrindo-se para o espaço. Tudo bem, suponho, se você tiver asas.

O tenente conduziu-o por um caminho sinuoso, contornando a base de várias torres. Nada parecia se mover, nem no chão nem no alto. Vraska deve ter evacuado. Ele respirou fundo. Se ela oferecer nos deixar ficar com o nó, tenho que aceitar e ser grato. Por mais ansioso que estivesse para punir a traição dela, isso poderia esperar. Completar o plano é tudo o que importa, até que Bolas seja derrotado.

Chegaram à clareira central, onde meia dúzia de torres se abriam para um espaço que poderia ter sido uma praça municipal. Um rio estreito a cortava, borbulhando em seu curso, com uma dezena de pequenas passarelas cruzando-o. À frente destas estava Vraska, vestida em uma armadura escura de couro e malha segmentados, com um sabre ao lado. As gavinhas verdes que as górgonas ostentavam no lugar do cabelo destacavam-se de seu crânio, fazendo-a parecer maior.

"Fique aqui", disse Ral. "Se ela tentar qualquer coisa, volte até a Kaya e ordene o ataque."

O tenente assentiu e Ral partiu sozinho pela praça. Vraska esperou, de braços cruzados, até que ele parasse a cerca de vinte passos de distância. Ela elevou a voz e o chamou.

"Um pouco longe para uma conversa agradável, certamente."

"Dados os resultados da cúpula das guildas", disse Ral, "você me perdoará se eu não estiver ansioso para um encontro cara a cara."

"Que pena", disse Vraska. "Com esse seu cabelo, você faria uma bela adição ao meu jardim de esculturas."

Ral fechou os punhos, sentindo a eletricidade estalar. Seu coração batia forte. Ele sabia em primeira mão quão mortal Vraska podia ser, mesmo sem ter visto o que ela fizera com alguém tão poderoso quanto Isperia. Ela tem que estar perto para usar sua petrificação. E um pouco de pesquisa na biblioteca Izzet sugerira que havia um aviso momentâneo antes que o efeito fizesse efeito, um brilho nos olhos da górgona que dava à vítima potencial tempo para sair do caminho. Mesmo assim, Ral não estava ansioso para testar seus reflexos contra Vraska.

"Bem?" disse ele. "Assumi que você estava esperando aqui porque queria que eu viesse conversar. Aqui estou."

"Aqui está você, com seu estranho pequeno exército", disse Vraska. "Mas por quê? Vingança?"

"Deveria ser", disse Ral. "Como você pode trabalhar para o Bolas? Não sabe o que ele fará com você — com todos nós — se ele vencer?"

"E você está tão confiante de que o Niv-Mizzet será um déspota benevolente, uma vez que lhe concedamos permissão para se transformar em um deus?" Vraska balançou a cabeça, os tentáculos agitando-se. "Não tenho que me explicar para você, Zarek."

"Não tem." Ral fez uma pausa. "E não estamos aqui por vingança. Algum dia, poderá haver um acerto de contas. Mas por enquanto tudo o que precisamos é deste lugar." Ele acenou para a cidade ao redor deles. "Não interfira e ninguém do seu povo será ferido."

"Isso é tudo o que você precisa. Uma das cidades mais antigas dos Golgari. Tão generosos, vocês habitantes da superfície."

"Então você planeja lutar."

Vraska sorriu, os dentes afiados e predatórios. "Eu planejo vencer."

Ela ergueu uma mão. Ral levantou as manoplas, preparando-se para uma investida súbita, mas a górgona não se moveu. Em vez disso, lá no alto, ele ouviu o som de um trovão distante e o chão da caverna estremeceu sob seus pés. Ral olhou por cima do ombro para os batedores e encontrou-os tropeçando e incertos.

"O que—" ele gritou para eles e então o teto caiu sobre eles.

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Bolas de fogo floresceram por Grek’ospen, torre após torre.

Certos tipos de resina kraul, quando devidamente tratados, eram altamente explosivos. A substância era pesada e instável demais para servir como arma, mas os engenheiros kraul de Vraska tiveram tempo de sobra para posicioná-la antecipadamente, transformando sem reclamar sua própria cidade antiga em uma armadilha mortal cuidadosamente construída. As explosões enviaram jatos de resina jorrando pelos portais das torres, seguidos por nuvens de poeira e fumaça preta sufocante. Então, lentamente, os edifícios de resina e fungo começaram a colapsar, seus núcleos de pedra estilhaçados.

Duas das maiores caíram sobre o portal que as forças da superfície usaram para entrar na cidade, prendendo muitos deles no túnel. Se os trolls lembrassem suas instruções, a explosão era o seu sinal e Vraska tinha toda esperança de que a retaguarda de Ral se encontraria cercada por uma massa de monstruosidades famintas e regenerativas. Enquanto isso, as torres desabavam por toda a cidade, espalhando fragmentos de pedra e fungo, bloqueando ruas e separando as forças inimigas em cem pequenos bolsões. Isolados uns dos outros e de seus líderes, seriam presas fáceis para as tropas Golgari que fervilhavam de cada túnel e fenda.

E falando em líderes . . . Vraska mantivera-se de pé e seus engenheiros providenciaram para que nenhuma das torres esmagasse a praça central. Poeira e fumaça enchiam o ar, mas ela conseguia ver Ral recuando, na companhia de um de seus batedores. Vraska sacou seu sabre com um sorriso feroz e partiu atrás dele.

O segundo batedor, uma mulher goblin na armadura de prata dos Boros, barrou seu caminho e Vraska esquivou-se de uma flecha bem mirada. A batedora encaçapou outra e Vraska retesou-se para desviar, mas antes que a soldada Boros pudesse disparar, cambaleou para o lado. O arco caiu de suas mãos enquanto ela agarrava a garganta, o rosto tornando-se de um azul-escuro feio. Com um arquejo sufocado, ela desabou, as pernas chutando a terra. Mazirek saiu da fumaça ao lado de Vraska, seus membros anteriores ainda envoltos em auras tremeluzentes de magia da morte. Xeddick aproximou-se pelo outro lado e ela sentiu a preocupação dele pressionar sua mente.

"Estou bem", rosnou ela. "Venham. Vamos atrás do Zarek."

Kraul zumbiam pelo ar ao redor deles conforme avançavam pela cidade recém-estilhaçada, bandos dos grandes insetos mergulhando e descendo sobre os habitantes da superfície onde quer que os encontrassem. Dardos de besta subiam e a magia explodia e estalava. Vraska ouviu os gritos de guerra dos elfos devkarin lançando-se na batalha, desesperados para provar sua lealdade à sua nova rainha, e as entonações sombrias dos sacerdotes-guerreiros Orzhov.

Não havia nada que ela pudesse fazer agora, nenhum controle que pudesse exercer sobre a batalha. Aquilo estava ótimo, no que lhe dizia respeito. Ela nunca fora uma general, uma líder.

O que eu sou, pensou ela, enquanto perseguia Ral pelos escombros, é uma assassina.

Soldados inimigos, isolados e confusos, lançavam-se contra ela. Uma dúzia de thrulls fervilhou de um portal quebrado. Mazirek explodiu vários deles e Vraska investiu contra os demais, o sabre girando ao seu redor em uma exuberante dança da morte. Ela deixou as criaturas inumanas retalhadas e quebradas na pedra, o sangue delas pintando os destroços, e partiu em busca de mais presas.

Fui uma tola.

Um cavaleiro Orzhov a confrontou, um homem enorme com uma montante que deixava rastros dourados brilhantes no ar. Ele era uma coisa lenta e pesada, mas sua armadura pesada desviou o sabre dela em uma chuva de faíscas e ele pressionou o ataque com confiança, a lâmina maciça balançando de volta em direção a ela.

Uma tola por acreditar no Zarek. Por confiar no Jace. Por acreditar no que ele me disse sobre mim mesma.

Vraska abaixou-se, deixando a montante cortar tão perto que atingiu uma de suas gavinhas. Assim que passou, ela ergueu-se dentro do alcance do homem e deixou o poder acumular-se atrás de seus olhos. O brilho lavou sobre ele e ele ficou rígido em uma pedra cinza sólida e sem vida. Ela girou para longe dele, rindo.

Para isto fui feita. Ela espreitava através da fumaça e poeira, deixando a morte em seu rastro. Isto é o que eu sou.

O Bolas sabia disso o tempo todo. Eu apenas . . . me esqueci de mim mesma.

Esqueceu-se de si mesma?, a voz de Jace flutuou de sua memória. Ou descobriu que tinha uma escolha?

Cale. A. Boca. O sorriso de Vraska transformou-se em um rosnado fixo e ela avançou, desmembrando outro bando de thrulls e retalhando o sacerdote que os acompanhava em pedaços sangrentos. Eu nunca deveria ter te ouvido. Nunca deveria ter . . .

Cabum. Algo sacudiu o chão novamente. Mais cargas?

Ela parou subitamente em uma brecha na parede de uma torre caída. Dali, através de vãos na fumaça flutuante, conseguia ver a maior parte da cidade, incluindo o portal por onde os habitantes da superfície entraram. Estava solidamente bloqueado por pedaços de pedra e detritos fúngicos, mas enquanto ela observava, um pedaço grande de rocha foi arremessado para longe do bloqueio, aterrissando com um crunch e uma pluma de poeira. Outro seguiu e mais outro. Algo está limpando o caminho.

O que passou pela brecha, quando o vão foi grande o suficiente, era maior que um gigante, caminhando sobre sete pernas finas, com dois braços maciços terminando em punhos enormes e um terceiro que projetava algum tipo de tubo. Ele girou este último para mirar perto de seus pés e uma labareda de fogo irrompeu, correndo sobre as pedras estilhaçadas como líquido. Na cabeça da coisa, formas menores dançavam e saltitavam de alegria.

Não era uma criatura, Vraska percebeu. Era uma coisa, um constructo, mizzium e aço montados em uma titânica máquina de matar em alguma oficina de quimista louco. E não era o único. Assim que limpou a entrada, outro veículo enorme passou, este roncando sobre o chão em esteiras sobrepostas. Um terceiro, bípede, cambaleou atrás dele, sua parte superior já em chamas, para a consternação de sua tripulação goblin. Depois outro e outro . . .

O rosnado de Vraska ampliou-se. Ela baixou o olhar e viu Zarek, parado sobre um pedaço de rocha quebrada, observando a chegada de seus reforços com um olhar de satisfação presunçosa.

Vou apagar esse olhar do seu rosto. Banindo a memória de Jace para o fundo de sua mente, Vraska lançou-se à frente.

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Os constructos de guerra de Nivix passaram pela brecha, sobre pernas, rodas e esteiras. Ral esvaziara os laboratórios de tudo o que pudesse servir como arma, cada projeto de fim do mundo e segredo oculto. Eram um grupo heterogêneo, não trabalhando juntos nem um pouco, e vários deles já haviam quebrado, pegado fogo ou explodido. Mas os que restavam eram devastadores, vomitando fogo sobre as hordas Golgari em avanço, varrendo-as para o lado com membros vastos ou retalhando-as em pedaços com cem lâminas rotativas.

Ao menos uma coisa saindo conforme o plano. Ele não esperava que Vraska explodisse sua própria cidade apenas para lançar suas forças em confusão. Ele tossiu no ar sufocado de fumaça e limpou a testa — uma farpa de rocha o atingira, enviando um fio constante de sangue de sua linha do cabelo e ameaçando entrar em seus olhos.

O que deveria ter sido uma batalha organizada fragmentara-se em cem pequenos combates e não havia como dizer quem estava ganhando e quem estava perdendo. Ral concluiu que seria melhor voltar para o túnel — Talvez eu consiga encontrar a Kaya — quando ouviu passos se aproximando. Ele girou, bem a tempo.

Vraska. Ela era rápida, mais rápida do que tinha qualquer direito de ser, saltando de um muro de pedra quebrado e vindo em sua direção em uma corrida desenfreada, as gavinhas flutuando atrás dela. Ral ergueu uma palma e o relâmpago estalou, avançando contra ela como um cão vicioso. Ela esquivou-se, então saltou para trás conforme ele enviava outro raio atrás dela.

"Mazirek!" gritou ela. "Agora!"

Algo moveu-se nos escombros. Um humanoide — não, um ex-humanoide, o cadáver de uma pessoa agora apodrecido até restos de pele e ossos. Crescimentos fúngicos mantinham a coisa unida e ela arrastava-se para frente em uma paródia de vida, desintegrando-se mesmo enquanto avançava. Zumbi de podridão. Ral estalou os dedos e explodiu a coisa de movimento lento em cinzas ardentes, mas mais duas já haviam emergido, escalando sobre as rochas quebradas e pedaços de fungo do tamanho de casas. Ele queimou essas também e deu um passo atrás enquanto meia dúzia daquelas coisas entrava em vista.

"O negócio é o seguinte, Ral: eu te conheço." A voz de Vraska veio de algum lugar que ele não conseguia ver, entre os escombros. "Conheço suas forças e conheço sua fraqueza. Estamos longe do céu aqui embaixo. Sem energia para você extrair. E você tem esse acumulador nas suas costas, mas . . ." Ela deu uma risada sombria. "Quanto tempo ele vai durar?"

"O suficiente", rosnou Ral, enquanto seu relâmpago percorria a linha de mortos-vivos. Espero.

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Kaya esquivou-se do punho oscilante do troll, suas adagas desenhando linhas de sangue verde no antebraço dele. Ele rugiu e girou para segui-la, o ferimento já cicatrizando. Kaya praguejou entre dentes e recuou, esperando por uma oportunidade.

Ela veio quando o troll investiu para frente, com ambos os braços estendidos para envolvê-la em um abraço de urso mortal. Kaya deu um passo lateral, atravessando o braço esquerdo do troll na fase e cravou uma de suas adagas no ombro dele. Usando a lâmina como apoio, ela saltou sobre a criatura horrorosa, agarrando a juba de pelos emaranhados na nuca de seu pescoço grosso. Usou a alavancagem para inclinar-se para frente e cravar sua outra adaga até o cabo no olho dele.

O troll empinou-se e rugiu e por um momento ela pensou que ele sobreviveria até a isso, mas eventualmente ele entendeu o recado de que estava morto e desabou para frente no chão rochoso. Kaya desmontou, recuperou suas adagas e olhou ao redor.

Havia uma falta preocupante de forças aliadas em qualquer lugar por perto, ela descobriu. Tinha um par de cavaleiros e um esquadrão de thrulls escoltando-a, mas o troll deixara seus cadáveres quebrados espalhados pelo beco estilhaçado. Por outro lado, também não havia inimigos imediatamente aparentes. A batalha principal parecia estar se concentrando na entrada do túnel, onde os constructos Izzet estavam retalhando a horda Golgari, mas havia destacamentos esparsos de soldados Orzhov, kraul voadores e sabe-se lá o que mais lutando escaramuças desesperadas por toda a cidade. Kaya viu relâmpagos brilhando de um afloramento rochoso a certa distância, o que provavelmente significava Ral, e decidira seguir naquela direção por falta de melhores opções quando alguém a chamou.

"Mestre da Guilda!" Uma mulher nas cores de um sacerdote Orzhov saltou de um muro meio destruído. "A senhora está ferida?"

"Apenas alguns arranhões", disse Kaya, dando um giro em suas adagas e guardando-as. "Estou bem perdida, porém. Onde estão os outros comandantes?"

"O Cavaleiro do Desespero me enviou para encontrá-la", disse a sacerdotisa, com uma reverência. "Ele assumiu o comando quando a senhora foi isolada."

"Bom para ele", disse Kaya.

"Deveríamos voltar o mais rápido que pudermos." A sacerdotisa gesticulou para uma brecha nas rochas. "Por aqui. Podemos ficar longe das forças inimigas."

Kaya assentiu. A sacerdotisa empertigou-se conforme ela se aproximava—

E ela não deveria estar liderando o caminho, em vez de ficar me acenando para seguir em frente como um lacaio do palácio?

Pensamentos desagradáveis e suspeitos como esses desempenharam um papel importante em manter Kaya viva todos esses anos e provaram seu valor novamente, porque ela já estava se esquivando para o lado quando o aço brilhou nas mãos da sacerdotisa. Estava perto demais para evitar o golpe inteiramente, mas o que pretendia ser uma estocada no rim transformou-se em um corte raso ao longo de suas costelas, sangrando livremente mas não seriamente.

Kaya dançou para trás, sacando suas próprias adagas das bainhas. A sacerdotisa passou a faca pequena para a mão esquerda e sacou uma lâmina maior com a direita, baixando-se em uma posição de combate. Observaram-se por um longo e cauteloso momento.

"Não suponho que eu consiga te convencer de que esta é uma má ideia", murmurou Kaya.

"Você é uma praga nos Orzhov", siseou a mulher. "Você deve ser removida."

"Imaginei que não."

Kaya investiu, pegando sua oponente desprevenida. Mesmo assim, a mulher era boa, oferecendo sua lâmina maior como uma finta enquanto tentava atingir o flanco de Kaya com a arma menor. Kaya girou para fora do caminho, circulando, mas a sacerdotisa recuou com um corte que teria aberto as entranhas de Kaya se ela tivesse avançado demais. Elas se enfrentaram novamente, as facas brilhando.

Não tenho tempo para isto, pensou Kaya. O ferimento em seu lado doía para burro e sua camisa estava empapada de sangue. Ao redor deles, kraul zumbiam pelo ar, flechas voavam e a magia estalava e explodia.

Ela investiu de novo e desta vez, quando a sacerdotisa golpeou com sua lâmina longa, Kaya atravessou direto por ela na fase. Seu corpo, brilhando com energia roxa, passou pelo da outra mulher como os fantasmas que eram as presas de Kaya e, assim que passou, ela rematerializou-se e baixou-se em um chute giratório baixo que ceifou as pernas da sacerdotisa e a enviou ao chão. Kaya rolou sobre ela, uma bota descendo com força sobre a mão da mulher onde ela ainda segurava sua pequena faca, uma das lâminas de Kaya pressionada com força contra a garganta de sua oponente.

"Agora", disse Kaya. "Para quem você está trabalhando? Qual de meus oh-tão-leais companheiros de guilda me quer morta?"

"Importa?" a sacerdotisa cuspiu de volta, os olhos desafiadores. "Quando te matarmos, capturaremos seu espírito e o manteremos em nossas masmorras para torturar até que não reste nada de você senão loucura e dor—"

Os olhos da mulher saltaram e suas costas arquearam. Um momento depois, o sangue jorrou de sua boca e olhos e ela desabou inerte sobre a rocha. Kaya sentiu um vestígio persistente de magia da morte dissipar-se ao vento.

"Maravilhoso", disse ela em voz alta, rolando exausta para fora do cadáver. Levantou-se com dificuldade, guardou as adagas e começou a caminhar na direção dos lampejos quase contínuos de relâmpagos. "Simplesmente maravilhoso."

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#linebreak A última onda de zumbis de podridão chegou mais perto do que qualquer uma das outras, mãos com garras esgaratando as roupas de Ral conforme o encurralavam contra uma rocha caída, novos rostos decompostos pressionando enquanto ele queimava um após o outro. O relâmpago estalava ao seu redor como as barras de uma gaiola, jorrando em golfadas de suas mãos e os mortos desmoronavam e entravam em combustão sob as forças daquilo. Olhos ferviam e explodiam, a pele enegrecia, ossos podres estilhaçavam. Mas eles continuavam avançando e ele conseguia sentir o poder em seu acumulador ficando baixo, como uma sensação de enjoo em seu estômago.

"Acho que já chega", disse Vraska. A cortina de zumbis de podridão abriu-se e a górgona caminhou para frente, mãos nos quadris, o grande kraul preto à sua direita e o menor branco à sua esquerda. "E então, Zarek? Sente vontade de se render? Eu posso ser misericordiosa, você sabe."

Ral lutava por ar, com uma pontada dolorosa no lado e ergueu as mãos novamente. O poder estalou nelas, mas fracamente. Um arco de energia o conectou a Vraska e ela encolheu-se por um momento, depois deu de ombros enquanto ele desaparecia.

"Como eu pensei." A górgona deu um passo à frente. "Acho que vou adicionar você à minha coleção."

Seus olhos começaram a brilhar.

"Você não fará tal coisa, traidora!"

A voz trovejou do alto e Vraska saltou para trás, sacando seu sabre. Um momento depois, Aurélia atingiu a terra em frente a Ral, a força de seu mergulho explodindo em uma onda de choque que rachou a pedra e fez os dentes de Ral zumbirem. A anjo permaneceu de pé, encarando a górgona, e estendeu a mão. Uma longa lâmina feita de pura luz tomou forma.

"Tive minhas diferenças com Isperia", disse Aurélia. "Não posso negar. Mas também não posso negar o compromisso dela com o bem comum, com a defesa de Ravnica, apesar de quaisquer argumentos filosóficos que pudessem ter nos dividido. Ela confiou em você e a convidou para nossa reunião de boa-fé. Você voltou aquela confiança contra ela." A anjo nivelou sua lâmina para Vraska. "Por isso, não posso perdoá-la."

"O bem comum", Vraska rosnou. "Que conforto isso é para todos que foram jogados em uma gaiola e espancados sob as ordens dela."

Aurélia abriu as asas e fechou a distância entre elas com uma única batida poderosa. Vraska manteve sua posição, sua lâmina de aço interceptando a mágica da anjo com um som de unhas em vidro. A habilidade de Vraska com seu sabre era evidente, mas Aurélia era muito mais forte e, passo a passo, a górgona era empurrada para trás. A anjo lutava com uma eficiência calma que desmentia a fúria de suas palavras, martelando a defesa de Vraska, dardejando para fora do alcance sempre que os olhos da górgona se iluminavam com seu olhar petrificante.

No fim, foi o sabre na mão de Vraska que não aguentou mais. Ela parou, transversalmente, e a arma estilhaçou, fragmentos de aço ricocheteando nas rochas ao redor. Vraska tropeçou para trás, de olhos arregalados, suas gavinhas contorcendo-se, um longo corte em uma bochecha sangrando verde.

"Mazirek!" gritou ela, recuando enquanto Aurélia avançava.

Mas foi o kraul albino que apareceu, cortando entre a górgona e a anjo. Ral sentiu a voz daquela coisa ecoar em sua mente, alta o suficiente para enviá-lo de joelhos em agonia.

NÃO!, o telepata kraul disparou. Corra, amiga-Vraska! #linebreak "Xeddick!" Vraska gritou, mãos tapando os ouvidos em uma tentativa inútil de manter fora o grito telepático.

Apenas Aurélia resistiu ao assalto mental, inclinando-se para frente como alguém caminhando contra os dentes de uma tempestade. Ela deu um passo à frente, depois outro, as asas totalmente estendidas. O kraul branco focou nela, redobrando seu ataque e, por um momento, a anjo parou.

Corra, comandou a voz mental. Por favor. #linebreak Vraska praguejou violentamente e lançou-se sobre a barreira rochosa mais próxima, desaparecendo de vista exatamente quando Aurélia deu mais um passo à frente. Sua lâmina de luz desceu, partindo a cabeça do kraul branco em duas em uma explosão de icor. O inseto desabou e a pressão mental desapareceu de uma vez, deixando Ral ofegante em busca de ar. Sua visão ficou cinza por um momento. Quando clareou, Aurélia estava à sua frente, estendendo uma mão.

18 de Setembro de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 15

"Não pode ser feito, Mestre Zarek." O capataz era corpulento e tinha bigodes de morsa, com uma cabeça calva reluzente e braços como troncos de árvore. "Os trabalhadores já estão dormindo em pé. O senhor não tem ideia de quão difícil é levar o equipamento até lá embaixo. Não há guindastes ou trenós suficientes e nossos transportadores odeiam o cheiro, então temos que carregar as peças à mão—"

"Não existe essa coisa de 'não pode ser feito'", disse Ral. "Existe apenas motivação insuficiente. Diga à Quimista Frexus lá embaixo que eu disse que você poderia usar os constructos dela para transportar as peças. Eles não objetarão ao cheiro."

"Mas os constructos dela explodem se as caldeiras ficarem quentes demais! Eu estava em uma reunião sobre isso na semana passada."

"Um incentivo para mover as coisas rápido, então!" Ral deu-lhe um sorriso. "Quanto aos trabalhadores, diga-lhes que dobrarei seus salários se instalarem o ressonador no prazo."

"Er . . ." O capataz limpou a testa. "Acredito que lhes prometeram o dobro . . ."

"Então este seria o quádruplo da taxa habitual, não seria?" Afinal, se perdermos, não é como se tivéssemos que pagar. Ral permitiu-se um momento de diversão com o pensamento de trabalhadores agravados apelando a Bolas por seus salários perdidos.

"Ah. Eu. Uh." O homenzarrão deu um sorriso trêmulo. "Isso . . . isso se aplica ao . . . pessoal de supervisão também, mestre?"

"Se o ressonador for terminado e estiver em ordem de funcionamento no prazo."

"Será, Mestre Zarek." O capataz empertigou-se. "Conte com isso."

"Estou contando." Todos estamos.

Ele retornara da Subcidade abatido e abalado, mas houve tempo apenas para um breve descanso antes que o projeto oniconsumidor exigisse sua total atenção novamente. Uma equipe de guardiões e magos da lei Azorius fora trabalhar imediatamente, erguendo barreiras mágicas ao redor do local do ressonador subterrâneo para conter quaisquer contra-ataques Golgari. Tropas Boros e Orzhov permaneciam no local também, trabalhando inquietamente lado a lado. Mas era o seu próprio povo que tinha a tarefa de construir o próprio ressonador e alinhá-lo com a rede em expansão.

Mais três dias. Era o que precisavam. Três dias e Niv-Mizzet será capaz de colocar seu plano em ação. Se isso seria suficiente para deter Bolas com certeza, apenas a Mente de Fogo sabia, mas pelo menos Ral teria feito tudo o que podia. Se o Bolas nos der três dias . . .

Lavínia fora seu melhor elo com o progresso dos planos de Bolas, mas ele não a via desde a desastrosa cúpula das guildas. Isso era provavelmente ruim, mas ele não tinha tempo para enviar uma busca. Ela pode cuidar de si mesma, isso é certo. Exceto que, contra Bolas, nada era certo—

"Mestre Zarek?" Uma voz goblin vinda do corredor. Ral olhou para cima e encontrou um de seus secretários particulares espiando pelo batente da porta.

"O que é?" Ral disparou.

"Há alguém que insiste em vê-lo. Ele diz que é urgente."

"Tudo é urgente", disse Ral.

"Ele diz que o senhor o verá", disse o goblin. "O nome dele é Tomik?"

Tomik está aqui? Eles nunca haviam se encontrado no Nivix. Ele deveria saber que não deve—

"Deixe-o entrar", disse Ral secamente, deixando sua caneta de lado.

Um momento depois, Tomik entrou, fechando a porta atrás de si. O amante de Ral parecia exausto, como costuma estar ultimamente. Seus olhos estavam encovados e seu cabelo era uma bagunça. Ral equilibrou uma onda de irritação por Tomik se intrometer ali com um desejo de tomar o outro homem em seus braços.

"Sempre pensei que seu escritório seria um pouco . . . mais grandioso", disse Tomik, olhando ao redor da pequena suíte encardida. "Sem ofensa."

"Não passo muito tempo aqui, normalmente", disse Ral. "As últimas semanas foram . . . uma exceção."

"Você não veio me ver depois que voltou da Subcidade."

"Enviei-lhe um bilhete", disse Ral, sentindo uma pontada de culpa. "Você sabe quão crítico é o tempo."

"Eu sei", disse Tomik. "Eu apenas—queria falar com você sobre uma coisa."

"Algo que não pode esperar até depois do potencial fim de Ravnica?" perguntou Ral.

Tomik revirou os olhos. "Isto não é pessoal. Eu sei que não é o momento. São . . . bem. Negócios da guilda."

"Entendo." Ral recostou-se em sua cadeira. "Tudo bem. O que há de errado?"

"É a Kaya. E a Teysa. Eu acho . . ." Ele respirou fundo. "Acho que a Teysa está cometendo . . . um erro."

"Como assim?"

"A Kaya está mudando as coisas. Para melhor, eu acho. Há coisas que os Orzhov fazem que . . . todos nós tentamos ignorar às vezes, mas ela se recusa a ignorá-las."

"E a Teysa não aprova?"

"Ela não aprova. E nem os outros líderes de guilda."

"Há algo que possam fazer a respeito?"

"Acho que vão matar a Kaya."

"Ah." Ral tamborilou os dedos na mesa. "E se ela morrer, quem se torna mestre da guilda?"

"Quase certamente a Teysa."

"E ela continuará a apoiar nosso projeto?"

Os olhos de Tomik estreitaram-se. "É só com isso que você se importa?"

"É tudo com o que posso me permitir importar", disse Ral. "Você sabe quão importante isto é. O que o Niv-Mizzet confiou a mim."

"Mesmo que signifique deixar a Kaya morrer?"

Ral deu de ombros. "Pensei que você trabalhasse para a Teysa."

"Eu trabalho", disse Tomik. "E a Teysa trabalhou toda a vida para sair da sombra do avô. Se ela fizer isso . . . acho que ela nunca escapará dela."

"E o que você quer de mim?"

"Não sei." Tomik olhou para baixo. "Não tinha planejado tão longe. Só achei que a Kaya fosse sua amiga."

"Ela é minha aliada", disse Ral. "Não é o mesmo."

"Entendo." O lábio de Tomik apertou-se. "E quanto a mim? Sou um aliado também?"

"Claro que não." Ral levantou-se atrás de sua escrivaninha. "Tomik, você sabe que—"

"Esquece." Tomik virou-se para a porta. "Vou resolver isso sozinho."

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Quando Kaya retornou a Orzhova, todos fizeram os barulhos certos, mas ao aceitar as felicitações dos sacerdotes e seus assistentes, sua mente pintava fúria assassina atrás de cada sorriso falso. Escapara da multidão assim que pôde, retirando-se para sua opulenta suíte de aposentos no alto da catedral e recusando-se a ver qualquer pessoa. Teysa enviara vários mensageiros e Kaya os dispensara de imediato.

Isso não pode continuar. Por um lado, ela estava ficando com fome. Mas posso confiar em qualquer coisa vinda das cozinhas? Teria que deixar a catedral e encontrar um restaurante em algum lugar, escolhido aleatoriamente. E depois o quê, fazer a mesma coisa toda noite pelo resto da vida?

Isto não vai funcionar. Passara a vida evitando seus inimigos — e tivera muitos no curso de sua carreira — mantendo um perfil baixo e movendo-se sempre. Agora estou presa como chefe de uma igreja, com um chapéu grande e estúpido e um quarto chique que qualquer um consegue encontrar. Se os chefes dos Orzhov estivessem realmente determinados a matá-la, cedo ou tarde conseguiriam.

O que significa que eu deveria sair daqui. Poderia transplanar e arriscar o ricochete das correntes de dívida. Talvez a Teysa não saiba tanto sobre isso quanto finge saber. Outra opção seria escapar de Orzhova e se esconder em algum lugar. Talvez encontrar um mago da lei próprio. Ou pedir ajuda ao Ral, ou

Houve um farfalhar na porta da frente. Kaya sentou-se ereta na cama, o coração martelando, mas o único som foi o de passos silenciosos se afastando. Esperou até que tivessem sumido, então agarrou suas adagas na mesa de cabeceira e caminhou silenciosamente pelo tapete espesso.

O cômodo mais externo da suíte era para receber convidados, com uma pequena mesa e várias poltronas. A grande porta que dava para o corredor estava trancada, exatamente como ela a deixara, mas um pequeno quadrado dobrado de papel branco jazia à frente dela, onde alguém o empurrara pela fresta. Kaya perguntou-se se aquilo seria um ataque extremamente sutil — veneno no papel? — antes de decidir que nem ela era tão paranoica. Prendeu suas adagas e recolheu o bilhete.

Mestre da Guilda, dizia ele. A senhora está em perigo.

Nenhuma surpresa aí, pensou Kaya.

Os hierarcas convenceram Lady Teysa a mandá-la prender esta noite. Eles fizeram um rodízio na guarda para ter homens leais posicionados. Planejam capturá-la e mantê-la prisioneira até extraírem a dívida Orzhov da senhora por magia.

Kaya parou para praguejar entre dentes.

Posso ajudá-la, se conseguir chegar até mim. Estarei esperando nos estábulos, no primeiro subsolo.

         Atenciosamente,

         Um Amigo

Um amigo, pensou Kaya, que não está ansioso para botar o próprio pescoço em risco. Mas mal podia culpar seu benfeitor desconhecido. Se estão dispostos a prender a mestre da guilda, quem sabe o que fariam com qualquer um que quisesse ajudá-la.

A questão era, é claro, se confiava neste misterioso informante. Ou se isto é apenas um convite para uma armadilha? Por um momento ela hesitou, bilhete na mão. Então, como que enviado para forçá-la a se mover, ouviu o clomp de botas pesadas vindo do corredor.

"Mestre da Guilda?" A voz lá de fora era abafada, como que por um elmo fechado de cavaleiro.

Bem. Isso encerra a questão. Quando Teysa queria falar com ela, enviava um servo, não um guarda de armadura.

"Só um momento!" disse Kaya. Verificou as adagas nas bainhas, respirou fundo e atravessou o chão para baixo.

Esta era uma operação mais complicada do que às vezes parecia, envolvendo um tempo preciso para evitar cair mais do que o esperado e acabar parcialmente através do andar de baixo também. Como era do tipo paranoico, Kaya dera alguns passeios por Orzhova e confirmara que os aposentos logo abaixo dos seus eram os aposentos pessoais de algum hierarca, com bastante espaço vazio para ela aterrissar.

Ela esperava um velho chocado, possivelmente de roupão, mas nada que não pudesse resolver. O que não esperava eram pelo menos uma dúzia de soldados armados, todos esperando com armas em punho, com três magos de túnica parados nas extremidades da sala.

Oh, maldição. Tinha que ser a Teysa. Ela andou me vigiando de perto demais.

Não havia tempo para se preocupar com isso agora. Kaya aterrissou ao lado de um guarda que estendeu a mão para agarrá-la. Deixando os braços dele passarem por ela em um lampejo de luz roxa, ela abaixou-se e chutou o joelho dele e ele atingiu o chão em um estrépito de armadura. Outro homem aproximou-se, carregando um bastão e Kaya agarrou o braço dele pelo pulso quando ele tentou golpeá-la e torceu-o dolorosamente, empurrando-o por ela até o chão.

"Agora!" alguém chamou. "O vínculo!"

A energia vibrou pela sala enquanto os três magos erguiam as mãos. Luz estalou e sibilou ao redor de Kaya, um halo de roxo e azul retorcidos. Após um momento, ela detonou em uma explosão silenciosa, um clarão de radiância fantasmagórica que passou por todos na sala e deixou-os intocados.

Certamente já passou da hora de sair de aqui. Kaya tentou passar para a fase de impermeabilidade, mas a luz roxa que acompanhava sua transição era fraca e intermitente, cintilando em manchas pelo seu corpo por alguns instantes antes de apagar-se inteiramente. O chão sob ela permanecia aflitivamente sólido ao toque.

"Ela foi pega!" Uma mulher de cabelos prateados em um uniforme de tenente estava junto à porta. "Peguem-na! Lembrem-se, Lady Teysa precisa dela viva."

Maldição tripla. Aparentemente a Teysa transformara a aptidão Orzhov de prender espíritos em algo que funcionaria na própria Kaya. Provavelmente passaria, com o tempo, mas por enquanto isso a deixava cercada por soldados com bastões, fechando o cerco.

Ela precisa de mim viva, para que algum guarda aleatório não herde todos os contratos do Vovô Karlov. Mas não posso dizer o mesmo sobre eles. Sentiu uma pontada de culpa ao sacar as adagas — os guardas não tinham feito nada além de seguir ordens — mas apenas uma pontada leve. Não há outro jeito.

Eles investiram. Kaya esquivou-se do primeiro homem, cortou a garganta dele com precisão enquanto girava e transformou o movimento em um chute que enviou uma mulher tombando contra o homem atrás dela. Um guarda tentou golpear sua cabeça por trás e Kaya abaixou-se e girou novamente, enterrando uma adaga sob a axila dele onde a armadura era fraca. Arrancou-a e dançou em direção à porta. A tenente tentou barrar o caminho de Kaya com seu próprio porrete, mas Kaya esquivou-se sob o golpe e desferiu uma cotovelada no queixo da mulher, batendo seus dentes com um estalo. Ela cambaleou, cuspindo sangue, e Kaya escancarou a porta, atravessou-a e bateu-a atrás de si.

Ela tinha minutos, talvez menos, antes que o alarme se tornasse geral. Correu pelo corredor e, enquanto se movia, concentrou-se no braço. Ele cintilou brevemente em intangibilidade, mas o poder sumiu rápido. Então, nada de atravessar paredes por um tempo. Isso significava que estava presa dentro de Orzhova. O que significa que só há realmente um lugar para ir. Vamos esperar que eu consiga lembrar como encontrar os estábulos. Este lugar é um labirinto

"Ali!" alguém gritou. "Parem-na!"

À frente, dois guardas acompanhavam um cavaleiro de armadura, bloqueando uma junção em T. Eles baixaram as lanças e o cavaleiro sacou a espada — Aparentemente nem todos receberam o aviso para não me matar, maravilhoso — e claramente esperava que Kaya parasse subitamente. Em vez disso, ela avançou contra eles, encolhendo-se para evitar as pontas das lanças. O ímpeto de sua corrida lançou uma guarda contra a parede, tirando-lhe o fôlego. Ela desabou de lado e Kaya mergulhou, esquivando-se de um golpe descendente da montante do cavaleiro. Ele voltou sua arma para uma posição de guarda, mas ela já passara por ele e virou-se para continuar correndo. Vejamos se ele me acompanha com aquela armadura.

As escadas principais estavam à frente, uma série aparentemente interminável de espirais elípticas subindo pelo coração de Orzhova. O poço estava vivo com ruído, o tilintar de armaduras e o bater de botas conforme os guardas convergiam. Kaya atingiu o corrimão com o cavaleiro atrás dela em perseguição cerrada e a escadaria abaixo encheu-se com meia dúzia de soldados.

Isto é tão, tão estúpido. Em vez de parar, ela saltou sobre o corrimão, empoleirando-se por um momento no ferro forjado, equilibrada sobre centenas de metros de espaço vazio. O cavaleiro parou bruscamente em horror, observando-a oscilar. Kaya deu-lhe um tchauzinho, então deu um passo no vazio.

Colocou toda a sua concentração na mão enquanto caía, lance após lance de escada passando voando. Havia um truque para aquilo, tornar-se intangível na proporção e momento exatos para retardar sua descida pelo atrito com a parede, sem simultaneamente arrancar sua mão ao parar bruscamente. Não praticara muito, porque honestamente não era o tipo de coisa que se tentava com frequência. E o vínculo dos magos, fazendo cada tentativa de usar seu poder parecer como caminhaminhar por lama espessa, tornava tudo pior.

Mas a alternativa era acabar em uma pocinha muito pequena no piso de mármore no fundo das escadas, então Kaya conseguiu. Seu braço deu um solavanco doloroso ao agarrar cada lance para matar seu ímpeto, a dor disparando pelo ombro antes de ela deixar o braço desvanecer em intangibilidade e deslizar pela pedra para agarrar o próximo. O impacto, quando veio, ainda foi mais forte do que ela gostaria e algo em seu joelho pareceu estalar, seguido por uma onda de dor. Moveu-se mancando até a porta com painéis de madeira que levava aos níveis inferiores de Orzhova.

Mancando ou não, porém, deixara os guardas que a procuravam para trás por enquanto. O fundo da escadaria dava na parte pública do edifício, onde peticionários e penitentes do lado de fora podiam vir rezar, pedir dinheiro emprestado ou ambos. Kaya deslizou para uma galeria alta, envolta ao redor da nave central da catedral, e abriu caminho entre sacerdotes e funcionários Orzhov bem vestidos e seus suplicantes esfarrapados. Alguns a reconheceram, apesar de sua falta de um uniforme da guilda, e uma onda de murmúrios confusos espalhou-se em seu rastro.

Não importa. Ela empurrou seu caminho para outra escadaria larga, desviando entre curiosos, rumo à porta principal. Tenho que sair daqui e esperar este maldito vínculo passar. Então . . . Bem, poderia resolver isso depois. Por hora, longe é a chave.

Mais dois lances abaixo e ela estava à vista das portas principais, coisas maciças atualmente escancaradas. Uma multidão estava se formando em ambos os lados delas, porém, e Kaya podia ver um par de cavaleiros e uma falange de guardas posicionados através do portal. Três palpites sobre quem estão procurando. Ela virou-se bruscamente e seguiu na outra direção. Tudo bem. Estábulos, primeiro subsolo. Isso significa para baixo, certo?

Havia uma escadaria para baixo, estreita, à sua direita. Ela a pegou, passando por alguns funcionários uniformizados e emergiu em um corredor de serviço sem acabamento. Portas de madeira abriam-se de ambos os lados, mas Kaya continuou se movendo, raciocinando que os estábulos deveriam ser adjacentes à rua. Se eu chegar perto o suficiente, posso apenas seguir o cheiro. Estava prestes a virar uma esquina quando o tropel de pés calçados a fez congelar.

"Vão para o salão principal!" alguém gritou adiante. "Depressa!"

Kaya jogou-se contra a porta mais próxima, descobriu que estava trancada e ricocheteou. Concentrou-se intensamente, rangendo os dentes e enfiou a mão pela madeira, tateando do outro lado em busca de uma tranca. Seus dedos tateantes não encontraram nada e ela estava prestes a se extrair e sair correndo quando a porta deu um clique e abriu-se por conta própria. Kaya lançou-se para dentro do espaço escurecido, agradecida, e bateu-a atrás de si exatamente quando os sons de uma tropa de soldados passando vieram de fora.

Estava em algum tipo de depósito. Conseguia sentir cheiro de cera e óleo de lamparina e a fragrância suave do incenso que os penitentes queimavam para implorar perdão por seus pecados financeiros. Encostada na porta, esperando seus olhos se ajustarem ao brilho fraco que se infiltrava por baixo dela, Kaya lutava por ar.

Nas profundezas da penumbra, algo se moveu.

"Quem está aí?" Kaya ergueu as adagas e falou em um sussurro áspero. "Grite e eu corto sua garganta."

"Quanta gratidão", disse a voz de um homem. "Depois de eu abrir meu pequeno esconderijo para você."

"Não estou em um humor de confiança."

"Imagino que não." A sombra de um homem moveu-se na penumbra. "Você teve um dia difícil, Kaya."

Como—claro. O lábio de Kaya contraiu-se. "Bolas."

"Em carne e osso. Ou não, neste caso. Mas aqui para verificar como você está, de qualquer forma. Você não tem me agradado ultimamente, sabe."

"Agradar você não é minha primeira prioridade", disse Kaya.

"Mas deveria ser." O peão de Bolas aproximou-se. "Eu detenho as chaves para suas correntes, afinal. Você poderia estar livre deste lugar, destas pessoas."

"Se eu te ajudar a destruir Ravnica, você quer dizer."

"E o que é Ravnica para você? Apenas outra cidade. Apenas outro trabalho." Ela conseguia ouvir o sorriso na voz dele. "Estas não são as suas pessoas. Esta guilda, estes banqueiros-sacerdotes. Você os odeia, não odeia? Consegue ver nas pequenas misérias que infligem um reflexo do seu próprio povo. Buscar o poder em busca da felicidade e ter o custo pago com juros ao longo de gerações."

"É verdade." Kaya não percebera até aquele momento, mas o velho lagarto tinha razão.

"Então você deveria estar feliz com a minha vinda. Eu os varrerei como palha, com todas as suas mentiras e correntes."

"E as pessoas que vêm implorar?" disse Kaya. "Você as ajudará, ajudará?"

"Ajudarei." A voz humana do peão de Bolas adquiriu apenas um toque do ribombar de baixo do dragão. "Contanto que elas se ajoelhem."

Kaya balançou a cabeça. "Não vale a pena."

"Então o quê? Você é uma mestre de guilda em fuga de sua própria guilda. Você não sobreviverá muito tempo e, mesmo que sobreviva, perecerá com os demais quando eu chegar."

"Então morrerei lutando", disse Kaya, empertigando-se. "Mas posso fazer o bem aqui, por estas pessoas, enquanto isso."

"E seu próprio povo, com o céu deles quebrado?"

"Encontrarei outro jeito", disse Kaya. "Eu nunca deveria ter feito um acordo com você, dragão. Deveria saber que nada do que você pudesse oferecer valeria o preço."

"Você é uma tola."

"Talvez." Kaya guardou as adagas e entreabriu a porta, o corredor lá fora agora silencioso. "Mas sou minha própria tola."

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Os estábulos estavam escuros, iluminados por uma única lanterna tremeluzente e cheiravam a uma mistura multiespécie de esterco. Kaya deslizou pela porta, movendo-se com cautela e avistou uma única figura encapuzada esperando perto da lanterna. Aproximou-se silenciosamente, com as mãos nas adagas.

"Você é quem enviou o bilhete?" disse ela, quando estava perto o suficiente.

O homem saltou, o capuz caindo. Kaya o reconheceu — Tomik Vrona, o próprio assistente de Teysa. Não era quem eu esperava. Embora, na verdade, não soubesse quem esperar.

"Mestre da Guilda", disse ele, inclinando a cabeça. "Não tinha certeza de que a senhora conseguiria."

"Foi por um triz algumas vezes", admitiu Kaya. "Os magos da Teysa me atingiram com . . . alguma coisa."

"Um vínculo", disse Tomik. "Ouvi-os planejarem o ataque."

"E você tentou me avisar", disse Kaya. "Não que eu esteja reclamando, mas por quê?"

"A senhora é a minha mestre da guilda", disse ele. "É o meu dever."

"A Teysa é sua senhora há muito tempo", disse Kaya. "Vi o respeito que você tem por ela. Nem eu poderia tê-lo culpado por tomar o lado dela em vez de uma mestre da guilda que mal conhece."

"Eu—" Tomik hesitou. "Acredito que a Teysa está cometendo um erro. Ela está em uma posição muito difícil e—eu gostaria de protegê-la."

"De quem? De mim?"

"Os hierarcas têm pressionado-a com exigências. Eles temem que a senhora perdoe dívidas em grande escala e que a riqueza deles sofra as consequências. Eles a querem fora dos Orzhov. Se ela tentar se opor a eles, eles a esmagarão, Karlov ou não. O sistema, acima de tudo, defende a si mesmo."

"Eu acredito", disse Kaya. "Seu bilhete dizia que você poderia ajudar. Como?"

"Se a senhora confrontar os hierarcas—" começou Tomik.

Algo estalou na escuridão.

Kaya girou, sacando as adagas. Tomik pegou a lanterna e a ergueu acima da cabeça e ela ouviu o fôlego dele falhar. A luz brilhou em máscaras feitas de moedas amassadas, fileira após fileira de thrulls, apinhados nas baias e ao redor do exterior dos longos e vazios estábulos. Deve haver centenas deles. Kaya sentiu o suor escorrer por sua testa e firmou o aperto em suas armas.

"Eu juro", disse Tomik em voz baixa. "Eu não tive nada a ver com isso."

"Eu acredito em você", disse Kaya sombriamente. "Tenho certeza de que isso será um consolo quando estiverem nos rasgando em pedaços."

"Eu poderia . . . " Tomik balançou a cabeça. "Não tenho ideia. A senhora tem uma arma sobressalente?"

Silenciosamente, Kaya sacou um longo estilete de sua bainha oculta na base das costas e entregou-o. Tomik olhou para ele e ajeitou os óculos com um sorriso triste.

"Melhor que nada, suponho."

Os thrulls fecharam o cerco. Kaya engoliu seco.

Algo brilhou em um branco ofuscante. Uma das portas do estábulo explodiu, pedaços de madeira em chamas espalhando-se em todas as direções, acompanhados por um estrondo ensurdecedor que sacudiu a poeira das vigas. A explosão deixou um buraco flamejante que levava à rua lá fora e, silhuetado contra as luzes da cidade, estava um homem alto em um casaco longo, com uma massa selvagem de cabelo e relâmpagos subindo e descendo por seus braços.

"Ral!" gritou Tomik.

"Fiquem onde estão", rugiu Ral. "Porta-brasas!"

Viashinos em couro chamuscado jorraram pela brecha, armas longas e desajeitadas nas mãos. Conforme os thrulls viravam-se para enfrentá-los, golfadas de fogo jorraram em arcos ofuscantes de laranja e vermelho, fogo líquido agarrando-se a cada superfície que tocava. A carne de thrull chiou e carbonizou e as criaturas investiram contra a falange de porta-brasas, apenas para cair em montes enegrecidos que se empilhavam cada vez mais alto. Ral avançava, raios de relâmpago cortando de suas mãos para incinerar quaisquer thrulls que passassem pela cortina de chamas.

"Venham", disse ele, os dois porta-brasas mais próximos afastando-se para deixá-los passar. "Vamos sair daqui."

Tomik correu para ele e Kaya o seguiu. Ela ergueu uma sobrancelha quando Ral pegou o homem mais jovem em seus braços e o beijou, enquanto as fileiras de porta-brasas se fechavam atrás deles e começavam a recuar. O fogo espalhava-se rápido pelos estábulos, correndo pela palha seca e madeira velha.

"Se eu puder interromper", disse Kaya enquanto recuavam para a rua. "Tomik, você ia me dizer que tinha um jeito de consertar tudo isso."

"Oh." Tomik virou-se para longe de Ral, limpou a garganta e ajeitou os óculos. "Sim. Eu dei uma olhada nos registros, vejam só—"

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#linebreak Nem seis horas depois, Kaya entrou no salão principal de Orzhova, escoltada por várias fileiras de guardas e um par de cavaleiros.

Era bem depois da meia-noite e todos os adoradores comuns haviam ido embora. Kaya passou pelos bancos vazios, pelos nichos silenciosos onde os banqueiros se encontravam com seus penitentes. Na frente da sala, diante do grande altar, os hierarcas esperavam. Cerca de duas dezenas dos homens e mulheres mais poderosos da guilda Orzhov, com Teysa parada à frente deles. Estavam em trajes de gala, sedas volumosas e adereços de cabeça com joias elaboradas, cajados encimados por cristais e máscaras de ouro martelado. Kaya lançou-lhes um olhar frio e sorriu.

"Mestre da Guilda", disse Teysa. "Estou, admito, surpresa em vê-la."

"Pareceu um pouco indelicado fugir da própria guilda", disse Kaya com ar de descaso.

"A senhora é acusada de crimes graves", disse Teysa. "Está disposta a se submeter à nossa autoridade?"

"Não", disse Kaya. "Acho que não."

"A senhora não tem escolha", disse um homem barbudo na fileira da frente. "Fará o que ordenarmos ou morrerá e teremos uma mestre da guilda apropriada."

"Você é . . . Benitov Gracca, não é?" disse Kaya. She fechou os olhos e alcançou a massa de contratos que a sobrecarregavam, as correntes enroladas em sua alma. Uma delas levava a Gracca e levou apenas um momento para separá-la das outras. Era grossa e pesada.

"Sou", disse Gracca. "E minha família serviu aos Orzhov por milhares de anos. Uma forasteira como você—"

"Benitov Gracca", disse Kaya, pensativa. "Filho de Orsov Gracca. Que, em um momento de embaraço financeiro, foi forçado a pedir assistência ao Patriarca Karlov. Que ele forneceu, é claro, como um bom amigo faria. Exceto que o entendimento era que a família Gracca apoiaria os Karlov sempre que solicitado."

"Você não é uma Karlov", disse Gracca. Ele ficara vários tons mais pálido.

"Sou a herdeira do Patriarca Karlov. A sucessora de todos os seus contratos e obrigações." Kaya sorriu mais ainda e deu um puxão curto e seco na corrente que os conectava. "E você está em violação."

Gracca arquejou e caiu de joelhos, seu cajado dourado atingindo o chão com um som metálico e rolando pelo mármore.

"O Patriarca Karlov colecionava obrigações como outras pessoas colecionam vinhos finos", disse Kaya. "Brimini. Harta. Forgio." Enquanto falava, ela acariciava as correntes e cada nome trazia um fôlego travado e um encolher de ombros de alguém na multidão. "Todas as grandes famílias, de fato. Cada uma vinculada a apoiar os Karlov ou seus herdeiros. Cada um de vocês em violação desse acordo esta noite." Ela olhou ao redor. "Não admira que estivessem tão felizes em se livrar de mim."

"Eu não estou em dívida com o meu avô", disse Teysa, dando um passo à frente.

"Não", disse Kaya. "Você não está." Ela olhou para a multidão de hierarcas, depois para os guardas ao redor e elevou a voz. "Prendam Teysa Karlov."

Por um longo momento, nada aconteceu. Então, sutilmente, um dos cavaleiros virou-se para encarar Gracca, que olhou ao redor para seus colegas e deu um aceno trêmulo com a cabeça.

"Você não pode estar falando sério", disse Teysa enquanto os guardas se fechavam ao redor dela.

"Tratem-na com gentileza", disse Kaya. Essa fora a promessa que fizera a Tomik.

Teysa fuzilou-a com o olhar através da sala, então virou-se e afastou-se, à frente dos guardas, sem se permitir ser arrastada. O restante deles permaneceu em silêncio até que os passos dela sobre o mármore tivessem sumido.

"Quanto ao restante de vocês", disse Kaya, voltando-se para os hierarcas novamente. "Acho que deveríamos discutir as consequências de violar seus acordos com os Karlov e que garantia eu tenho de que não se voltarão contra mim de novo." Ela abriu os braços. "Afinal, sob os termos dos contratos originais, tenho o direito de cobrar suas dívidas. E com os juros, temo que os valores sejam . . . substanciais." Ela sorriu como um tubarão. "Então, vamos fazer um acordo."

25 de Setembro de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 16

Ral e Tomik caminhavam lado a lado, indo a lugar nenhum em particular. A chuva caía pesada, tamborilando nos toldos das lojas ao longo da rua, fileiras de respingos marchando pelas poças que se formavam entre os paralelepípedos. As gotas desviavam-se acima do par, deixando um espaço seco ao redor deles e uma cortina de chuva extra-espessa além. Quando caía com tanta força, deixava-os em seu próprio mundinho, isolados de tudo além por uma cortina de água jorrante e espumante. A névoa subia dos ricochetes e enrolava-se em suas botas.

"Não tinha certeza se você viria", disse Tomik eventualmente.

Após a euforia ter passado, ele se afastara de Ral, encolhido em si mesmo de uma forma que fazia a garganta de Ral engrossar. Ral queria pegar a mão dele, mas não o fez. Ainda não. Os óculos de Tomik estavam cobertos de gotículas de chuva.

"Eu não ia vir", disse Ral. "Não a princípio."

"O que mudou sua mente?"

"Eu . . . " Ral olhou para Tomik. "Quer a verdade?"

Tomik, de braços cruzados, deu um aceno curto e brusco.

"Quero dizer que estava preocupado com você", disse Ral. "Mas sei que você pode cuidar de si mesmo. Na maioria das vezes, de qualquer forma."

Tomik sorriu, muito levemente, e Ral sentiu-se relaxar um pouco.

"Eu te conheço", disse Ral. "Sei o quanto você se importa com o seu trabalho com a Teysa, o que significa para você. Pensei que, se você estivesse disposto a ir contra ela nisto, a arriscar tudo . . . provavelmente é importante para caramba."

"Mais importante que trabalhar na sua máquina?" perguntou Tomik.

"Estamos quase terminando", disse Ral. "Tudo o que resta é realmente construir a coisa e eu só posso fazer até certo ponto. Eu apenas me . . . envolvo."

"Eu também te conheço", disse Tomik.

"Não conhece", disse Ral. "Não realmente. Há partes da minha vida que eu . . . não comento."

"Porque não aconteceram em Ravnica?" disse Tomik.

"Alguém já te disse que você é esperto demais para o seu próprio bem?"

Tomik sorriu. "Você. Repetidamente."

"Sim", disse Ral. "Porque eu não estava vivendo em Ravnica. E . . . " Ele respirou fundo. "Algumas das coisas que aconteceram comigo tornaram difícil confiar nas pessoas. Vê-las como algo além de ferramentas."

"A Teysa é assim", disse Tomik baixinho. "Ela não é uma pessoa má, Ral. Mas foi criada neste pesadelo e não consegue escapar."

"Você e eu . . . " Ral balançou a cabeça. "Não temos que ser assim. Um com o outro. Eu . . . " Ele coçou a barba, irritado. "Eu quero algo diferente."

"Tipo, realmente se importar com alguém?" disse Tomik.

"Tipo isso", admitiu Ral.

"Bem." Tomik deslizou a mão na de Ral e bateu contra o ombro dele. "Não sei se você já chegou lá. Mas está aprendendo."

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

No sonho de Ral, ele se inclinava sobre a mesa, adicionando os toques finais.

Construir a coisa que ele queria não fora fácil e ele já tinha ideias para melhorá-la. As células de armazenamento de energia eram pesadas e desajeitadas e não continham nem de longe tanta energia em sua rede complexa de metal e cerâmica quanto ele gostaria. Ao menos conseguira se afastar do armazenamento líquido — carregar uns dois galões de ácido nas costas, isso sim é uma receita para o desastre . . .

Em algum outro lugar, em algum outro plano, poderia haver materiais melhores a serem encontrados. Ele tinha uma visão de uma treliça de cristal e bobinas giratórias, mas encontrar algo com as propriedades certas até agora provara-se impossível.

Mesmo assim. Ele olhou para sua criação e sorriu, fechando o último compartimento de um lado. Com cuidado, pegou-o e deslizou os braços pelas alças, deixando o peso da coisa assentar em suas costas. Um par de luvas pendia dele por longos cabos isolados e ele as calçou, flexionando os dedos e sentindo o mais leve estalido de energia.

Precisava ser carregado, é claro. Mas mesmo vazio, o acumulador lhe dava uma sensação de poder. A energia da magia de Ral vinha das tempestades que rugiam no alto e, por isso, sua força sempre aumentara e minguara tão imprevisivelmente quanto o clima. Não mais. Agora ele carregaria sua própria tempestade, em couro, cerâmica e aço.

"Engenhoso", disse uma voz na porta. "Você aprendeu muito desde que nos falamos pela última vez, meu amigo."

Ral olhou para cima, alarmado. A porta da frente estava trancada, ele sabia com certeza, e a porta do seu escritório também. No entanto, agora ela estava aberta e um homem mais velho espiava pelo umbral. Era alto, de cabelos grisalhos, impecavelmente bem vestido com roupas de um corte que de alguma forma sugeria que ele era de . . . outro lugar. Embora já tivesse passado uma década desde que se falaram pela última vez, Ral dificilmente poderia esquecê-lo.

"Olá, Bolas", disse ele, forçando a calma em sua voz.

"Zarek", Nicol Bolas disse educadamente. "Posso entrar?"

Ral assentiu. "Portas e trancas não parecem significar muito para você."

"Ah, mas a polidez tem um poder maior do que qualquer cadeado", disse Bolas, entrando no escritório. Olhou ao redor, aprovador, para as plantas fixadas nas paredes, a escrivaninha entulhada de ferramentas e peças. "Você tem estado ocupado."

Ral deu de ombros. "Faço o meu melhor."

"E o seu melhor é extraordinário", disse Bolas. "Retido aqui, sem um tostão no bolso, sangrando em um beco. E em dez anos, aqui está você. Mestre de um arrumado pequeno império, com uma dúzia de inventores se curvando e rastejando pelo privilégio de ajudá-lo. Você nem sequer teve que matar muita gente para fazê-lo." Bolas sorriu, os dentes brancos e muito levemente pontiagudos. "Não que isso fosse necessariamente um inconveniente, claro."

"Você sabia?" perguntou Ral. "Lá em Tovrna. Você sabia o que eu era?"

"Que você era um Planeswalker?" disse Bolas. Ele deu de ombros. "Digamos que eu . . . suspeitava. Planeswalkers são excessivamente raros e não podem ser ensinados a usar sua centelha. Ela deve acender por conta própria, ou não acenderá, o que frequentemente envolve certo trauma."

"Então você me armou uma cilada", disse Ral.

"Eu não fiz nada do tipo. Eu te dei o que você queria, não dei?" O sorriso de Bolas ampliou-se. "Dificilmente é culpa minha que as coisas tenham dado errado. Paixões juvenis, sabe."

"Por quê?" perguntou Ral. "Você é um Planeswalker também, ou não estaria parado aqui. Então por que se dar ao trabalho de me fazer extorquir coppers daqueles pobres coitados?"

"Nunca foi sobre eles", disse Bolas. "Sempre foi sobre você. Como eu disse, Planeswalkers são raros. Quando acho que alguém tem potencial, faço o meu melhor para . . . encorajá-lo. E para colocá-lo em dívida comigo, para facilitar nossa colaboração posterior."

"Acho que minhas dívidas com você estão pagas", disse Ral, contornando a escrivaninha.

"Pelo contrário", disse Bolas. "Você acha que teria realizado isto — nada disto — sem a minha ajuda?"

"A sua ajuda quase me matou."

"Eu te empurrei para descobrir do que você era verdadeiramente capaz e você descobriu. Isso não vale nada? Não te fiz um favor?"

Ral encarou o homem, com seu sorriso de dentes afiados. Muito lentamente, assentiu.

"Pode-se dizer que sim", disse ele.

"Então concordamos que você me deve", disse Bolas. "E vim cobrar, Ral Zarek. Junte-se a mim e realizaremos maravilhas."

"Deixe-me dizer o que você me ensinou", disse Ral. "Lealdade é para tolos. Confiança é para otários. E aliados existem para serem usados, até que não sejam mais úteis." Ele deu de ombros, ajustando o peso da mochila. "Então, obrigado pela lição. Mas não pagarei qualquer dívida que você ache que eu deva."

"Lamentável", disse Bolas. Seu sorriso desaparecera. "Sua posição aqui—"

"Você vai ameaçar tirar tudo o que eu construí", disse Ral. "Vá em frente. Estou farto disso. Tenho isto"—ele deu um tapinha na mochila, depois tocou a lateral da cabeça—"e o que tem aqui dentro. É tudo de que preciso, no fim das contas."

"Não imagine que possa escapar de mim, Zarek", disse Bolas. "Qualquer lugar para onde você for, eu posso seguir."

"Não preciso escapar", disse Ral. "Apenas ficar um passo à frente."

Ele focou sua mente. Transplanar era exatamente como cair, uma vez que se aprendia o truque. Entre os miríades de mundos, ele dirigiu o olho da sua mente para um familiar.

Hora de ir para casa. Para Ravnica. Mas não para Tovrna. Chega de desperdiçar meu tempo nos cafundós. O Décimo Distrito era o coração do plano-cidade e era lá que ele tinha que estar. Como, precisamente, ele se encaixaria, ainda não sabia, mas não estava mais preocupado. Com seus talentos e seu poder, sempre haveria um lugar para ele.

And if someone’s already in that place, well, that’s just too bad for them . . .

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Vraska encarou seu trono.

Parecera bom no momento. Justo, até. Os elfos cujos corpos contorcidos e petrificados compunham a cadeira medonha haviam sido seus inimigos e passaram décadas oprimindo qualquer um nos Golgari que não fosse um deles. Górgonas e kraul sofreram sob a bota devkarin e cada prisioneiro gritante arrastado para o trono e congelado no lugar com um aceno do poder de Vraska era uma medida minúscula de vingança. Quando terminasse, prometera a si mesma, faria melhor.

E o que eu realizei? Uma antiga e bela cidade kraul reduzida a escombros. Milhares de Golgari mortos. Tudo para nada. Tudo pelo Bolas.

Xeddick. O kraul albino nunca deveria ter estado no campo de batalha, mas insistira e ela fora mole demais para recusar. Como resultado, tivera que assistir, impotente, Aurélia retalhá-lo, para então fugir para não ser a próxima a ser espetada pela lâmina da anjo. Eu a terei no meu jardim algum dia. Eu juro. Clamou os punhos, sabendo quão patético aquilo soava.

Xeddick estava certo o tempo todo. Eu nunca deveria ter deixado que ele desbloqueasse minhas memórias. Seu tempo em Ixalan embotara seu propósito. Tornara-a mole. Eu estaria melhor se nunca tivesse lembrado de conhecer o Jace, ou . . . ou qualquer coisa daquilo. Bolas ainda tinha as garras em sua garganta, então o que importava? Ao menos se tivesse esquecido de tudo, eu poderia ter tido uma chance de ser feliz servindo a ele.

Permanecia sozinha, respirando com dificuldade, as gavinhas agitando-se em agitação. Queria bater em algo, ferir alguém. Sentir o calor atrás de seus olhos e a maciez da carne endurecendo em pedra. Queria . . .

Xeddick. Jace. Vraska encostou-se em um dos pilares, desviando-se do trono odioso. Alguém que entenda.

Mas não restava ninguém.

Um raspar de garras na pedra anunciou um visitante. Vraska olhou para cima, os lábios esticando-se para mostrar seus dentes afiados como agulhas. Mazirek entrou, os membros anteriores agitando-se em breve obediência.

"Desejou me ver, minha rainha", disse o kraul, em seu tom de estalidos e zumbidos.

"Quando desejei ver você foi ao meu lado, na batalha", disse Vraska, empurrando-se para longe do pilar. "Estranhamente, foi quando o encontrei ausente."

"Lamento ter sido forçado a deixá-la", disse o sacerdote da morte. "Fui atacado por um bando de thrulls Orzhov e levou alguns momentos para destruí-los. As marés da batalha são difíceis de navegar, até para mim."

"De fato." Vraska sentiu o poder acumular-se em seus olhos, sem ser chamado. Seria tão mais fácil simplesmente montá-lo no meu jardim. Piscou para afastá-lo e balançou a cabeça. Ele ainda é útil demais.

Mazirek, aparentemente alheio a quão perto estivera da destruição, fez sua pequena meia-vênia novamente. "Havia mais algo que precisasse de mim, minha rainha?"

"Não", disse Vraska. "Saia da minha frente."

O kraul verde escuro retirou-se. Vraska espreitou pela sala do trono vazia, uma mão em seu sabre e jogou-se inquietamente no trono retorcido. Quando alguém bateu em uma das portas, ela quase gritou de frustração.

"O quê?"

"Uma convidada." A voz de um homem e não uma que ela reconhecesse. "Esperando por um momento do seu tempo."

Apenas algumas pessoas ousariam perturbá-la em seu santuário. Mazirek, Xeddick, Storrev. E

"Entre, então", disse Vraska. "Não posso te impedir."

O fantoche que Bolas enviara desta vez era uma jovem nos restos esfarrapados de um uniforme da Legião Boros. Estava coberta de lama e limo e um longo corte em sua bochecha já apodrecera no calor sempre úmido da Subcidade, inchado em vermelho e pingando pus. Duas Outrora a escoltavam, movendo-se com sua marcha rigidamente formal em suas roupas finas e ancestrais. Exibindo-se. As Outrora eram a faca que Bolas segurava em sua garganta, uma faca que ela mesma colocara ali com as próprias mãos.

"Veio me castigar?" disse Vraska, relaxada no trono com um descaso afetado. "Dar-me sermão como um professor decepcionado?"

"Qual seria o ponto?" disse o fantoche de Bolas, dando um passo à frente. Sob um comando invisível, as escoltas zumbis viraram-se e saíram. "É óbvio que você fez o seu melhor. O seu melhor simplesmente não foi bom o suficiente."

De alguma forma, aquilo doeu mais do que ela esperava. "Os Golgari não podem resistir sozinhos a uma aliança de metade das outras guildas. Eu pensaria que alguém com a sua inteligência poderia ter percebido isso."

"Sou apenas uma sombra do meu mestre", disse o fantoche. "Entregando as instruções dele."

"Se quer que eu ataque aquela máquina que estão construindo, pode dizer ao seu mestre que não pode ser feito." Seus espiões estiveram observando o trabalho e as defesas subindo ao redor dele. "O pessoal de Ral andou instalando campos de minas e torres de chamas e sabe-se lá o que mais e os magos da lei Azorius cercaram o local com tantas proteções que uma manada de trolls não conseguiria nem arranhar. O que quer que estejam fazendo, veio para ficar. Não vou enviar mais do meu povo para a morte."

"Um ataque ao ressonador não é necessário", disse o fantoche de Bolas, sorrindo levemente. "Atribuí essa tarefa a um agente mais . . . competente. Para você, meu mestre reservou o trabalho de interromper o plano de reserva de Zarek."

"Que plano de reserva?" perguntou Vraska.

"Há uma torre, na superfície, que contém uma máquina muito inteligente. Quando o esquema de Zarek falhar — e ele vai falhar — ele perceberá que perdeu e buscará sua última jogada de dados. Você estará lá para detê-lo. Meu mestre exige que todas as contingências possíveis sejam consideradas, mesmo as remotas. Você enviará suas forças para bloqueá-lo."

"Não." Vraska levantou-se abruptamente e caminhou pela sala do trono.

"Não?" O fantoche arqueou uma sobrancelha, a expressão fora de lugar em seu rosto imundo e manchado de sangue. "Preciso lembrá-la das consequências da traição novamente, Vraska?"

"Não enviarei minhas forças. Cansei de gastar vidas Golgari para você." Vraska parou oposta ao fantoche e mostrou os dentes. "Eu mesma irei e matarei o Zarek. Confio que isso será suficiente?"

"Será." O fantoche inclinou-se para mais perto. Cheirava a podridão. "Mas falha não é uma opção. Não para você. Ral Zarek pode ter misericórdia de você, mas Bolas não terá nenhuma. Quando ele for vitorioso — e ele será vitorioso — lidará com você como o seu serviço a ele merece."

"Entendi", disse Vraska. "Terminou com as ameaças?"

"Por enquanto." O fantoche sorriu. "E terminei com esta casca. Livre-se dela, quer?"

A mulher Boros piscou e seus olhos focaram em Vraska e ficaram muito arregalados. Ela gritou até que Vraska a agarrou pela garganta, focou seu poder e deixou-o pulsar através de seus olhos. Quando ela deixou a estátua de pedra da soldada aterrorizada deslizar por seus dedos, ela se estilhaçou em cem pedaços no chão.

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#linebreak Vraska mantinha seu arsenal em uma pequena sala adjacente aos seus aposentos pessoais. Ao longo dos anos, acumulara bastante armadura e armamento e, uma vez que assumira o controle dos Golgari, movera seus vários esconderijos de seus esconderijos para o palácio.

Era tanto um repositório de suas memórias quanto qualquer outra coisa. Havia conjuntos de armaduras, cada um de uma época diferente da sua vida — os pretos justos de uma assassina de telhados, conjuntos mais elaborados de cota de escamas que usara para impressionar, o traje em que retornara a Ravnica de sua vida em Ixalan. Havia sabres em um longo suporte, desde a arma simples que carregara em seus primeiros dias até peças de exibição com joias que lhe foram dadas de presente em sua ascensão a rainha.

Ela passou os dedos pelas lâminas de aço, perdida em pensamentos. Finalmente parou diante de uma espada, com o fio serrilhado como o dente de um tubarão, um espigão de soco brutal embutido no punho. Era uma arma feia, viciosamente funcional, projetada para infligir o máximo de dor em um oponente. Perfeito. #linebreak "Rainha." Storrev deslizou para dentro da sala, sua voz um sussurro tênue. "A senhora me convocou."

"Estive pensando", disse Vraska. "Sobre você e as outras Outrora. Vocês estão vinculadas a obedecer ao Mazirek, não estão?"

Storrev inclinou a cabeça. "Ele nos ergueu de nossos túmulos, minha rainha. Mas ele nos deu instruções para obedecê-la também."

Mazirek, que desaparecera no momento crítico. Que falava com ela com tal arrogância desmedida. Vraska sentiu sua suspeita endurecer em certeza.

"Vocês são obrigadas a contar a ele tudo o que fazem?" perguntou Vraska.

"Apenas se ele perguntar especificamente, minha rainha", disse Storrev. "Tem uma tarefa para mim?"

"Tenho." Vraska deslizou a espada de dentes de tubarão em sua bainha. "Posso ficar . . . ausente por algum tempo. Enquanto isso, gostaria que você entregasse este bilhete." Entregou uma folha de papel fúngico esponjoso para a lich, que o leu cuidadosamente. "Confio que você consiga imaginar o resto."

Storrev estava sempre inexpressiva, mas Vraska poderia jurar que o fantasma de um sorriso cruzou o rosto dela. Ela fez uma reverência formalmente correta.

"Claro, minha rainha. Que sua vontade seja feita."

A lich deslizou para fora. Vraska olhou para os conjuntos de armadura, despiu seu manto formal e começou a vestir a mais simples, de couro e escamas, dos seus dias como assassina.

Cansei de ser chantageada, de um jeito ou de outro. Conforme apertava as alças, encontrou certa paz vindo a ela. Matar Zarek e deixar o resto se resolver sozinho. É tudo o que me resta. #linebreak Desculpe, Jace.

02 de Outubro de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 17

Havia muitos bares, tavernas e pubs nas ruas ao redor de Nivix. Quimistas, trabalhadores e porta-brasas gostavam de se embriagar tanto quanto qualquer um, possivelmente mais, dada a natureza perigosa de seus trabalhos. Havia estabelecimentos de alta classe onde líderes de projetos podiam trocar informações sobre uma garrafa de vinho ou três e tavernas barulhentas onde era uma noite ruim aquela que não terminava com alguém saindo pela janela. Pubs viashinos ecoavam canções de lagartos bêbados até as primeiras horas, acompanhadas pela melodia melancólica de suas flautas tradicionais. Até mesmo vedalken podiam ocasionalmente ser tentados a um copo ou dois de algo, para melhor aperfeiçoar seu estado emocional.

A taverna para a qual Ral se dirigia era um tipo de lugar diferente de qualquer um desses. Não era o local das celebrações de ninguém, nem nunca havia qualquer tipo de música. Era majoritariamente subterrânea, uma escadaria descendo sob um bloco de apartamentos em ruínas para um espaço grande e escuro, fragmentado por pesadas vigas de suporte e subdividido em cem nichos e fendas.

Tinha uma reputação sombria, mas não uma que girasse em torno de brigas ou vício. Este era o lugar para onde você ia quando tudo dava errado, quando seu projeto colapsava ou seus rivais triunfavam ou a coisa errada explodia uma vez demais. Os clientes eram quimistas com aquele brilho louco nos olhos, engenheiros com cabelos desgrenhados que desenhavam compulsivamente em guardanapos, figuras de túnica debruçadas sobre canecas de cerveja murmurando sobre como iriam mostrar a todos. Planos chocados nas cabines e salas dos fundos geralmente terminavam com destroços flamejantes chovendo sobre a cidade e, apropriadamente, a placa do lado de fora da taverna proclamava que ela se chamava O Destroço Fumegante.

Ral passara muito tempo aqui, nos dias antes de se envolver com Tomik. Ele gostava da atmosfera.

Hoje à noite, porém, ele estava aqui porque um bilhete entregue em seu escritório por um elemental-mensageiro o convocara. Ele vestia seu acumulador e manoplas sob um manto com capuz e examinou a clientela ao descer as escadas. Havia mais pessoas do que o habitual, o que fazia sentido. O projeto do ressonador, seu grande esquema para modificar o Pacto das Guildas contra a vontade do próprio Azor, estava quase concluído e a maior parte da equipe em Nivix tinha a noite de folga.

Não havia balcão no O Destroço Fumegante e nem atendentes. As bebidas eram trazidas por minúsculos constructos, pequenas bandejas com pernas articuladas. Seu rastejar constante dava ao lugar uma qualidade contorcida, como se estivesse vivo e estremecendo. Também significava que não havia ninguém para ouvir as conversas, o que era o que os clientes exigiam.

O bilhete o direcionara a uma mesa nos fundos. Ral dirigiu-se para lá com cautela e encontrou uma cabine envolta por uma pesada cortina preta. Afastando-a uma fração, deu um suspiro de alívio, então deslizou por ela e sentou-se.

"Lavínia", murmurou ele. "Você poderia ter dito que era você."

"E arriscar meu bilhete ser interceptado? Uma boa maneira de cair em uma emboscada." Lavínia inclinou-se sobre a mesa e fechou a cortina. "Você é um homem difícil de encontrar hoje em dia, Ral. Não passa muito tempo sozinho."

"Estive ocupado", rosnou Ral. "Ainda estou ocupado. Salvando a cidade e tudo mais. Após o desastre na cúpula das guildas, alguém tem que fazer isso."

"Eu sei." Lavínia baixou a cabeça e havia dor genuína em sua expressão. "Eu falhei."

Ral balançou a cabeça. "Você nos disse para termos cuidado com a Vraska. Deixei meus sentimentos me cegarem."

"Muitos erros foram cometidos." Lavínia colocou as mãos sobre a mesa. "Mas, graças a você, ainda não acabou. E por isso ainda tenho trabalho a fazer."

Lavínia, Ral notou, não estava com sua melhor aparência. Seu cabelo estava emaranhado e oleoso, como se ela não o lavasse há dias e sua pele estava incrustada de fuligem. Suas roupas, cuidadosamente discretas, estavam amassadas e manchadas e havia olheiras profundas sob seus olhos.

"Há quanto tempo você não dorme?" perguntou Ral.

"Isso importa?" disse Lavínia. "Bolas está chegando. Estamos sem tempo."

Ral ficou rígido. "Quando?"

"Hoje à noite. Eu acho." Ela esfregou o rosto. "Quebrei alguns dos códigos dos agentes dele. Estou no rastro do líder deles, mas acho que ele me descobriu. É por isso que precisei ver você."

Hoje à noite. A mente de Ral girou. Perto, perto. Os ressonadores estavam terminados, os alinhamentos concluídos. Havia mais verificações, ajustes de última hora—

"Podemos conseguir", disse ele. "Vou fazer meu pessoal pular algumas etapas, se precisarem, mas vamos terminar. Vou dizer a Niv-Mizzet que temos que ligar a máquina imediatamente."

"Bom." Lavínia largou-se em seu assento. "Isso é bom. Ao menos temos uma chance."

"Volte comigo", disse Ral. "Você estava lá no início deste projeto todo. Deveria estar lá no fim."

Ela balançou a cabeça. "Não posso. Quase o peguei."

"O agente?"

Lavínia assentiu. "Vou pegá-lo hoje à noite. Uma ameaça a menos. A última coisa de que precisamos quando o Bolas aparecer é uma adaga nas costas."

"Você sabe quem é?"

"Ainda não. Mas saberei."

"Tenho . . . uma suspeita." Tezzeret. Ral não tinha certeza se ele ainda estava em Ravnica, mas parecia lógico que ele estaria coordenando os espiões de Bolas. "Cuidado. Se você estiver lidando com quem eu acho que é, ele é muito perigoso."

"Acredite em mim, eu sei", disse Lavínia. "Tenho seguido seus rastros tempo suficiente para estar familiarizada com seus métodos."

"Precisa de reforço?"

"Isso só o alertaria." Ela se levantou. "Faça o seu trabalho, Ral, e deixe-me fazer o meu. Eu não falharei de novo."

Ral deu um aceno lento. "Boa sorte, então. Se sobrevivermos, te devo uma bebida."

"Boa sorte." Lavínia deu-lhe o fantasma de um sorriso. "Se sobrevivermos, vou cobrar."

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Ral atravessou os portões de Nivix, o poder estalando ao seu redor. Arcos de relâmpago conectaram-no brevemente ao batente de ferro da porta, vermes de luz branca estalante rastejando pelos suportes das tochas conforme ele passava. Seu casaco longo flutuava atrás dele e seu capuz caíra para trás, revelando sua massa selvagem de cabelo com sua única mecha branca.

"Gullifen! Noz! Fredon!" berrou ele. "Mensagem para todas as seções! Vamos acionar o interruptor hoje à noite. Tragam todos os ressonadores online o mais rápido possível. Quero relatórios de status de todos."

"Hoje à noite, chefe?" disse Gullifen. Ela era uma goblin e uma das engenheiras primárias do projeto, responsável pelas partes construídas dentro da própria Nivix. Ela se apressava ao lado de Ral, dando dois passos curtos para cada um dos seus longos para acompanhá-lo. "Não estamos prontos!"

"Estamos prontos", disse Ral. "Ou ficaremos prontos. Não temos escolha."

"Mas os testes de calibração—"

"Escute", disse Ral, virando-se para ela. Uma pequena horda de goblins, humanos e vedalken que se reunira atrás dele enquanto ele caminhava parou bruscamente. Ral empertigou-se, sentindo o peso de todos aqueles pares de olhos e limpou a garganta. "Se não ativarmos a máquina hoje à noite, então um dragão tão antigo que é praticamente um deus virá a Ravnica e garantirá que não tenhamos a chance de ligá-la amanhã. Entenderam? Então, se não houver tempo para testes de calibração, diga ao seu pessoal para garantir que acertem de primeira."

Gullifen engoliu seco e saudou. "Sim, chefe!"

A multidão dispersou-se como sementes de dente-de-leão ao vento, trabalhadores e quimistas correndo em todas as direções. Alguns dirigiam-se para as entranhas de Nivix, onde ficavam as vastas bobinas de mizzium que alimentariam o nó central. Outros apressavam-se para sistemas subsidiários ou iam enviar mensagens para as outras estações. Tinham planejado este momento, praticado para ele e Ral sentiu um momento de orgulho por todos saberem seus lugares.

"Lá para cima", disse Ral para Gullifen. "Começaremos a testar os outros nós conforme entrarem online. Faremos o máximo que pudermos."

"Sim, chefe", disse a goblin.

Ral subiu os degraus de três em três, deixando Gullifen segui-lo como pudesse e subiu ao décimo andar. Aqui, uma seção substancial dos laboratórios e escritórios que preenchiam Nivix fora arrancada, abrindo um vasto espaço para a câmara de controle da máquina. Oito estações, cada uma uma oficina de metal coberta por cristais brilhantes, mostradores oscilantes e bobinas de mizzium incandescentes, estavam dispostas em um semicírculo ao redor de um estrado e painel centrais. Ral subiu no estrado e olhou para a sala, onde quimistas corriam de um lado para o outro, assumindo seus postos.

"Energia entrando online!" gritou um técnico. "Operando a noventa e sete por cento."

"Nó número 1 pronto para ativar!" disse outro.

Aquele era o centro da rede, aqui na própria Nivix, o único local em que Ral podia confiar implicitamente. Olhou para baixo para seu próprio painel de controle, onde havia oito pequenos interruptores de metal e, acima deles, um único e grande interruptor de faca de duas pontas, pintado de vermelho e parafusado no lugar. Ele buscou o primeiro dos controles menores e o acionou.

"Subindo o número 1", disse ele. "Deem-me o status."

"Nó número 1 entrando online!" cantou um operador. "Alinhando com a rede."

"Parece bom", acrescentou outro. "Nenhuma interferência até agora."

No alto de Nivix, Ral sabia, o ressonador estaria se desdobrando, as bobinas de mizzium girando em suas câmaras, os projetores de cristal movendo-se para alinhar-se com os fios complexos do feitiço do Pacto das Guildas. Parecia um pouco com uma aranha fazendo algum tipo de exercício de alongamento elaborado com múltiplos membros. No porão, os geradores estariam rugindo, o poder surgindo através de cabos da espessura de um braço estendidos ao longo do exterior do edifício.

Gullifen entrou na sala aos tropeços, ofegante e dirigiu-se à sua própria estação. Um momento depois, ela gritou: "Número 2, número 5, número 7, todos relatando energizados e prontos!"

"Vá para os outros", gritou Ral de volta. "Subindo o número 2."

Ele acionou outro interruptor e uma segunda seção da sala de controle ganhou vida, mostradores girando descontroladamente e cristais pulsando. Por um momento, Ral prendeu a respiração.

Na frente da sala, diante dos bancos de controles, havia uma mesa com um mapa do Décimo Distrito. Os nós estavam marcados nele por pequenas luzes coloridas, todas foscas, exceto pelo brilho branco intenso que representava Nivix. Enquanto Ral observava, uma segunda luz cresceu e brilhou e então uma ponte em arco de energia se formou entre elas, a energia estalando e piscando.

"Número 2 online!" gritou um técnico. "Alinhado e recebendo. Interferência inferior a zero vírgula três!"

"Pressão do refrigerante subindo!" disse um dos vedalken, estranhamente alarmado. "As bombas de vazão estão entupidas."

"Eu sabia que aquilo ia dar problema", disse Gullifen. "Se fecharmos, podemos conseguir alguém para—"

"Libere a saída", disparou Ral. "Temos bastante água nos tanques."

"Liberando!" Um momento depois, ouviu-se um uivo sobrenatural, audível mesmo a dez andares de altura, conforme o vapor fervia em uma dúzia de pontos nas ruas ao redor do edifício. As plumas subiram cada vez mais alto, cercando Nivix em uma nuvem branca, iluminada por dentro por energia estalante e faiscante em cores fantásticas.

O nó número 2 ficava em território Azorius, perto de Nova Prahv. Uma única linha de luz brilhante conectava-o ao ressonador no topo da torre Izzet. Nas profundezas de sua mente, Ral sentiu o Pacto das Guildas mudando, energias mágicas titânicas se realinhando em resposta à pressão da máquina. Cada mago em Ravnica sentiria aquilo, embora apenas um punhado soubesse o que pressagiava. Hoje à noite mudamos o mundo.

"Subindo o número 5 e o número 7", disse Ral, acionando interruptores. "Verifiquem o consumo de energia e deem-me o status do restante."

"Energia alta, mas aguentando", disse um dos goblins. "Enquanto os acoplamentos aguentarem, os geradores conseguirão."

"Número 3 e número 4 relatam prontos!" disse Gullifen. "Checando número 6 e número 8."

Ral franziu a testa. O número 8 era o nó da Subcidade, em território Golgari. Se algo fosse dar errado, seria lá, onde tiveram menos tempo para se preparar. Se a Vraska tentar atacar agora . . .

Ral. A voz de Niv-Mizzet ecoou na mente de Ral, embora o dragão não estivesse em lugar nenhum.

Mestre da Guilda, Ral pensou de volta. Desculpe pelo aviso tardio. Recebi a notícia de que Bolas planeja sua incursão hoje à noite.

Você agiu corretamente, disse a Mente de Fogo. Estou em posição no Ninho. Quando a máquina emendar o Pacto das Guildas, estarei pronto.

Estamos quase lá, prometeu Ral.

Algo fez bang.

Coisas explodiam o tempo todo em Nivix, mas esta foi grande, mesmo para os padrões Izzet. A sala sacudiu. Ral olhou para os mostradores e viu metade deles caindo e a outra metade subindo em direção ao vermelho.

"Um conduto explodiu!" gritou um técnico. "Energia caindo. Não conseguimos manter o nó ligado!"

"Redirecione a energia", disparou Ral.

"O restante dos condutos não aguentará! Se tentarmos, perderemos toda a matriz."

"Exploda até o último deles antes de perdermos esse nó", rosnou Ral. "Só temos uma chance nisto, entendem?"

"Espere!" disse Gullifen. "Eu cuido disso. A ruptura é lá no segundo andar, podemos enviar energia pelos sistemas do laboratório."

"Faça isso", disse Ral. "E depressa. Estou subindo o restante dos nós."

"Todas as estações relatam pronto!" disse Gullifen e saiu correndo da sala, com um par de outros goblins em seu enquadro.

Ral passou a mão pela fileira de interruptores, acionando todos um após o outro. Lá embaixo, cada cristal brilhava. Os técnicos gritavam uns com os outros, mal olhando para ele agora.

"Número 8 online!"

"Número 6 subindo!"

"Cuidado com essa ressonância—"

"Interferência subindo para zero vírgula nove!"

No mapa, linhas brilhantes estendiam-se de Nivix, a aranha no telhado espalhando pernas ardentes pela cidade. Ral observava-as brilharem mais com metade de sua atenção, enquanto o resto estava nos mostradores que indicavam a energia no nó central, que ainda caía.

"Prepare-se para redirecionar", disse ele ao técnico. "Se a Gullifen não conseguir—"

"Conduto estourado voltando!" disse outro técnico. "Ela fez uma ponte acima da ruptura."

"Garantam que aguente desta vez", disse Ral.

"Distribuindo."

Houve um longo momento — não de silêncio, já que a sala estava cheia de zumbidos, estrépitos, estalos e o chiado de vapor — mas uma inspiração coletiva de ar. No mapa, sete linhas pulsantes conectavam Nivix aos outros ressonadores. Na mente de Ral, o Pacto das Guildas gemeu, as linhas de força que o compunham empurradas aos seus limites pelas energias titânicas liberadas.

"É isso", alguém disse. "Rede totalmente ativada. Todos os elos ligados e aguentando."

"Interferência caindo para vírgula seis."

"Todas as estações relatam estabilidade!"

Mestre da Guilda, disse Ral em sua mente. Estamos prontos.

Eu também, a Mente de Fogo pensou de volta. Faça-o.

Ral buscou o interruptor grande.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

Lavínia corria pelo beco estreito, suas botas gastas espalhando água por poças fétidas.

No alto, luzes mudavam e brilhavam no céu. Nivix, assomando no horizonte, estava cercada por uma nuvem fervilhante de vapor. Arcos de energia, como raios titânicos estendendo-se por quilômetros, piscavam entre ela e os locais no restante do Décimo Distrito. O trovão ribombava e rolava continuamente, sob um manto de nuvens espessas e escuras.

Os cidadãos comuns de Ravnica, os sem guilda e a base de cada guilda, teriam uma noite aterrorizante, não importa o que acontecesse. Não houvera como avisá-los sobre o que estava para acontecer, não sem alertar os agentes de Bolas.

Mas isso termina hoje à noite. A mão de Lavínia roçou o punho de sua espada. Chega de esgueirar-se por aí.

À sua frente, a figura de túnica virou à esquerda, exatamente como ela esperava. Ele se dirigia a um certo estábulo abandonado, um edifício de pedra que usava para seus encontros. Lavínia finalmente quebrara códigos suficientes dele para saber com certeza onde ele estaria e o estábulo estava agora lotado de detentores Azorius. Mais tropas estavam posicionadas nas ruas ao redor, para impedir que o agente de Bolas escapasse. Precisamos saber o que ele sabe. Ela olhou para cima e viu um dos tópteros de Dovin Baan olhando para baixo para ela, silhuetado contra o show de luzes mutantes acima.

Ela fez a curva, avançando cautelosamente pelo canto de um edifício de tijolos. O agente de Bolas caminhava confiante à frente, sem se dar ao trabalho de verificar se estava sendo seguido. Quando chegou à porta no fim do beco, esticou a mão para ela e a luz retorcida brilhou no metal bojudo. Lavínia esperou até que ele entrasse, então seguiu correndo.

Ela mesma escancarou a porta, protegendo os olhos do brilho esperado de dezenas de lanternas. Em vez disso, o estábulo estava escuro. Era um espaço longo e vazio, as baias há muito transformadas em lenha, o único sinal de seu antigo propósito um cheiro persistente de esterco. Sua presa estava sozinha no centro do local, de costas para ela, de braços cruzados. Do reforço que a guilda lhe prometera, não havia sinal algum.

Algo está muito errado. Mas era tarde demais para recuar agora. Afrouxou a espada na bainha. Os tópteros estavam lá, pelo menos. Eles sabem o que está acontecendo.

"Você é muito boa nisto", disse o agente de Bolas. Ele virou-se, empurrando o capuz para trás. Era um homem alto e curtido pelo tempo, com dreadlocks escuros. "Seguir as pessoas, quero dizer."

"Fique onde está."

"Estou preso?" Ele deu um sorriso sem humor. "Lavínia, ex-Azorius. Não acredito que você tenha mais autoridade para prender ninguém."

"As autoridades chegarão em um momento", disse Lavínia sombriamente. "Enquanto isso, tenho algumas perguntas para você."

"Muito audacioso." Ele ergueu a mão direita. Seus dedos eram garras de aço, estendendo-se de uma garra de metal retorcida. "Suponho que você tenha merecido algumas respostas."

"Quem é você?"

"Meu nome é Tezzeret. E, como você adivinhou, trabalho para Nicol Bolas."

"Quem são seus agentes nas guildas?" Lavínia deu um passo à frente. "Quanto você sabe sobre o que está acontecendo hoje à noite? Como você subornou o Mestre da Clareira Garo de Selesnya?"

"Tantas perguntas." O sorriso de Tezzeret desapareceu. "Talvez uma demonstração seja adequada."

Ele acenou com sua mão em garra e, nos cantos sombrios dos estábulos, luzes se acenderam. Coisas começaram a se agitar, constructos finos e de múltiplos braços com pernas de aranha e braços longos com lâminas. Quatro deles se empertigaram, cada um mais alto que um homem, e avançaram para cercar Lavínia.

Ao lado de Tezzeret, algo cintilou, uma forma vaga no ar como névoa quase sólida. Lavínia mal conseguia distinguir muita coisa, mas havia a sugestão de um rosto e o arco curvo de chifres.

"O Mestre da Clareira Garo, como você pode imaginar, tinha uma vontade forte", disse Tezzeret. "Quando se trata de alguém de mente fraca, ou em circunstâncias terríveis, meu . . . associado pode tomar uma ação direta. Em outros casos, eu forneço uma pequena assistência."

Ele moveu os dedos de sua mão de metal e os constructos fecharam o cerco. Lavínia retesou-se, sacou a espada e girou, chocando-se contra um do par atrás dela. Se eu conseguir voltar para a porta, fazê-lo me perseguir, então os tópteros nos pegam. Para onde seu reforço fora, ela não tinha ideia, mas tinham que estar em algum lugar por perto.

O constructo bloqueou o golpe dela com dois braços em forma de foice, seu corpo fino deslizando para trás no chão do estábulo com a força do golpe dela. Lavínia girou para longe dele, maldosamente rápida e mirou um corte em outra das máquinas, atingindo uma de suas juntas de joelho. O metal cedeu e o constructo tropeçou embriagado. Permaneceu em seu caminho, porém, seus braços-navalha balançando descontroladamente e ela teve que recuar.

Os dois atrás dela aproveitaram a oportunidade para dar o bote. A dor perfurou-a quando uma foice de lâmina fina atingiu seu braço da espada, fixando-o no lugar como um inseto espetado em uma caixa de colecionador. Outra lâmina prendeu sua perna e ela caiu de joelhos, rangendo os dentes para não gritar. O constructo girou sua lâmina e a dor aumentou. Sua espada caiu com estrépito no chão.

"Você . . . não escapará", Lavínia conseguiu dizer, encarando Tezzeret. "Os Azorius o encontrarão."

"Oh, minha cara", disse ele. "Quão pouco você entende." Ele olhou de lado para a aparição flutuante. "Eu poderia matá-la, mas parece um desperdício. Sempre acreditei em ser eficiente. Então fique quieta."

Ele buscou em uma bolsa e produziu uma meia-coleira de metal, angular e feia com saliências pontiagudas. Lavínia conseguia sentir o poder emanando dela em ondas, vicioso e sangrento e tentou se arrastar para longe, apenas para ser mantida no lugar pelos constructos com uma nova onda de dor. Tezzeret agarrou o queixo dela com sua mão de metal, com um aperto inumanamente forte e pressionou gentilmente a coisa em torno de seu pescoço.

"Para os de vontade forte, como eu disse, o processo requer minha assistência." Tezzeret deu um passo atrás e a forma cintilante e intangível aproximou-se. "E, receio, uma grande quantidade de dor."

Lavínia gritou.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#linebreak O ferrolho recuou com uma finalidade sombria. Ral colocou a mão no interruptor e pausou um momento, sentindo o poder da grande máquina zunindo ao seu redor.

"Ativando ressonância primária", disse ele.

A eletricidade estalou sobre ele, rastejando pelo interruptor conforme ele o puxava para baixo. Fechou-se com um clunk satisfatório e, de repente, o zumbido onipresente do maquinário subiu para um novo tom. Com seus sentidos mágicos, Ral sentiu o Pacto das Guildas se esforçando, as antigas restrições de Azor empurrando contra esta intrusão, mas a energia que a máquina aproveitava era titânica e a magia começou a ceder. Lentamente no início, mas pouco a pouco—

Lá embaixo, entre os técnicos, algo explodiu com um bang colossal. Ral ouviu pedaços de metal e cristal fazendo ping contra as paredes e sentiu algo puxar sua bochecha. Outra explosão seguiu e mais outra. As luzes na câmara apagaram-se e gritos subiram na escuridão iluminada apenas pelo brilho de incêndios que se espalhavam e telas de instrumentos.

"Status!" gritou Ral, sobre o coro de consternação. "O que diabos está acontecendo?"

Um burburinho de vozes respondeu.

"Perdemos energia primária — o surto explodiu a placa—"

"Nenhum relatório chegando—"

"O sangramento não para, alguém—"

Ral. A voz de Niv-Mizzet. Deu errado. #linebreak Eu sei, Ral pensou de volta. Vou consertar. #linebreak "Gullifen!" disparou ele. "Dê-me algo sobre os outros locais. Mande mensageiros se precisar. Tox, desça aos geradores, verifique a saída. Vamos desviar da placa principal—"

"Preciso de luz!" O grito foi rouco, desesperado.

Ral ergueu as mãos e a eletricidade saltou de seus dedos para as lâmpadas penduradas no alto, transformando-as em globos de relâmpago contorcidos e estalantes. Por esta radiância mutante, ele pôde ver que uma extremidade do painel de instrumentos de oito partes era um descalabro. Algo — vários algos — explodira na segunda seção, virando mesas e estilhaçando equipamentos nos nós adjacentes.

Droga, droga, droga. Apenas limpar aquilo levaria tempo. Se danificou os nós externos . . . "Gullifen!" gritou Ral.

"Ela está aqui, senhor", disse um goblin mais jovem.

Algo no tom dele fez Ral calar-se. Gullifen jazia no chão de seu cercado de controle, no centro de uma poça de sangue que se espalhava. Dois outros goblins sentavam-se ao lado dela, um pressionando um pano em sua garganta, onde um estilhaço de metal voador abrira seu pescoço. A tarefa era claramente inútil — o pano já estava empapado de carmesim e mais sangue bombeava através dele a cada batida do coração.

Tanto sangue, Ral pensou, incapaz de desviar os olhos. Quem diria que um corpo tão pequeno conteria tanto? #linebreak Gullifen piscou, bocejou como um peixe fora d'água e morreu com um estremecimento. Os dois goblins ao lado dela recuaram e Ral percebeu que o restante da sala observava. Vários dos outros técnicos tinham ferimentos também.

"Alguém me diga o que aconteceu", Ral rangeu, desviando os olhos da goblin morta. "Agora."

"Tivemos um surto através da conexão com o nó número 2", disse um vedalken. "Tenho certeza disso. O elo teve um pico e isso explodiu o acumulador aqui."

"Veio do lado deles?" Ral franziu a testa. "Isso é impossível. Os ressonadores são todos controlados daqui. Mesmo que a maldita coisa explodisse, o elo deveria ter caído, não ficado louco. Verifiquem de novo—"

Não é impossível, a voz mental de Niv ribombou. Pelas expressões sobressaltadas nos rostos dos técnicos, Ral adivinhou que todos os presentes ouviram também. Esta não é uma falha acidental. O segundo nó está em território Azorius. O tom do dragão escureceu. Dovin Baan nos traiu.

09 de Outubro de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 18

"A falha é minha", disse Niv-Mizzet, seu ribombar de baixo ressoando nos ossos de Ral. "Mais uma vez, subestimei Nicol Bolas."

"Eu deveria saber", disse Ral. "Nunca gostei daquela cobra de pele azul."

Estavam no Ninho, olhando através da grande janela circular sobre as ruas escuras de Ravnica. Nuvens pretas pairavam no alto, ocultando a lua e as estrelas, mas ainda não caía chuva. Lampejos de energia da grande máquina ainda subiam intermitentemente ao céu, em intervalos cada vez mais longos, como as batidas de um coração que enfraquece constantemente.

"Você desempenhou as tarefas que lhe foram atribuídas", disse a Mente de Fogo, movendo seu vasto volume para mais perto da janela. "Quando a cúpula das guildas falhou, você superou até minhas expectativas. Fez tudo o que eu poderia ter pedido de você, Ral."

A pele de Ral arrepiou-se com o mal-estar. Elogios como esse — de qualquer tipo, na verdade — eram incomuns para Niv-Mizzet. Ral limpou a garganta e passou uma mão estalante pelo cabelo.

"Não considerei que a traição de Vraska pudesse ter um propósito duplo", continuou o dragão. "Ela rompeu a cúpula e, ao mesmo tempo, colocou o Dovin em uma posição de autoridade sobre os Azorius."

"Acertaremos as contas com ele depois", disse Ral. "Por enquanto não há tempo. Enviei mensageiros para Kaya e Aurélia. Reuniremos uma força e invadiremos o nó Azorius. Se não tiverem causado muito dano, seremos capazes de colocá-lo online novamente e meu pessoal já está trabalhando nos reparos aqui. Um pouco de tempo—"

"Estamos sem tempo, Ral", disse Niv-Mizzet. Sua voz era quase gentil. "Olhe."

Ele estendeu uma pata maciça, batendo contra o vidro com uma única garra. A janela flexionou-se e gemeu em sua moldura. Ral cerrou os olhos, dando um passo à frente e protegendo-os contra as lanternas flutuantes no Ninho.

Havia uma linha de luz laranja, bem no horizonte. Parecia enorme, assomando sobre os edifícios circundantes, sombreando suas torres com um brilho infernal. Enquanto Ral observava, a linha alargou-se uma fração, uma rachadura no mundo abrindo-se à força sob o controle de energias incompreensíveis.

"Em nome de quê . . ." Ral olhou para a Mente de Fogo, que focou um olho enorme nele.

"Bolas vem", disse Niv-Mizzet simplesmente.

"Como?" perguntou Ral. "Já vi Planeswalkers chegarem. Não se parece com . . . aquilo."

"Não sei que magias ele dominou", disse Niv-Mizzet. "Mas ele não vem sozinho. Uma legião de monstros marcha atrás dele."

Bolas não atacaria Ravnica se não achasse que poderia vencer. Ral dissera aquilo alegremente, na preparação para a cúpula das guildas, tentando convencer os outros a levarem a ameaça a sério. Agora, pela primeira vez, ele realmente entendia o que significava. Contra tudo o que Ravnica poderia reunir — os soldados dos Boros, as invenções dos Izzet, os druidas de Selesnya e os magos de Simic, os demônios de Rakdos, os cavaleiros de Orzhov, os árbitros de Azorius e os espiões de Dimir — Bolas estava trazendo um exército que ele poderia opor a tudo aquilo. E ele espera vencer.

Ele estremeceu e rangeu os dentes por um momento.

"Então o que fazemos?" disse ele. "Se não temos tempo para consertar a máquina."

"O farol", disse Niv-Mizzet. "É o único caminho."

"Apenas . . . enviar um chamado? E esperar que os Planeswalkers do Multiverso venham nos salvar?" Ral balançou a cabeça. "Parece uma esperança bem magra."

"Esperanças magras são tudo o que resta a Ravnica, Ral Zarek." A cabeça enorme do dragão girou para encará-lo. "Estou confiando a última das nossas a você. Você consegue fazer?"

"Claro que consigo", disse Ral, empertigando-se. "Chegar lá pode ser um pouco complicado. Construímos o farol em território Azorius porque pensamos que estaria seguro e tenho certeza de que o Dovin terá metade do exército deles guardando-o agora. Mas os sistemas de segurança não permitirão que danifiquem a coisa em si, tenho certeza disso. Se eu conseguir chegar ao topo daquela torre, poderei ligá-lo."

"Bom." Niv-Mizzet virou-se. "Sugiro que se apresse. O farol pode estar protegido contra adulteração, mas Bolas ainda poderia destruí-lo. Eu impedirei isso por tanto tempo quanto puder."

"Você — o quê?" disse Ral. Ele já estivera pensando na melhor maneira de alcançar o farol, mas as palavras de Niv-Mizzet o trouxeram de volta ao presente. "O que quer dizer?"

"Quero dizer que atrasarei Bolas com o melhor de minha habilidade." A Mente de Fogo gesticulou e a grande janela abriu-se em dobradiças silenciosas. O vento ao redor da torre de Nivix gemeu e uivou.

"Mas . . . " Ral balançou a cabeça. "A máquina. Achei que todo o ponto era que você não seria capaz de enfrentá-lo a menos que nós . . ."

Sua voz sumiu conforme Niv-Mizzet voltou-se para olhar para ele, uma última vez. Ral engoliu seco, encontrando aqueles olhos enormes e ancestrais. As barbatanas ao redor da cabeça do dragão abriram-se.

"Boa sorte", disse Ral baixinho.

"Você deve ter sucesso", disse Niv-Mizzet. "Não importa o custo. Ou então tudo isto terá sido em vão."

O parun da Liga Izzet, Niv-Mizzet, a Mente de Fogo, lançou-se da grande janela de seu Ninho. Suas asas abriram-se, pegando o ar noturno com um poderoso whump, e ele voou para o alto. À distância, a linha de luz laranja espalhara-se ainda mais e Ral pôde ver o contorno de uma forma além dela. Uma cabeça enorme, com dois chifres longos e curvos.

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A Subcidade sacudiu. Vraska sentou-se em seu trono e observou a poeira cair do teto, minúsculas cascatas brilhando na luz das lâmpadas bioluminescentes cada vez que o chão tremia.

É hora, então.

"Storrev", disse ela em voz alta.

A lich Outrora, parada ao lado do trono, inclinou a cabeça.

"Vou para a superfície. Você tem minhas instruções."

"Sim, minha rainha."

Vraska agarrou o punho de seu sabre, os dedos apertando-se e levantou-se.

"Posso dizer . . . " começou a lich.

Vraska olhou para ela, surpresa. "Sim?"

Storrev inclinou a cabeça, considerando. "Boa sorte."

"Obrigada." Vraska balançou a cabeça, as gavinhas retorcendo-se. Vou precisar. Todos vamos precisar.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#linebreak Niv-Mizzet voava livre pelos céus acima do Décimo Distrito.

Era um prazer que ele se permitira cada vez menos conforme os séculos passavam. Sempre vivera principalmente em sua própria mente e, em todo caso, suas excursões tinham uma tendência a causar comoção. Na maioria dos dias, contentava-se em permanecer no Ninho, mal consciente do que o cercava enquanto contemplava assuntos muito além do conhecimento de qualquer mortal.

Hoje à noite, porém, sentia o ranger de suas asas, o açoite de sua cauda, a investida do vento por suas barbatanas e lembrou-se de como tais coisas também podiam ser agradáveis. Um momento estranho para tal lembrete, pesando tudo, mas era bem-vindo de qualquer forma. Seus pulmões arfavam, como foles tremendos e ele sentia o cheiro do ar noturno, áspero de fuligem e metálico com o rastro da máquina de Ral.

À sua frente, o grande portal partia a noite, alargando-se firmemente. Niv-Mizzet bateu as asas, ganhando altura conforme se aproximava. Quando estava a poucos quarteirões daquela coisa, estava bem acima dos topos das torres mais altas, os espigões de suas costas quase roçando as nuvens baixas e escuras.

Um pé com garras passou, a luz laranja escorrendo dele relutantemente, como água colorida drenando. Paralelepípedos racharam e estilhaçaram conforme ele desceu. Com um vasto estalido como tecido rasgando, Nicol Bolas atravessou a fronteira entre mundos, ficando silhuetado contra a noite ravnicana pelo brilho de seu portal.

Ele era deformado, na mente de Niv-Mizzet. Em pé sobre duas pernas, com o rosto achatado e a boca e traços largos, semelhantes aos humanos. Havia inteiramente demais do humano em Bolas para o gosto da Mente de Fogo. Humanos eram muito bons, pensava Niv-Mizzet, mas ele não gostaria de ser um.

Os chifres de Bolas curvavam-se para cima, emoldurando um orbe flutuante entre eles. Seus olhos imensos brilhavam, o mesmo laranja berrante do próprio portal. Ele se apoiou em um edifício próximo, uma pata dianteira mais parecida com uma mão humana agarrando a pedra e rasgando sulcos profundos nela com suas longas garras. Por um momento, olhou ao redor lentamente e então focou em Niv, bem acima dele.

"Ah", disse ele. Seu tom era urbano, culto, com o vasto ribombar dracônico oculto habilmente por baixo. "Como eu pensei—"

Niv-Mizzet nunca dera importância especial à polidez ou à cavalaria. O que ele gostava era de eficiência. E em uma luta, eficiência significava vencer o mais rápido possível.

Sua mente estendeu-se, encontrando auras por toda a cidade, feitiços que ele mesmo preparara cuidadosamente para este momento. Eles acionaram baterias de mizzium, vastas construções de cristal e metal ocultas em edifícios despretensiosos por todo o Décimo Distrito. Cada uma delas, cuidadosamente carregada há semanas, soltou sua energia acumulada em uma fração de segundo, enviando um raio titânico de poder para o céu.

Uma dúzia de enormes rajadas de energia convergiu para Niv-Mizzet de todos os pontos da bússola. O espaço ao redor dele contorceu-se, dobrando-se em uma lente que borrou a luz da cidade em um caleidoscópio cintilante. Outra lente formou-se à frente dela, depois outra, cada disco estalando nas bordas com o poder liberado do dragão. Quando os raios dos geradores atingiram as lentes, eles se torceram, estreitaram, refinaram-se como metal no calor de uma forja. Focados para baixo, depois focados de novo e de novo, até que todos os doze estivessem enrolados em um feixe mais estreito que a palma de uma criança humana, um dedo de luz tão entorpecentemente brilhante que as membranas nictitantes deslizaram reflexivamente sobre os olhos do dragão.

Ele desceu ceifando, acompanhado pelo que foi possivelmente o trovão mais alto que Ravnica já experimentara. Janelas estilhaçaram por quarteirões ao redor, cobrindo a rua de vidro. Quando atingiu Bolas no peito, o dragão ancestral foi arremessado para trás, cambaleando contra o edifício ao lado e derrubando-o em uma chuva colapsante de pedra e telhas. Um momento depois, a explosão de rocha fervente e ar superaquecido o engoliu, golpeando para fora com força de furacão. Carruagens tombaram e deslizaram de lado pelos paralelepípedos, árvores partiram-se em farpas e postes de iluminação de ferro dobraram-se ao meio. Uma onda de calor, subindo da explosão, carregou a poeira para o alto, afastando as nuvens escuras de tempestade e revelando brevemente as estrelas.

Niv-Mizzet pairou no ar, observando pedaços de destroços em chamas arquearem do ponto zero e aterrissarem pela cidade, como mísseis flamejantes lançados de catapultas. A fumaça e a poeira eram tão espessas que não havia sinal de Bolas, nem mesmo de seu enorme portal.

Considerando tudo, pensou ele, teria que considerar aquilo um experimento bem-sucedido.

Edifícios ainda estavam ruindo, aumentando o círculo de escombros e outros estavam pegando fogo. A Mente de Fogo conseguia ouvir gritos e lamentos subindo das ruas, mas eles não causavam impressão em sua mente. Os humanos de Ravnica eram sua responsabilidade, mas apenas em conjunto. Individualmente, não lhe concerniam, a menos que captassem sua atenção especial. Era difícil se importar muito com algo tão efêmero.

A verdadeira questão era o que fazer em seguida. Era difícil acreditar que a ameaça pudesse ser encerrada tão facilmente—

Uma mão enorme e com garras disparou para fora da escuridão, agarrando um edifício semidestruído. Lentamente, Nicol Bolas ergueu-se, emergindo da poeira que assentava. Ele sacudiu-se, então abriu as asas, soprando a fumaça e a areia para longe de si. As escamas em seu peito estavam borbulhantes e enegrecidas, mas ele ainda sorria, mostrando uma boca cheia de longas presas.

"Niv-Mizzet", disse ele. "A decantada Mente de Fogo. Sempre soube que você era o único neste mundo obscurecido que me daria uma luta de verdade."

"Fico feliz", disse Niv-Mizzet, "em não decepcionar."

"Não suponho que haja qualquer utilidade em pedir que você se submeta."

"Volte por aquele portal e feche-o atrás de você", ribombou Niv-Mizzet, "e eu poderei deixá-lo viver."

"Muito bom", disse Bolas, com uma risadinha. "E assim começamos."

A magia floresceu ao redor dos dois, auras estalantes de energia caótica. Cem feitiços, cada um dos quais teria exigido a atenção total de um mago mortal, surgiram diante de Niv-Mizzet, exigindo apenas o mais breve lampejo de sua mente. Bolas de fogo desceram gritando, detonando nos escombros ao redor de Bolas com explosões ensurdecedoras e chuvas de pedra estilhaçada. Raios de relâmpago estalaram nas garras de Niv-Mizzet, lampejando pelo espaço entre eles e percorrendo em ondas as escamas de Bolas. Raios de pura destruição dispararam, transformando tudo o que tocavam em pó.

A própria magia de Bolas teceu uma rede protetora e o ar ao seu redor estava cheio de relâmpagos refletidos e bolas de fogo ricocheteantes. Um raio cortou um edifício instável e um pedaço de pedra sumiu no nada, trazendo os andares superiores abaixo para a rua em uma torrente de escombros e gritos. Em resposta à barragem elemental, Bolas investiu com a própria essência da morte, fios escuros que alcançavam o céu e fantasmas invisíveis que gritavam enquanto circulavam e mergulhavam. Niv-Mizzet afastou-os por sua vez e, onde aterrissavam nas ruas, pessoas em fuga caíam em fileiras — simplesmente colapsando como fantoches quebrados ou envelhecendo décadas em poucos segundos antes de desmoronarem em pó.

Por longos momentos, açoitaram-se um ao outro, feitiço encontrando contrafeitiço em uma luta selvagem, uma névoa de poeira e magia selvagem subindo ao redor de ambos, iluminada por dentro por lampejos como relâmpagos constantes. Era parte partida de xadrez, parte briga de taverna. O ar entre eles era espesso de magia, estalando e pulsando.

De repente, Niv-Mizzet estava descendo, mergulhando pela frente da nuvem ao seu redor, garras estendidas e mandíbula escancarada, as asas dobradas conforme ganhava velocidade. O relâmpago estalava ao seu redor e a magia da morte deslizava sobre suas escamas. Bolas viu-o chegando e ergueu as mãos, mas Niv-Mizzet girou com o movimento de uma asa, agarrando o braço de Bolas com ambas as garras dianteiras. Uma batida de asas poderosa ergueu ambos os dragões do chão e Niv-Mizzet girou, enviando Bolas capotando pelo ar. Ele colidiu contra o solo, rolando por um bulevar, arrancando paralelepípedos conforme suas garras se enterravam e estilhaçando uma fonte em uma chuva de fragmentos de mármore.

"Agora você realmente me decepciona", disse Bolas, levantando-se novamente. "Devemos nos atracar como feras, então?"

"A verdadeira força", rosnou Niv-Mizzet, "vem de ser fiel à própria natureza."

Bolas bufou e abriu uma mão com garras. Vastas espirais de magia da morte desenrolaram-se, buscando Niv-Mizzet, que mergulhou novamente para evitá-las. Ele escancarou as mandíbulas e soltou uma torrente de fogo, arrastando-a sobre Bolas e fazendo o dragão ancestral erguer um braço para proteger o rosto das chamas. Atrás dele, telhados explodiram e uma torre imponente tornou-se uma chaminé jorrante de fogo. Antes que Bolas pudesse se recuperar, Niv-Mizzet estava sobre ele novamente, garras buscando as escamas danificadas no peito de Bolas. Bolas desviou, arranhando o flanco de Niv com uma garra, então cambaleou conforme a cabeça de Niv disparou e enterrou dentes do tamanho de espadas em seu pulso.

"Chega", rosnou Bolas, pressionando sua outra palma espalmada contra o crânio de Niv-Mizzet. Os olhos laranja de Bolas tornaram-se pretos como breu e o poder de sua mente surgiu através do elo entre eles.

Teria sido suficiente para queimar a mente de um mortal até as cinzas em momentos, mas Niv-Mizzet não era nenhum mortal. Ele era a Mente de Fogo, com quinze mil anos de idade e, nesse tempo, aprendera uma coisa ou outra. O assalto mental de Bolas, uma maré negra de violência e esquecimento, chocou-se contra as barreiras mentais que Niv-Mizzet erguera. Por um momento, suas defesas esforçaram-se contra as ondas, mas quando o poder de Bolas minguou, as proteções de Niv ainda estavam intactas. Bolas recuou, como um homem batendo em uma porta que esperava estar aberta e Niv-Mizzet aproveitou a oportunidade para escapar de seu aperto, arranhando o peito de Bolas com as garras traseiras enquanto voltava voando para o ar.

"Ainda decepcionado?" disse Niv-Mizzet. Seu grande peito arfava e sangue escorria por suas escamas em uma dúzia de lugares onde os feitiços de Bolas o atingiram. Sua grande barbatana fora retalhada em um lado pelas garras do dragão preto.

"Você tem . . . um pouco de força", disse Bolas, empertigando-se e abrindo as asas. Sangue preto fluía livremente pelo seu peito, onde as garras de Niv-Mizzet haviam rasgado profundamente sua carne. "Mas não o suficiente."

"E no entanto você veio ao meu mundo." Niv-Mizzet empinou-se no ar, as asas batendo. "Por quê? Simples luxúria por conquista? Que apelo podem estes mortais possivelmente ter para você?"

O lábio de Bolas curvou-se em um canto. "Você não poderia entender."

"Imagino que entendo muita coisa."

"Não isto." O brilho nos olhos de Bolas escureceu para carmesim. "Você diz 'mortais', como se não fosse um deles. Mas quando nasci, eu estava tão acima de você quanto você está acima da menor criatura que se encolhe em seus próprios dejetos. Planeswalkers não voavam simplesmente de plano em plano como viajantes. Nós possuíamos os mundos e tudo neles, as criaturas e as cidades e a própria terra. As criaturas patéticas que se nomeiam deuses não eram nada ao nosso lado. Consegue imaginar o que é ter encarnado tal glória? E então ser arrastado para a lama?"

Este último foi um rugido, ecoando pelas ruas e edifícios. Niv-Mizzet pousou no topo de uma torre conveniente e inclinou a cabeça, considerando.

"Sim", disse ele, "suponho que isso me deixaria bem bravo."

"Bravo." Bolas desdenhou. "Vou matar você, dragãozinho. E então vou colocar as coisas no lugar, de volta ao jeito que deveriam ser. Seu plano, e todos nele, serão meus para comandar."

"Seremos, agora?" Niv-Mizzet abriu as asas e saltou no ar novamente, conjurando uma chuva de pedras ardentes que caíram pesadamente e rápido ao redor de Bolas. O dragão ancião agitou as asas, desviando os mísseis, e eles colidiram contra ruas e edifícios, explodindo crateras em um quarteirão que já era majoritariamente escombros.

Bolas contra-atacou, lançando miasmas de decadência e linhas retorcidas de energia do vazio e, por mais alguns momentos, os dois dragões ficaram travados em um combate taumatúrgico. Mas o teste de força confirmou a verdade desagradável do que Niv-Mizzet pressentira antes. Em qualquer disputa desse tipo, a longo prazo, ele ia perder.

Não era algo fácil de admitir. Por quinze mil anos, ele estivera confiante de que nenhuma criatura em Ravnica poderia desafiá-lo se ele se esforçasse. Nem mesmo o próprio Rakdos, Niv sempre acreditara, estaria à altura se chegasse ao aperto real, embora é claro que seria terrivelmente deselegante permitir que tal coisa realmente viesse a acontecer. E, logicamente, ele soubera que o poder de Bolas devia ser considerável, já que Bolas obviamente estava ciente da presença de Niv-Mizzet e escolhera prosseguir com sua invasão de qualquer maneira.

Mas uma coisa era chegar a tal conclusão e outra bem diferente era senti-la em seus ossos. No fundo, Niv percebeu, ele sempre acreditara que Bolas cometera um erro, que quando se enfrentassem o dragão ancião se encontraria em desvantagem. A percepção de que Bolas tinha o poder para sustentar suas palavras era profundamente inquietante.

Talvez, concluiu Niv, ele tivesse sido um pouco preguiçoso nos últimos milhares de anos, deixando mortais cuidarem de seus afazeres por ele. Infelizmente, não havia muito o que fazer a respeito agora.

Que vantagens ele poderia reivindicar para si? Preparação, mas seu ataque inicial esgotara isso e Bolas ainda estava de pé. Aliados eram inúteis. Conhecimento, então. Estavam lutando no plano de Niv, a casa dele. Aquilo deveria valer algo.

Dobrando as asas com força, ele mergulhou, garras estendidas.

Bolas esquivou-se para o lado, a boca escancarada para soprar uma linha de fogo de tonalidade preta que Niv-Mizzet rolou para evitar. Niv sentiu a magia da morte lamber-lhe, mas suas garras traseiras novamente arranharam o peito de Bolas e o dragão ancião berrou de raiva. Niv-Mizzet saiu de seu mergulho, disparando por cima de uma fileira de edifícios sobreviventes e Bolas seguiu, as asas imensas puxando-o lentamente para o ar. Seu voo era deselegante — bípedes não serviam para asas, pensou Niv-Mizzet com um bufo — e seus pés com garras roçaram nos telhados abaixo dele, raspando telhas em uma chuva de barro quebrado.

"Certamente você não pensa em fugir", gritou Bolas, enviando onda após onda de magia atrás de Niv-Mizzet enquanto corriam para fora do Décimo Distrito.

"Claro que não."

Niv girou no ar, mais rápido do que Bolas jamais conseguiria, e mergulhou novamente contra seu oponente. Desta vez Bolas não se esquivou, mas encontrou as patas dianteiras de Niv com suas próprias mãos. O ímpeto de Niv levou-os para baixo e contra uma fileira de elegantes sobrados, tijolo e pedra estilhaçando como vidro ao redor deles.

Estavam travados, mão com mão. Bolas escancarou a boca e soltou uma torrente de chamas e Niv-Mizzet contra-atacou com a sua própria, as duas cortinas de fogo jorrando encontrando-se entre eles em uma explosão espetacular. A onda de calor lavou sobre ambos, chamuscando as barbatanas de Niv. Ele deslocou seu peso, deixando um braço cair, então dobrou-se sobre si mesmo e chutou Bolas com as pernas traseiras, enviando o dragão ancião para o ar. As asas de Bolas dispararam para estabilizá-lo enquanto Niv-Mizzet voltava a voar.

"Você não vai vencer", disse Bolas. "Você sabe disso."

"Talvez não", disse Niv-Mizzet, metade para si mesmo. "Mas vou tentar."

Ele mergulhou de novo. Mais uma vez, Bolas posicionou-se para recebê-lo e o ímpeto do dragão em queda levou ambos para baixo. Desta vez, porém, Niv-Mizzet soltou-se cedo, afastando-se. Bolas abriu as pernas, esperando atingir o chão em uma posição agachada e saltar de volta—

—mas não havia chão.

Tinham chegado à borda de um dos zonots da guilda Simic, um buraco enorme na superfície urbana de Ravnica, descendo por toda a Subcidade até os mares que jaziam nas profundezas subterrâneas. As bordas do poço gigantesco estavam incrustadas com edifícios, guindastes e escadarias, agarrando-se a ele como cracas, mas o centro era uma queda longa e vazia. Bolas caiu e continuou caindo, sobressaltado. Suas asas subiram, mas ele não era um voador forte e não havia espaço para ele bater com força e ganhar muito ímpeto.

Niv-Mizzet, de qualquer forma, não deu tempo para Bolas se recompor. Uma lança de fogo líquido saltou de sua garganta, direcionada não para baixo contra Bolas, mas através do zonot, contra as rochas e pedras que compunham a borda. O tecido da cidade, muros e edifícios e porões, explodiu em fragmentos. Niv mirou cuidadosamente, logo abaixo da borda, minando uma enorme plataforma de pedra e edifícios conforme seu sopro incandescente rasgava mais fundo na subestrutura. Após alguns segundos, ela cambaleou, então começou a deslizar, rompendo-se do chão e escorregando através da rocha esmagada e derretida para dentro do poço do zonot. Um pedaço enorme de pedra e alvenaria, maior que um quarteirão da cidade, soltou-se, partindo-se em pedaços menores conforme tombava. Madeira e pedra, tijolo e ferro, pessoas e carruagens, milhares de toneladas do tecido de Ravnica desceram para as profundezas, caindo em cascata sobre a cabeça de Nicol Bolas.

Niv-Mizzet pausou conforme uma onda massiva de poeira veio revolteando de volta pelo zonot, os olhos imensos piscando. O ar estava cheio de gritos, lamentos e fogo estalante, mas ele os ignorou, escutando o som de pedra se movendo lá embaixo. Ter matado Bolas era impensável, mas até um dragão ancião poderia ficar inconveniente por bastante tempo se você o enterrasse sob mil toneladas de rocha. Talvez—

Relâmpagos pretos dispararam para cima vindos do poço, estalando nas nuvens no alto. Uma descarga, depois outra. Mais energia sombria alcançou as bordas do zonot, rastejando por ele em arcos titânicos. Niv-Mizzet sentiu o puxão da magia da morte; nos edifícios que margeavam o poço, os habitantes aterrorizados caíram silenciosamente em pilhas de pó.

Uma esfera de escuridão subiu, lentamente, através das nuvens revoltas. Pedaços de rocha ainda caíam da borda quebrada do zonot, mas onde faziam contato com o vazio, eles simplesmente se dissolviam, totalmente obliterados. Niv-Mizzet recuou, pousando em um edifício, conforme o orbe preto alcançava o nível da rua e continuava subindo. Quando estava quase na borda inferior das nuvens, parou, então explodiu em uma chuva de faíscas pretas que caíram por toda a cidade, dissolvendo o que quer que tocassem em absoluto nada.

Bolas pairava onde a esfera estivera, as asas imensas batendo lentamente, sangue preto ainda pingando do corte em seu peito. Ele encarava Niv-Mizzet, seus olhos brilhantes ardendo de raiva.

Niv olhou de volta para ele. Sentiu algo estranho, uma emoção desconhecida para ele. Longos momentos passaram enquanto ele a considerava.

Medo, decidiu ele. Então era assim que era o medo.

Era, pensou Niv-Mizzet, indigno da Mente de Fogo. Então afastou o sentimento, rugiu seu desafio e saltou em direção ao céu, mesmo enquanto gavinhas de morte e destruição se desenrolavam das mãos estendidas de Bolas.

16 de Outubro de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 19

A Torre do Farol ficava na esquina de um quarteirão residencial comum, perto o suficiente de Nova Prahv para que a maioria dos residentes fossem escreventes e funcionários que trabalhavam naquele complexo maciço. Em um dia comum, Ral poderia ter visto vendedores de comida de rua ou jornais, carruagens transportando os residentes mais ricos e um mar de pedestres amontoados sob guarda-chuvas contra as chuvas de outono. A própria torre fora usada por um scriptorium próximo como espaço extra de armazenamento até que a equipe de Ral deslocasse suas caixas de papel e as substituísse por cristais e fios de mizzium.

Hoje, é claro, estava tudo menos normal. No momento em que Ral chegou ao encontro, a um quarteirão da torre, a batalha entre dragões estava a pleno vapor. Qualquer que tenha sido o ataque que Niv-Mizzet lançara contra Bolas — uma luz tão brilhante que machucara os olhos, mesmo através das pálpebras fechadas — levantara uma enorme nuvem de poeira e detritos, obscurecendo o horizonte naquela direção. Os clarões e estalidos de magia indicavam que o conflito continuava.

No restante do distrito, todos pareciam ter ficado um pouco loucos. A maioria dos cidadãos comuns correra para seus porões, ignorantes da verdadeira importância do que estava acontecendo. Outros tomaram as ruas em turbas, exigindo respostas das guildas ou chocando-se com quem quer que pensassem ser o inimigo. Havia brigas e saques, tanto mais porque as forças Azorius que normalmente seriam mobilizadas contra tal caos pareciam ter desaparecido completamente.

Tropas da Legião Boros foram mobilizadas para conter o pânico, mas estavam espalhadas demais e os Gruul estavam tornando uma situação ruim ainda pior. Bandos de anarquistas em fúria haviam fervilhado para fora dos cinturões de escombros, atacando os postos Boros ou esgueirando-se para causar estragos na cidade. O restante das guildas reforçou suas defesas em resposta, deixando a cidade como uma coleção de acampamentos armados, enquanto todos assistiam aos dragões se digladiando e tentavam imaginar o que viria disso.

O que pensariam se soubessem que é apenas uma distração? O poderoso Niv-Mizzet, lançando-se contra o invasor Nicol Bolas, tudo para ganhar tempo para Ral subir alguns andares e apertar algumas teclas em uma máquina incompreensivelmente complexa. Eu também não acreditaria.

Mas Dovin Baan claramente entendia, ou ao menos recebera instruções detalhadas. Ral, parado em um beco entre uma confeitaria e um armarinho, espiou pelo canto e fez uma careta. As tropas Azorius que faltavam no restante do Décimo Distrito estavam presentes em força aqui. Esquadrões de detentores guarneciam barricadas improvisadas por todas as ruas perto da torre, centenas deles, apoiados por hussardos a cavalo e um enxame de tópteros pairando no alto.

Isto, pensou Ral, não vai ser fácil.

No horizonte, houve um lampejo de luz, seguido alguns segundos depois por um estrondo surdo que se desvaneceu em um ribombar de trovão. Ral olhou para as nuvens no alto, mas, embora escuras e pesadas, não mostravam inclinação para adicionar qualquer pirotecnia natural ao turbilhão dracônico. Ele olhou por cima do ombro, encontrou o beco ainda vazio e voltou azedamente a examinar as defesas.

"Ei", disse Kaya, atrás dele.

Ral conteve-se com um esforço. "Esgueirar-se por trás das pessoas é má educação nos melhores momentos. Agora é uma boa maneira de ser eletrocutada."

"Desculpe", disse ela. "Força do hábito. Recebi seu bilhete."

"Já é alguma coisa, de qualquer forma." Ral empertigou-se e virou-se. Kaya estava vestida com o traje prático de combate em que ele a encontrara pela primeira vez, sem qualquer insígnia Orzhov, e suas adagas simples pendiam ao seu lado. "Dê uma olhada e me diga o que acha."

Ela inclinou-se brevemente para a rua e deu um assobio baixo. "É muita espada. O que tem naquela torre, afinal?"

"Talvez nossa última chance." Ral olhou para a massa fervilhante e lampejante de fumaça e nuvens que era a batalha em curso. "Estou aberto a sugestões."

"É algo que possamos roubar?" perguntou Kaya. "Eu poderia entrar na torre pelos edifícios atrás dela, eu acho."

"Infelizmente, eu mesmo tenho que entrar lá", disse Ral. "E tenho certeza de que há guardas lá dentro também."

"Então temos um problema", disse Kaya.

"Alguma chance de reforços dos Orzhov?"

"Trouxe tudo o que consegui liberar com pouco aviso prévio", disse Kaya. Ela apontou para cima e Ral esticou o pescoço. Os telhados sobre o beco estavam repletos de rostos de pedra feios e deformados. Gárgulas. "Elas são silenciosas e obedecem a ordens. Qualquer outra coisa significaria ter um debate com os hierofantes, para o qual não achei que tivéssemos tempo. O Tomik disse que faria o melhor que pudesse."

Ral sentiu uma pontada, que suprimiu implacavelmente. Tempo para isso depois. "Se pudessem causar confusão suficiente", disse ele, "poderíamos ser capazes de chegar às portas da frente, mas—"

"Meus parceiros!"

Um conjunto de passos se aproximando rapidamente revelou Hekara, movendo-se com velocidade. Então Ral viu-se sendo abraçado, o que não era uma experiência na qual ele estivesse particularmente interessado. Ele colocou uma mão na testa de Hekara para afastá-la e ela alegremente transferiu-se para Kaya, que suportou o abraço com melhor humor.

"Vejo que você também recebeu meu bilhete", disse Ral.

"Sim!" Hekara soltou Kaya e voltou-se para ele, radiante. "Estava lá embaixo esperando por Sua Flamejância quando ele apareceu e me disse para vir te dar uma mão. Então aqui estou eu!"

Hekara estivera curiosamente ausente nos últimos dias, dada sua habitual relutância em deixar o lado de Ral. Ral recusara-se a se preocupar com ela. Preocupe-se mais com quem quer que ela encontre. Ainda assim, ele tinha que admitir que era um alívio tê-la de volta sob seus olhos.

"Ouvi dizer que temos umas coisas para quebrar", disse Hekara. "Todos aqueles cabeças-de-ferro ali, né?"

"Mais ou menos", disse Ral. "Precisamos chegar à torre. Você tem alguma ideia?"

"Tenho muitas ideias!" disse Hekara. "Já te contei aquela do pato engraçado que usa calças?"

"Ideias relevantes", corrigiu Ral, trocando um olhar com Kaya, que parecia mais divertida do que ele.

"Pooooode ser", disse Hekara. "Um relevante é uma daquelas coisas cinzas grandes com orelhas tipo um loxodonte gigante, né?"

"Hekara", disse Kaya gentilmente, conforme Ral rangia os dentes. "Como passamos pelos guardas?"

"Oh!" disse ela. "Isso. Esperem um minuto." Ela colocou a mão em concha no ouvido, escutando e, na quietude, Ral ouviu algumas notas dissonantes. "Trouxe alguns amigos."

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A princípio foi apenas um tipo de ruído ofegante e arquejante, como se alguém estivesse tocando acordeão.

Conforme crescia, ficou claro que alguém estava tocando acordeão e que não era muito bom nisso. Então, conforme o nível do som aumentava, o ouvinte percebia que não apenas o tocador de acordeão não era particularmente habilidoso, mas o próprio instrumento parecia estar mortalmente ferido, descarregando grandes blats de som em intervalos semi-aleatórios. Rapidamente uniu-se a ele um coro de trompetes de latão, nenhum em sintonia, e uma falange de tambores, nenhum dos quais compartilhara suas ideias sobre qual deveria ser o ritmo.

Era, em suma, uma cacofonia, mas muito deliberada, uma parede de ruído dissonante que de alguma forma se combinava para produzir uma melodia estranha e aos trancos. Era cativante em sua ruindade, crescendo e diminuindo, quase se unindo e então colapsando de volta em suas partes componentes.

Um homem minúsculo dobrou a esquina, com mal um metro e vinte de altura, vestido em um traje dourado bizarro e fazendo malabarismos com todas as suas forças. Uma galáxia giratória de bolas preenchia o ar acima dele, intercalada com facas, machados e rolos de massa e suas mãos eram um borrão enquanto ele habilmente pegava esses objetos e os lançava de volta ao ar em trajetórias longas e em arco que estavam de alguma forma no tempo da música atemporal tocando atrás dele. O malabarista era seguido por um par de garotas fazendo acrobacias em enormes aros de metal, que oscilavam pela rua como moedas girando, suas ocupantes lantejouladas de cabeça para baixo metade do tempo. Atrás delas vinha uma fileira de tambores, seis lado a lado, com mais três em pé sobre seus ombros.

Atrás disso vinha uma plataforma quase tão larga quanto a rua e tão longa quanto várias carruagens. Era carregada por uma fileira de criaturas grandes e corpulentas de cada lado, ogros, minotauros e qualquer outra espécie alta e larga o suficiente, todos decorados em vermelho e preto cintilantes e adornados com ornamentos de ouro e prata. No topo da plataforma, um par de goblins saltitava com o acordeão pressagiado, que se revelou não tanto danificado, mas pesada e inexperientemente modificado com um tubo enorme e um conjunto extra de foles. Trompetistas em trajes multicoloridos passeavam em círculo ao redor do palco móvel, virando-se periodicamente para inverter a direção com muito tropeço cômico e batendo uns nos outros com seus instrumentos desajeitados. Mais malabaristas desviavam-se pela briga, lançando coisas improváveis uns para os outros e disparando insultos aos trompetistas conforme quase os faziam tropeçar.

Mais artistas flanqueavam o palco, saltando e capotando, girando longos lenços de seda e soprando longas golfadas de fogo no ar. Outra fileira de tambores trazia a retaguarda, todos criaturas maiores carregando bumbos mais profundos, fornecendo uma batida de base pulsante. Os passos pesados dos carregadores do palco fundiam-se com os estrondos profundos para soar como um exército em marcha.

"O que", disse Ral, elevando a voz para ser ouvido, "é suposto que isso seja, exatamente?"

"O Carnaval Extraordinário de Delícias do Mestre Panjandrum!" disse Hekara, saltitando animadamente. "Sua Rakkness disse para virem nos dar uma mão. Não são ótimos?"

"São certamente barulhentos", disse Ral, conforme o palco passava.

"Desculpe", disse Kaya, observando uma mulher em figurino provocante dobrar-se em uma direção improvável e soprar beijos feitos de fumaça colorida. "Acho que não estou acompanhando. Estes são nossos reforços? Um circo?"

"Com Rakdos, um circo nunca é apenas um circo", disse Ral. "Venham, vamos ficar perto. Suas gárgulas conseguem lidar com os tópteros?"

Kaya assentiu e gritou algo para os telhados. Um momento depois, o bando de gárgulas alçou voo, circulando a torre.

"Elas esperarão que comecemos", disse Kaya, trotando para acompanhar Ral. "O que quer que seja que estejamos fazendo."

"Apenas observe", disse Ral. "E prepare-se para correr."

Hekara saltitava ao lado dele, batendo palmas completamente fora do ritmo da música.

Os soldados Azorius, dispostos atrás de suas barricadas, dificilmente poderiam ter perdido a aproximação do palco móvel e sua falange de artistas. Aparentemente, porém, não estavam claros em suas mentes sobre o que fazer a respeito, porque houve muita correria e consulta antes de um oficial apressar-se rua abaixo, acenando os braços.

"Cavalheiros!" gritou ele. "Esta área está sob o controle direto do Senado, de acordo com a Resolução 3842, relativa a emergências e conduta apropriada. Além disso, seu . . . entretenimento deveria ter sido registrado antecipadamente no Departamento de Uso de Ruas e todos os oficiais relevantes teriam sido notificados. Receio que vou ter que pedir que se dispersem."

"Oh, céus."

Um homem que Ral não notara antes desdobrou-se da frente do palco. "Desdobrou-se" era exatamente a palavra certa — Ral nunca vira um humano tão alongado. Ele era uma cabeça e ombros mais alto que o próprio Ral, mas esqueleticamente magro, com membros que pareciam gravetos secos. Um terno formal pendia dele como se estivesse em um varal de roupas, parecendo ridículo, e um chapéu pequeno demais assentava-se absurdamente em seu crânio protuberante. Seu rosto estava pintado de branco total, com lábios e olhos contornados em carmesim brilhante.

"Aquele é o Mestre Panjandrum", confidenciou Hekara.

Mestre Panjandrum desceu da borda do palco, o pé pousando suavemente nas costas de uma acrobata que se contorceu para fazer um banquinho. Mesmo ao nível do solo, Panjandrum assomava sobre o oficial Azorius. Ao seu lado, o pequeno malabarista ainda estava em pleno movimento, objetos variados girando acima dele em um loop interminável.

"É realmente uma pena", disse o mestre de circo. "Os rapazes ficarão tão decepcionados. O que vocês acham, rapazes?" Ele elevou a voz. "Dizem que temos que ir para casa!"

A música parou de forma abrupta e dissonante. Os tambores cessaram, os trompetistas congelaram no meio da nota e o acordeão silenciou após um último blat desafinado. Houve um momento de silêncio e então cem vozes gritaram em coro.

"O show tem que continuar!"

"Bem", disse Panjandrum, conforme a música recomeçava. "Aí está."

"O—o quê?" O detentor cerrou os olhos. "Vejam bem—"

Então ele parou, porque um dos objetos da coleção giratória do malabarista — uma bola de metal do tamanho aproximado de um punho — escapara dele e caíra de uma altura considerável para aterrissar em cheio na cabeça do oficial. O homem tombou sem forças nos paralelepípedos.

"Ops", disse Panjandrum. Seu sorriso pintado alargou-se em um sorriso enorme.

Hekara, ainda saltitando, deu uma cotovelada nas costelas de Ral. "É aqui que a coisa fica boa."

"Capitão!" alguém gritou, vindo das fileiras Azorius. Uma mulher uniformizada levantou-se da cobertura, dando um passo à frente, apenas para cair para trás com um cutelo de açougueiro enterrado em seu olho. O pequeno bobo da corte tornou-se um borrão, objetos saindo girando de suas mãos para as fileiras de tropas Azorius. Facas, pratos cujas bordas se revelaram afiadas como navalhas, sacos de feijão que explodiam em enxames de minúsculos dardos de prata e armas ainda mais improváveis choveram.

Como um só, a fileira da frente de tambores esmagou seus instrumentos sobre os joelhos, revelando longos chicotes com lâminas guardados em seu interior. Aqueles que estavam nos ombros dos outros saltaram para baixo, suas novas armas balançando em arcos amplos e mortais. Atrás deles, os trompetistas ergueram seus instrumentos aos ombros e puxaram gatilhos ocultos, fazendo-os cuspir dardos de besta com ponta de aço.

"Fogo!" alguém gritou, na base da torre. "Retornar fogo!"

Bestas zuniram, enviando uma chuva de virotes para o circo itinerante e enviando artistas colidindo nos paralelepípedos. Um homem, atingido no meio do ato de cuspir fogo, explodiu em uma espetacular bola de chamas. Um virote atingiu uma das acrobatas enquanto ela voava pelo ar e ela girou com o ímpeto dele, executando uma aterrissagem perfeita com os braços estendidos antes de fazer uma longa reverência e cair morta.

"Todo mundo é crítico", murmurou Mestre Panjandrum, abaixando-se em meio à saraivada de fogo. "Mostrem a eles o que fazemos com os críticos, rapazes!"

Os artistas Rakdos soltaram um rugido e avançaram, deixando o palco portátil cair ao chão. Detentores Azorius ergueram-se da cobertura para encontrá-los, espadas sacadas e a batalha começou.

Kaya olhou com incredulidade, depois voltou-se para Hekara. "Todos os seus circos são assim?"

"Nem todos", disse Hekara, ponderando. "Às vezes eles têm tigres!"

"Lembre-me de pular esse", disse Kaya, sacando suas adagas. Acima, gárgulas mergulhavam e desciam, emaranhando-se com os tópteros pairando. "Vamos?"

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A praça era um caos. Acrobatas capotando com dedos laminados cortavam e giravam, malabaristas lançavam suas armas e um esquadrão de ogros em maquiagem de palhaço investia contra os soldados Azorius de uma forma que sugeria que não estavam nem um pouco divertidos. Um grupo de hussardos carregou, sabres cortando. Um deles decepou a cabeça de um malabarista de forma limpa, apenas para o artista decapitado pular de volta um momento depois e revelar ser dois goblins em um casaco longo.

Ral, Kaya e Hekara abriram caminho pela confusão, dirigindo-se à porta da frente da torre. Na maior parte do tempo, as tropas Azorius os ignoravam em favor de ameaças mais óbvias. Hekara saltitava deliciada, conjurando suas lâminas longas e finas do nada e lançando-as em todas as direções, encontrando olhos, gargantas e frestas na armadura. Kaya tomou a dianteira, adagas em punho e, quando um detentor vinha em sua direção, ela simplesmente o deixava passar por ela em um lampejo de luz roxa, para então plantar uma faca em suas costas enquanto ele tentava entender o que acontecera.

Pedaços de tópteros choviam, engrenagens e cristais esmagados caindo constantemente ao redor deles. As máquinas voadoras revidavam, com brocas giratórias e faíscas elétricas e a gárgula quebrada ocasional também caía, partindo-se e descendo como uma chuva de cascalho. Ral olhou para cima, não para a luta aérea, mas para os clarões e brilhos nas nuvens mais distantes, tentando avaliar como aquela luta muito maior estava indo. Era impossível ver qualquer coisa daqui, exceto que ainda estava em progresso. Ainda não estamos sem tempo.

Em frente à porta da torre, uma fileira de detentores disciplinados com escudos pesados postava-se diante de um mago de túnica, que gritava comandos que quase não eram ouvidos. Eles avistaram Ral e os outros e ergueram seus escudos a tempo de desviar uma chuva de facas de Hekara.

"Fora do caminho", rosnou Ral, erguendo as mãos. O relâmpago estalou e cuspiu de seus dedos.

"Esta torre está fora de limites", gritou o mago, erguendo as mãos. Luz branca subiu ao redor dele em círculos concêntricos nítidos. "Vocês estão proibidos de cruzar o limiar, por ordem do Senado!"

Glifos brilharam e giraram, dando às palavras do mago da lei a força da magia. Ral enviou um raio de relâmpago contra ele, mas ele quebrou contra a proteção. Ele cerrou a mandíbula.

"Não temos tempo para isto", disse ele. "Hekara, um dos seus amigo—"

"Eu cuido disso", disse Kaya. "Prendam a atenção deles."

"Certo!" disse Hekara. Ela saltitou para frente, convocando mais lâminas. Kaya respirou fundo, então afundou na terra com um clarão roxo.

Ral deu de ombros e enviou outro raio contra o mago da lei. O homem torceu as mãos, reforçando sua proteção. Outro raio e mais outro conseguiram igualmente pouco e Ral viu a confiança do mago crescer. Ele gesticulou para seus soldados avançarem.

Ral foi o único que viu Kaya sair do chão, ofegante em busca de ar. Antes que o mago soubesse que ela estava lá, ela o estava alcançando, trazendo sua adaga pela garganta dele. Ele caiu em uma maré de sangue e o feitiço estremeceu e sumiu. Ral ergueu as mãos e sentiu o poder fluindo de seu acumulador, reunindo-se por um momento em suas manoplas antes de saltar para percorrer toda a fileira de soldados Azorius. Eles colapsaram como dominós e Ral e Hekara saltaram levemente sobre a linha de corpos blindados.

A porta chacoalhou quando Ral tentou abri-la, mas não se moveu. Ele franziu a testa e olhou por cima do ombro. A praça ainda estava cheia de artistas Rakdos travados em combate com tropas Azorius, mas aquilo não duraria para sempre — reforços estavam quase certamente a caminho.

"Afastem-se", disse ele, erguendo as mãos.

"Espere um minuto", disse Kaya. Ela aproximou-se da porta, enfiou o braço direto por ela e tateou por um momento. Um thump pesado indicou que ela deslocara a barra do outro lado e ela a abriu. "Muito mais fácil."

"Isso é prático!" disse Hekara. "Ei, o que aconteceria se você colocasse a cabeça, né, e então alguém tentasse abrir a porta e—"

"Tento não pensar nisso." Kaya entrou no espaço escuro além. "Este lugar parece vazio."

"O farol está no topo", disse Ral.

Ele gesticulou para Hekara entrar e fechou e barrou a porta atrás deles. A torre estava, de fato, majoritariamente vazia, com uma única escadaria larga serpenteando por seu aro externo. Outrora possuíra mais andares internos — os suportes de pedra para as tábuas de madeira do chão ainda estavam lá — mas os engenheiros Izzet os arrancaram para facilitar o içamento de componentes até o topo com guindastes. Olhando direto para cima, Ral podia ver a parte inferior de uma massa complicada de maquinário, engrenagens intertravadas, grandes alças penduradas de cabo de mizzium e acumuladores de cristal estalantes.

"Digo, eu teria pensado que teriam guardas aqui dentro também", disse Kaya. "Se é tão importante."

"Eles podem estar esperando por nós no topo também", disse Ral. "Cuidado."

"Temos que caminhar? Você não disse que tinha um daqueles elevadores?" perguntou Hekara.

"Era mais uma catapulta, se bem me lembro", disse Ral. "Acho que levaram de volta para Nivix quando terminaram o trabalho."

"Ahhh", disse Hekara. "Aquilo parece sensacional."

Começaram a subir as escadas, com Kaya tomando a dianteira com adagas sacadas. Na metade da primeira volta, Ral ergueu a mão, encarando a escadaria curva à frente deles.

"Algo se moveu", disse ele, concentrando-se. "Vejam bem."

Uma bola de eletricidade sibilante apareceu sobre sua mão e Ral soprou-a gentilmente. Ela derivou para frente, expandindo-se em um campo de poder, não forte o suficiente para fazer nada além de arrepiar os pelos da pele de alguém. Mas ela contornou tudo à frente deles com uma breve aura estalante — as paredes, as escadas, uma alça de bobina pendurada—

—e uma dúzia de coisas estranhas, finas e de seis pernas.

Kaya retesou-se conforme as criaturas se levantavam. Não eram invisíveis, exatamente, apenas habilmente camufladas, suas superfícies de metal plano mudando de cor e tonalidade para se misturarem com a pedra atrás delas. Tinham corpos longos e assimétricos, com pernas magras, tipo estacas, que se retorciam e enganchavam estranhamente.

"Aqui estão seus guardas", disse Ral.

"O que são elas?" perguntou Hekara.

"Constructos", murmurou Ral.

Hekara inclinou a cabeça. "Pensei que eles fossem todos grandes e cobertos de engrenagens. Estes são meio fofos."

"Estas são criações de Tezzeret", disse Ral.

"O que quer que sejam", disse Kaya, "temos que passar por eles, não temos?" Ela baixou-se em uma posição agachada. "Vamos acabar com isso."

O constructo líder avançou, as pernas clicando na pedra. Kaya correu contra ele, adagas estendidas e ele ergueu um membro para espetá-la na ponta em forma de agulha. No momento em que o golpe veio, porém, ela se fora, esquivando-se lateralmente e atravessando um dos outros membros da coisa na fase para atacar a próxima máquina da fila. Suas adagas mergulharam no flanco dele, as pontas escorregando por sua pele de aço com um clarão de luz roxa para causar estragos em seu funcionamento interno.

Hekara colocou o sorriso louco que reservava para ferir pessoas ou quebrar coisas e conjurou um par de adagas do ar. O primeiro par simplesmente ricocheteou na cobertura externa resistente do constructo, então a bruxa das lâminas criou outro par, afiado e estreito como picadores de gelo e disparou para frente. Ela esquivou-se por baixo do constructo líder, esfaqueando para cima e enterrando suas armas em sua barriga.

Ral seguiu o exemplo dela. Um raio de relâmpago apenas deslizaria pelas peles de metal das coisas, então ele concentrou sua energia em suas manoplas, segurando uma bola de plasma acima de sua palma até que brilhasse em branco incandescente. Quando um constructo investiu contra ele, ele desviou de seu corte e esmagou a energia concentrada contra ele. O que passava por sua cabeça explodiu em uma chuva de metal superaquecido e a coisa tropeçou embriagada para o lado, caindo da escada, atingindo o chão da torre lá embaixo e explodindo em uma massa de metal retorcido.

À frente, Kaya desmantelava outra máquina com suas adagas e Hekara mantinha uma ocupada enchendo-a de buraquinhos. Quando seus picadores quebravam em suas mãos, ela simplesmente convocava novos e continuava, mantendo-se longe dos contragolpes do constructo com facilidade desdenhosa. Ral veio por trás e fritou a coisa com um toque, saltando sobre seu corpo em colapso para interceptar outra antes que pudesse espetar Hekara pelas costas. Outro constructo caiu das escadas, com quatro de suas seis pernas já desprendidas. Em mais alguns momentos de ação frenética, o caminho estava livre.

"Nada como uma boa luta com seus parceiros, né?" Hekara olhou para seus dois companheiros com um largo sorriso.

"Pode certamente ser revigorante", admitiu Kaya, com um pequeno sorriso.

"Esses não podem ser os últimos deles", disse Ral. Ele olhou para cima e balançou a cabeça. "Algo está nos esperando lá em cima."

"Então vamos pegar eles também!" disse Hekara. "Vamos."

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#linebreak A última curva das escadas ficava dentro do maquinário do farol, então eles eram flanqueados por bancos de bobinas e acumuladores, painéis de controle e alças penduradas de fio. Nada daquilo parecia danificado — Ral sabia que o cerne do farol era bem protegido, mas ele ainda se preocupava que as forças de Bolas pudessem ter tentado desativá-lo. Aparentemente não. A atenção deles deve estar em outro lugar. #linebreak Onde a torre de pedra terminava, as escadas emergiam em um convés plano que formava a base de uma ampla cúpula de cobre. O maquinário do farol estava concentrado no centro da sala, disposto ao redor de um único e vasto cristal ressonante. Aquele era o coração da coisa, a tecnologia que Ral resgatara do Projeto Vaga-lume, amplamente escalonada e invertida. Quando a corrente apropriada fosse aplicada, ele se tornaria uma tocha flamejante, brilhando para o Multiverso. Ao menos em teoria, cada Planeswalker seria capaz de vê-lo e encontrar seu caminho para Ravnica.

Em frente ao cerne havia um teclado, como o de um piano, completo com teclas de marfim. O bloqueio de segurança. Aquela era a salvaguarda final. Se Ral digitasse a sequência que escolhera, o que parecia ser há cem anos, então o farol seria ativado. E aquela ativação fora projetada para ser irrevogável — ele queimaria até que seu combustível acabasse. Quase lá. #linebreak Infelizmente, o restante da sala não estava vazio. Pilares de aço postavam-se em intervalos regulares, suportando uma malha complicada de fios, condutos e trens de engrenagem elaborados. Alguns dos equipamentos passavam por grades no chão para conectar-se com coisas lá embaixo; outros fios alcançavam as paredes, saindo por outras grades que davam uma visão tênue do céu escurecido lá fora.

No meio desta selva, entre eles e o teclado de segurança, duas mulheres estavam lado a lado. Lavínia trocara seu manto com capuz por um conjunto brilhante de armadura Azorius azul e dourada e permanecia com uma mão em sua espada. Ao lado dela, Vraska estava toda de preto, suas gavinhas já retorcendo-se. A górgona olhou para os três com um sorriso dentado e desdenhoso.

"Bem", disse ela, "vocês demoraram bastante."

23 de Outubro de 2019 | Por Django Wexler

A Tempestade Vindoura: Capítulo 20

Vraska e Lavínia. Ral olhou para o par e cerrou os olhos. Mas não é, pois não?

"Lavínia nunca trabalharia para o Bolas", disse ele em voz alta. "Não voluntariamente."

"Ele tem um tipo de . . . emissário", disse Kaya. "Um fragmento de seu espírito, eu acho. Ele pode controlar as pessoas."

Ral, lembrando-se do Mestre da Clareira Garo e sua tentativa de golpe em Selesnya, assentiu lentamente. "Já conheci a coisa."

"Então . . . " disse Hekara. "Ela está do nosso lado, do lado deles, ou o quê?"

"Ela está do lado deles", disse Ral. "Mas tentem não matá-la."

"Ah, Ral", disse Lavínia, dando um passo à frente. A voz era a dela, mas o tom, o modo, estava tudo errado. Era Bolas, ou ao menos o fragmento de Bolas que andara flutuando por Ravnica. "Antigamente, tais preocupações nunca o teriam incomodado. Quando foi que você ficou tão mole de coração?"

"Quando eu me afastei de você", disse Ral.

"Tão rápido para a raiva, também." Lavínia exibiu um sorriso presunçoso. "Quase como se tivesse algo de que se envergonhar."

"Fiz muitas coisas de que me envergonho", disse Ral. Ele olhou para Vraska. "Isso não significa que eu tenha que aumentar meus pecados ajudando ele."

"Não finja que me entende, Zarek", disse Vraska, afrouxando seu sabre na bainha. "E não tente reivindicar a superioridade moral aqui. Há uma cidade em ruínas cheia do meu povo pela qual você tem que prestar contas."

"Não tivemos escolha", disse Ral. "Se você não tivesse nos traído em primeiro lugar—"

Seus olhos voltaram para Lavínia, que ainda sorria. Ral parou abruptamente.

"Eles querem arrastar isto", disse ele baixinho. "Se Bolas escapar de Niv-Mizzet, ele pode esmagar este lugar em fragmentos. Temos que acabar com isto o mais rápido que pudermos."

Kaya deu um aceno sombrio. "Então, qual é o plano?"

"Eu cuido da Lavínia." O poder estalou em suas mãos. "Consigo provavelmente atordoá-la. Você e Hekara mantenham a Vraska ocupada. Não se aproximem demais, ela pode—"

"Já lutei com górgonas antes", disse Kaya. "Eu me viro."

"E além disso, virar pedra pode ser divertido", disse Hekara. "Eu tentaria fazer tipo uma cara boba, tipo bleh! E então seria uma estátua para sempre."

"Vamos tentar evitar isso", disse Ral.

Ele deu um passo para a esquerda, em direção a Lavínia, enquanto Kaya circulava para a direita e Hekara caminhava despreocupadamente pelo meio. Vraska e Lavínia sacaram suas espadas, equiparando-se aos seus oponentes. Ral lançou um último olhar à górgona, então balançou a cabeça e concentrou-se em sua própria oponente. Espero que a alta opinião que Kaya tem de si mesma seja justificada.

Ele nunca vira Lavínia lutar. Em seus dias de Azorius, porém, ela fora uma duelista famosa e sua postura nítida com a lâmina indicava que ela não deixara suas habilidades enferrujarem. Ral ergueu uma mão e lançou um raio exploratório de relâmpago, que estalou pela sala e aterrou no peito dela. Lavínia não estremeceu e a magia brilhou em sua armadura.

Proteção contra relâmpagos. Como o Mestre da Clareira Garo, ela viera preparada. Então isto não vai ser fácil.

Outro passo à frente e Lavínia moveu-se, tão subitamente como se ele tivesse cruzado um fio de tropeço. Seu trabalho de pés era tão suave que ela parecia fluir sobre o chão, a espada saindo em uma estocada casual que teria atravessado a garganta de Ral. Ele esquivou-se lateralmente, aparou o próximo golpe no bracelete de aço que se estendia de sua manopla de mizzium e soltou uma rajada de relâmpago a curta distância. Desta vez Lavínia estremeceu, mas apenas ligeiramente e a proteção contra relâmpagos zumbiu conforme consumia a maior parte do poder. Lavínia inverteu seu golpe e Ral recuou para colocar um pilar de suporte de aço entre eles. Ele pensou furiosamente enquanto ela o circulava.

Eu poderia sobrecarregar a proteção. Foi o que ele fizera com Garo, mas tinha seus riscos. Consumiria muito do poder restante em seu acumulador e provavelmente mataria Lavínia se ele não calculasse a descarga com exatidão. Droga, droga, droga. Eu deveria ter insistido em enviar alguém com ela. Ela disse que estava rastreando o principal agente de Bolas — tem que ser o Tezzeret. Ele deve tê-la pego de surpresa.

"Qual é o problema, Ral?" disse Lavínia, no tom zombeteiro de Bolas. "Você não parece estar se lançando na violência com o seu vigor habitual."

"Por que a Lavínia?" perguntou Ral, circulando cautelosamente. "Se você queria alguém aqui para me parar, por que não enviar o Tezzeret?"

"Porque você adoraria a chance de acertar as contas com o Tezzeret", disse Bolas. Ele fez o rosto de Lavínia fazer um biquinho, a expressão parecendo totalmente antinatural nela. "Mas ferir a pobre Lavínia quebrará o seu coração."

"Quebrar meu coração?" disse Ral, incredulamente. "Isto é para me ferir a mim?"

"Oh, você não tem ideia do que vou fazer com você", disse Bolas. "Não gosto quando as pessoas não pagam suas dívidas, Ral Zarek. Fiz de você o que você é e, quando pedi um favor em troca, você me deu as costas. Por isso, Lavínia vai morrer. Seus amigos aqui morrerão. Mas você eu guardarei, porque você vai assistir a todos que ama morrerem gritando. Começando pelo pobre pequeno Tomik. Um rapaz tão legal." Os lábios de Lavínia retorceram-se antinaturalmente no sorriso terrível do dragão.

Ral fez o melhor que pôde para conter sua raiva. "Parece muito trabalho para alguém ocupado em dominar o Multiverso."

"Vale a pena pagar minhas dívidas. Isso . . . cria uma reputação útil. Além disso, me diverte." Bolas deu de ombros. "Por outro lado, talvez eu apenas te mate aqui e agora. Teremos que ver—"

Lavínia disparou para frente novamente, rápido o suficiente para Ral quase perder o movimento e ser espetado. Ele jogou-se para um lado enquanto a espada dela raspava contra o pilar de suporte, tirando faíscas. A perna dela enganchou na dele, enviando-o tombando ao chão e ele rolou lateralmente bem a tempo de evitar um golpe descendente. Ral estendeu as mãos, liberando uma poderosa rajada de energia e a força daquilo ergueu Lavínia e a lançou contra um pilar. A armadura dela ressoou contra ele com um som de gongo e ela caiu de joelhos.

Ral agarrou um cabo pendurado e puxou-se para ficar de pé. Lavínia empertigou-se também, um fio de vermelho escorrendo do canto de sua boca.

"Oh, eu senti isso." O lábio dela contraiu-se. "Ou melhor, a Lavínia sentiu. Cuidado com seus brinquedos, Ral, ou você acabará quebrando-os."

Droga e droga dobrada. Ele lançou um breve olhar por cima do ombro e viu Vraska e Kaya dançando entre os pilares de aço. Kaya parecia não conseguir chegar perto o suficiente para usar suas adagas, mas sua habilidade de simplesmente caminhar através dos obstáculos a mantivera fora do caminho da espada serrilhada de Vraska e longe de seu olhar mortal até agora. Hekara espreitava na borda da luta, enviando projéteis de corte afiado contra a górgona sempre que tinha um tiro livre.

Mantendo a posição, mas não vencendo. E Bolas tinha que estar se aproximando. Precisamos passar por elas—

Ral lançou um olhar ao teclado de segurança, mas Lavínia seguiu seu olhar e balançou a cabeça.

"Pensando em fugir de mim, Zarek? A dança está apenas na metade." Ela ergueu sua lâmina. "Venha, então."

Sem escolha. Ral deixou o poder se reunir em suas manoplas conforme fechava a distância. Esquivou-se sob um golpe, bloqueou outro com seu bracelete e alcançou Lavínia. Ela girou para longe, rindo e golpeando-o de outro ângulo. Ral foi atrás dela, o poder contido em suas manoplas tornando-se incandescente, mas ela era rápida demais. Os contragolpes dela quase o pegaram várias vezes e ele teve que recuar desesperadamente para evitar um corte lateral rápido.

"Ral!" Um par de facas de Hekara passou voando por Lavínia, fazendo-a dar um meio passo atrás. A bruxa das lâminas convocou mais, lâminas surgindo em suas mãos e Lavínia abaixou-se e esquivou-se pelos pilares, as facas ricocheteando no aço. Ral, recuperando o fôlego, foi atrás dela.

"Tente prender a atenção dela!" gritou Ral.

"Foi o que ela disse!" gritou Hekara de volta.

"Eu não—" Ral balançou a cabeça conforme a garota gargalhava e manteve sua mente na luta.

Ter que vigiar Hekara restringia os movimentos de Lavínia e Ral rapidamente fechou o cerco. Logo Lavínia estava na defensiva, golpeando para mantê-lo afastado enquanto se abaixava e esquivava da saraivada de lâminas. Ral esperou até que um golpe viesse um pouco longe demais à frente, então investiu contra ele, raspando a espada para longe com um bracelete enquanto trazia sua outra mão, estalando com poder mortal—

"Ral!" gritou Lavínia, em sua própria voz. "Não!"

Ral hesitou. Não por muito tempo, mas foi o suficiente. O sorriso de Bolas enrolou-se no rosto de Lavínia e ela o chutou no estômago, dobrando-o. Ele caiu de joelhos, ofegante em busca de ar.

"Idiota", disse Bolas, conforme a espada de Lavínia vinha à frente.

Houve um momento de movimento frenético e então um momento de quietude.

Os três estavam próximos, próximos o suficiente para um abraço. Ral, lutando para se levantar e Lavínia, com sua lâmina estendida. Entre eles estava Hekara, recebendo a espada de Lavínia no alto do peito. Ela passou de forma limpa pelo seu traje de couro multicolorido, a ponta emergindo alguns centímetros de suas costas, logo abaixo da omoplata, longe o suficiente para tocar a pele de Ral sem perfurá-la.

Ral a pegou antes que ela pudesse cair. "Hekara!"

Ela inclinou-se para trás para olhar para ele, ainda sorrindo. "Parceiros, né?"

"Parceiros", disse Ral, entre dentes cerrados.

"Além disso", disse Hekara, suas mãos subindo para tocar o local onde a espada de Lavínia entrara em sua carne, "nunca fui esfaqueada de um lado ao outro antes. Sempre me perguntei como era." Ela tossiu, borrifando sangue pelo aço e encarou aquilo em fascinação. "Não é tão ruim. Não dói tanto quanto eu pensava."

Lavínia afastou-se, retirando sua espada com um raspar de arrepiar os dentes da lâmina no osso. Os olhos de Hekara ficaram muito arregalados e uma golfada de sangue pulsou do ferimento.

"Oh", disse ela em uma vozinha. "Agora sim." E morreu, com um pequeno estremecimento que fez tilintar os sinos em seu cabelo.

"Você vê, Ral?" disse Bolas. "Você vê o que sua misericórdia lhe traz—"

Ral surgiu de pé com um rugido, saltando sobre o corpo de Hekara. Lavínia girou e golpeou e Ral bloqueou com seu bracelete, a espada impactando com uma força de abalar os ossos. Antes que ela pudesse retirá-la, sua outra mão disparou, agarrando a lâmina perto da base. Ela cortou sua palma, mas ele não se importou — o poder surgiu através dele, fluindo pelos fios que ligavam seu acumulador às suas manoplas, jorrando no aço. A lâmina começou a fumegar e Lavínia soltou-a reflexivamente conforme ela ficava quente demais para tocar. Ela chiou ao atingir o chão, brilhando em vermelho cereja, perdendo lentamente sua forma conforme derretia em uma poça de escória.

Lavínia dançou para trás, mas Ral permaneceu com ela, agarrando o braço dela e arrancando-a do equilíbrio. Ela mirou um chute no seu torso e ele o aceitou com um grunhido, sua outra mão buscando a garganta dela. Havia algo ali, um pedaço de metal com um cristal brilhante, que Ral vira quando ela se inclinara para esfaquear Hekara. Ele não sabia o que era, mas o aspecto da coisa tornava sua origem inconfundível. Tezzeret. Ele o agarrou e o arrancou.

"Ainda você persiste em sua tentativa de—" Lavínia, recuando dele, tropeçou e agarrou a cabeça. "Não. Pare com isso." E então, em uma voz muito mais parecida com a da própria Lavínia, ela berrou: "Saia da minha cabeça!"

Ela dobrou-se, agarrando o crânio e algo irrompeu dela. Uma forma enevoada e espectral tomou forma acima dela conforme ela colapsava no chão. Era indistinta, mas no entanto Ral conseguia ver seus contornos — vagamente humanoide, mas a cabeça era encimada por longos chifres curvos.

Pobres tolos. A voz era Bolas por inteiro agora, raspando contra os pensamentos de Ral. Tudo o que tenho a fazer é encontrar outro corpo. Vocês sabem que não podem me parar.

"Ele não pode", disse Kaya, surgindo através de um pilar em um clarão de luz roxa, "mas eu com certeza posso." Um par de adagas, em chamas de energia, pegou a coisa-Bolas pelas costas. "Acho que estamos todos muito fartos de você."

O espírito emitiu um som que começou como um rugido de dragão e subiu para um grito de chaleira. Sua forma incorpórea contorceu-se, então explodiu como um dente-de-leão tocado pelo vento, pedaços de sua essência espalhados em todas as direções antes de desaparecerem.

"Odiei aquela maldita coisa", murmurou Kaya. Então, vendo as duas mulheres no chão, seu fôlego travou. "Hekara—"

"Kaya, abaixe-se!" gritou Ral. Sua mão subiu e o relâmpago estalou, mas sua mira estava errada e ele atingiu e aterrou no pilar de aço ao lado de Vraska. A górgona girou ao redor dele, a espada serrilhada assobiando pelo ar.

Kaya ergueu as adagas a tempo de bloquear o corte, mas a força do golpe a jogou para trás. Antes que ela pudesse se recuperar, Vraska trouxe o sabre de volta em um golpe vicioso com o pomo que bateu a guarda contra a têmpora de Kaya. Kaya desabou, estirada no chão ao lado de Hekara e Lavínia. Vraska caminhou pelas três formas imóveis, gavinhas abertas e retorcendo-se, focada em Ral.

"Garota brava", Vraska siseou. "Mas tola, por tirar os olhos do oponente mais perigoso."

Ral recuou, indo em direção à borda externa da sala. Enviou um raio de relâmpago contra a górgona, mas ela desviou para trás de um pilar de aço e sua eletricidade envolveu-o inutilmente.

"Eu, por outro lado, estive observando você", disse Vraska. "E o que eu sei é que você gastou inteiramente demais do seu poder. Derreter a espada da Lavínia?" Ela estalou a língua. "Certamente aquilo foi desnecessário."

"Tenho o suficiente restando para lidar com você", disse Ral, ainda recuando. Ele não ousava deixá-la aproximar-se — a curta distância, não havia como evitar o olhar mortal da górgona. A eletricidade ainda estalava sobre suas manoplas, mas Vraska tinha razão. Ele gastara poder de forma imprudente, aqui e lutando contra os soldados lá embaixo.

"Então faça." Vraska afastou-se do pilar, acompanhando os passos lentos de Ral para trás. Estavam bem longe do cerne do farol agora, aproximando-se do exterior da cúpula. "Exploda-me em pedaços. Vá em frente." Quando ele não se moveu, o sorriso dela alargou-se, a língua dardejando sobre dentes afiados. "Como eu disse."

"É isto o que você realmente quer?" disse Ral, deixando um toque de desespero em sua voz. "Que o Bolas vença? Você acha que ele deixará você continuar governando seu pequeno império?"

"Claro que não", disse Vraska. "Tenho certeza de que ele me matará assim que eu não for mais útil."

"Então—"

"Mas você está perdendo o ponto", disse Vraska. "Ele vai vencer de qualquer maneira. Niv-Mizzet não pode pará-lo. Seu farol não o parará. E se a única chance de os Golgari sobreviverem é se juntar ao lado vencedor . . . " Ela deu de ombros. "Tenho que aceitar. Não importa o custo."

"Ele mente. Você deveria saber disso. O que quer que ele tenha lhe prometido, ele não tem razão para cumprir."

"Eu sei." Os olhos de Vraska cerraram-se. "Mas é tudo o que eu tenho."

As costas de Ral bateram contra a cúpula de cobre. Vraska lambeu os lábios.

"Sem lugar para correr, Zarek." Ela nivelou sua espada. "Já fizemos isto antes. E desta vez, não há anjo para resgatá-lo."

"Não há", concordou Ral. "Mas desta vez, estamos no meu território, não no seu."

Ele esticou a mão para cima e encontrou a borda de uma das grades que deixava fios e condutos atravessarem a cúpula e alcançarem o exterior da torre. Era feita de fios finos de cobre, trançados juntos e Ral enviou todo o poder restante em sua mochila correndo por ela. Ela faiscou, então cedeu, derretendo. Cabos caíram ao chão, deixando uma abertura na cúpula de um metro quadrado.

Lá fora, a tempestade finalmente estourara. A chuva caía sobre a cidade em torrentes, ressoando na cúpula e escorrendo dela em lençóis. As nuvens escuras que pairaram o dia todo haviam descido e descargas brilhantes saltavam de uma para a próxima, seguidas por estrondos distantes de trovão. Ral conseguia sentir o poder delas ecoar dentro dele, arrepiando os pelos da nuca. Ele sorriu, muito lentamente.

"Você me venceu quando lutamos na Subcidade", disse ele. "Agora deixe-me mostrar quão poderoso eu sou aqui, sob os céus de Ravnica!"

Vraska rosnou e investiu para frente, os olhos começando a brilhar com sua luz matadora. Mas era tarde demais. O relâmpago saltou das nuvens mais próximas, uma dúzia de descargas de uma vez, tateando como dedos em busca do buraco na cúpula. Elas passaram por ele como o fundo de uma agulha e atingiram Ral, cercando-o com uma aura estalante e cintilante de branco brilhante. Cada fio de cabelo em sua cabeça ficou em pé. Partes de sua mochila ganiram e fundiram-se, mas ele não precisava dela, não agora. Ele ergueu uma mão e deixou o poder fluir. O raio era um monstro, alimentado pela energia contida da tempestade há muito negada e cruzou o espaço entre ele e Vraska em uma fração de segundo.

Quando a luz sumiu, ela se fora, substituída por um longo rastro fumegante no chão de aço.

Ral cambaleou conforme o poder diminuía. Canalizar tanto era difícil, mesmo para ele e, combinado com tudo o que viera antes, ele subitamente sentiu como se tivesse corrido voltas ao redor do Décimo Distrito. Quase pronto. Ele forçou-se a continuar se movendo, cambaleando pela sala.

Ajoelhou-se ao lado de Hekara, de costas em uma poça de carmesim e esticou a mão para fechar seus olhos vidrados. Ao lado dela jazia Lavínia e Ral certificou-se de que ela estava respirando com facilidade. Fez o mesmo com Kaya, alguns passos adiante; havia sangue em sua cabeça onde o punho da espada de Vraska a cortara, mas não parecia que o golpe tivesse rachado seu crânio. Satisfeito que ela ficaria bem, ele lutou para ficar de pé e arrastou-se adiante.

Quando finalmente parou diante do farol, encarando o teclado de segurança, sua mente ficou subitamente branca. Por um momento, seu estômago revirou, aterrorizado.

Elias. Um trecho de música que seu amante dedilhara em um teclado, há uma vida inteira. Antes de tudo. Ral alcançou as teclas com a mão tremendo e as pressionou.

Com um chiado, o cerne do farol abriu-se. Acima do teclado, um único botão grande emergiu de um compartimento trancado. Apenas um controle, no fim das contas, porque o farol tinha apenas uma função. Uma vez ligado, sua luz brilharia por todo o Multiverso.

O botão era, é claro, vermelho brilhante. Que engenheiro Izzet poderia resistir?

Bem. Ral encarou-o por um momento, então respirou fundo. É hora de jogar os dados.

Ele desceu a mão com força.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

Nas profundezas da cidade, o sacerdote da morte kraul Mazirek rastejava por um túnel úmido. Storrev deslizava ao seu lado, resplandecente em suas vestes apodrecidas e uma escolta de Outrora flanqueava o par. Mazirek dava pouca atenção aos zumbis; sua mente estava em outro lugar.

Storrev trouxera uma mensagem agendando um encontro. Ela não conhecia a fonte, mas era óbvio para Mazirek, dado o momento. Bolas. Com Vraska tendo partido para servir o dragão diretamente — e esperançosamente para morrer dolorosamente — Bolas prometera a Mazirek a liderança dos Golgari. Finalmente, o poder que eu mereço. Chegara a hora de o dragão cumprir suas promessas.

Mas ele não sabia onde este mensageiro deveria encontrá-lo. Estas eram passagens em que ele nunca entrara antes, aproximando-se da superfície e entrelaçadas em alguns pontos com os porões de algumas partes da cidade alta. Fazia sentido — Bolas era uma criatura da superfície, no fim das contas e, como todos os habitantes da superfície, sentia-se desconfortável aventurando-se longe demais no reino subterrâneo do Enxame. Ainda assim, Mazirek olhou ao redor um pouco nervoso conforme Storrev o guiava por um arco de pedra natural para dentro de uma caverna maior, que parecia ter sido ampliada por mãos humanas.

"Quanto mais falta para este mensageiro?" disse Mazirek, as palavras arrastadas e repletas de estalidos.

"Acredito que tenhamos chegado." Storrev olhou ao redor da câmara ampla e escura. "Só temos que esperar."

"Não gosto de esperar." Os muitos olhos de Mazirek cerraram-se. "Você mentiu para mim, Storrev?"

Ele deixou o poder vazar em sua voz. Fora ele quem despertara as Outrora. Nenhuma delas, nem mesmo liches de livre vontade como Storrev, podia desobedecer a uma ordem direta ou recusar uma pergunta.

"Não, meu senhor." A lich curvou-se. "Recebi uma mensagem solicitando um encontro. Trouxe-o ao lugar que ela especificava."

"Uma mensagem de quem?"

"Ninguém que eu conheça", disse Storrev.

Não Vraska, então. Mazirek ainda estava metade convencido de que aquilo era alguma armadilha da górgona. Olhou ao redor, irritado e captou o brilho de tochas acesas contra as paredes úmidas. Um homem se aproximava, envolto em um manto com capuz.

"Você!" Mazirek estalou para ele. "Você é o mensageiro."

"É", ele grunhiu. "Sou o Brutus, do Show Fun-Time de Comédia Improvisada do Brutus." Seu capuz caiu, revelando uma cabeça grande e calva, coberta de cicatrizes.

"Show de comédia?" disse Mazirek. "Que tolice é esta?"

"Você não parece muito engraçado", disse Storrev.

"Muita gente diz isso", Brutus ribombou. Alcançou sob o manto e saiu com um enorme cutelo de açougueiro, manchado de ferrugem e sangue seco. "Mas espere até ouvir o punchline."

"O quê?" Mazirek sibilou. "Você está nos ameaçando?"

"Nopes", disse Brutus. "Só fazendo um favor para a Hekara. Ela me pediu para dizer que a Vraska manda lembranças."

"Insolente—"

Mazirek ergueu uma garra para obliterar o tolo, então parou conforme algo se moveu no escuro. Mais figuras no vermelho e preto dos Rakdos surgiram na luz da tocha, ao redor deles, de ombros largos e bem armadas. Nenhuma delas parecia particularmente interessada em comédia.

"Storrev!" o kraul gritou. "Você sabia."

"Sabia", disse a lich. "Embora, como eu disse, nunca tenha conhecido o Brutus antes."

"Você vai me defender", disse ele. "Você e suas Outrora. Defendam-me até a morte!"

Storrev inclinou a cabeça. "Eu sabia que você ordenaria isso também."

Os capangas Rakdos fecharam o cerco.

"Vocês serão destruídos!" gritou Mazirek.

"Sacrifícios são necessários", disse Storrev. "O restante de nós será livre."

Mazirek virou-se para longe dela com um rosnado, a magia da morte saltando de suas garras. Houve alguns momentos de violência frenética, então silêncio, quebrado apenas pelo risinho feio da risada de Brutus.

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#linebreak Era outono em Ravnica e, por isso, chovia. A torrente do céu espalhava-se por bueiros cheios de vidro quebrado e tijolos partidos e tamborilava nas ruínas de lojas e casas. Encharcava as roupas de cadáveres, abatidos nas ruas ou metade enterrados em suas casas destruídas. Limpava a fumaça do ar e bania o cheiro de metal queimado. Em alguns lugares, onde as linhas de esgoto haviam sido rompidas, ela se acumulava em vastas poças estagnadas.

A chuva encharcava Tezzeret até os ossos, pesando em seus dreadlocks e ensopando seu manto. Formava gotículas e corria pela superfície de seu braço de metal, pingando de seus dedos em garra. Ele sacudiu a cabeça, borrifando água, ao dobrar a esquina de uma rua que era metade escombros e entrar na presença de seu mestre.

Nicol Bolas sentava-se nos destroços de uma fileira de casas, uma pilha de tijolos esmagados e vigas estilhaçadas servindo de trono. Ele parecia, para surpresa de Tezzeret, bem desgastado. Marcas de queimadura e escamas quebradas estavam por todo o seu corpo enorme e uma ferida de queimadura imensa em seu peito estava cruzada por cortes profundos que vertiam sangue preto. Nada daquilo parecia incomodar o dragão indevidamente, porém e, enquanto Tezzeret observava, os ferimentos começaram a se fechar.

Em uma mão ele segurava um crânio branco imenso, que só poderia ter pertencido a outro dragão quase tão grande quanto o próprio Bolas. Limpo de qualquer carne, ele repousava na palma da mão enorme de Bolas e Bolas o observava com uma mistura de orgulho e algo como tristeza.

Este mundo não tem a menor chance. Tezzeret permitiu-se um sorriso privado. Nunca teve. #linebreak Ele atravessou a rua e ajoelhou-se diante do dragão. Bolas contemplou o crânio por mais um momento, então o colocou cuidadosamente de lado e olhou para baixo para Tezzeret.

"Meu servo fiel." O tom urbano de Bolas, em pessoa, era sublinhado pelo baixo profundo do ribombar do dragão. "Você tem notícias?"

"Sim, mestre." Tezzeret levantou-se. "Os assuntos estão procedendo bem e não encontramos resistência significativa até agora."

"Você não encontrou." Bolas lançou um olhar ao crânio. "Não importa. O que mais?"

"Ral Zarek alcançou a Torre do Farol", disse Tezzeret, com cautela. "Vraska e seu . . . ah, espírito confrontaram-no, mas eles foram bem-sucedidos. O espírito foi destruído e o destino da Vraska é incerto."

"E o farol?"

Bolas tinha que saber. Tezzeret soubera, no momento em que acontecera. O farol queimava em sua mente, uma chama brilhante visível para qualquer Planeswalker, um convite para Ravnica. Ele limpou a garganta.

"Ele o ativou, mestre."

"Entendo." Um sorriso lento espalhou-se pelo rosto imenso do dragão. "Então tudo está indo de acordo com o plano."

Fim